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quarta-feira, agosto 10, 2022
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Pinta-preta – Perigo ronda lavouras de tomate e batata

Autores

Ricardo Borges Pereira
Doutor e pesquisador em Fitopatologia – Embrapa Hortaliças
Alexandre Augusto de Morais
Doutor e pesquisador em Genética e Melhoramento de Plantas – Embrapa Hortaliças

Cultivos de tomateiro e batateira destacam-se por apresentarem um amplo histórico de problemas fitossanitários, responsáveis por perdas significativas na produção.

Essas hortaliças demandam grande quantidade de insumos destinados ao manejo e controle de doenças durante todo o ciclo de cultivo, o que acarreta no aumento dos custos de produção.

Dentre as doenças foliares mais importantes, destaca-se a pinta-preta ou mancha de alternária, que se encontra disseminada por todas as regiões produtoras de batata e tomate do País. As perdas provocadas por essa doença variam em função de inúmeros fatores, tais como época em que o patógeno se estabelece, taxa de progresso da doença, cultivares utilizadas, assim como as condições ambientais prevalecentes.

A pinta-preta reduz de forma significativa a produtividade de frutos de tomate e de tubérculos de batata, podendo causar elevadas perdas em curto espaço de tempo. A doença ocorre em qualquer estádio de desenvolvimento das plantas. Em tomateiro, a doença apresenta pouca importância em cultivos realizados em ambiente protegido (estufas).

Sintomas em tomateiro

Em mudas de tomateiro, geralmente oriundas de sementes contaminadas, o patógeno ataca a região do caule próximo ao solo, causando o anelamento e, consequentemente, a morte das plantas. Já em plantas adultas, a doença ocorre com mais frequência em folhas, pecíolos e frutos, mas pode incidir também sobre as hastes.

Independente da espécie associada, os sintomas iniciais são observados nas folhas velhas próximas ao solo, na forma de pequenas lesões necróticas de coloração marrom-escura a preta, com bordos bem definidos, de formato mais ou menos circular, com a presença de anéis concêntricos característicos e halo amarelado.

Em condições ambientais favoráveis, a doença progride de forma ascendente até atingir as folhas novas, causando severa destruição foliar. No caule e pecíolos as lesões são escuras, alongadas, circulares, ligeiramente deprimidas e apresentam anéis concêntricos bem evidentes, semelhantes aos observados nas folhas.

Nos frutos as lesões são consideravelmente maiores, escuras e deprimidas na região peduncular, onde se observa a presença típica de anéis concêntricos. Normalmente os frutos atacados caem no solo. Manchas pardo-escuras também podem ser observadas nos pedicelos e cálices das flores e frutos infectados.

Sintomas em batateira

Os sintomas da doença na batata podem ser observados em toda a parte aérea da planta, causando intensa redução da área foliar. Os sintomas ocorrem inicialmente nas folhas mais velhas, na forma de pequenas manchas escuras de 01 a 02 mm.

Com o tempo, as lesões aumentam de tamanho, apresentam coloração escura, com zonas concêntricas características, adquirem formato circular alongado, porém, delimitam-se às nervuras da folha.

Conforme a doença progride, novas lesões são observadas, enquanto as lesões mais velhas se expandem até coalescerem, levando à desfolha acentuada das plantas e, consequentemente, à produção de tubérculos menores.

Nas hastes são observadas lesões escuras levemente deprimidas, podendo apresentar-se de forma alongada e circulares, com anéis concêntricos bem evidentes. Os sintomas são raramente observados nos tubérculos, mas quando ocorrem, apresentam-se na forma de lesões escuras de formato circular a irregular, deprimidas e de aspecto seco.

Etiologia

No Brasil, até o ano de 2009 acreditava-se que a pinta-preta era causada somente pelo fungo Alternaria solani. Contudo, estudos demonstraram que Alternaria tomatophila e A. cretica foram identificadas como as principais espécies associadas à doença em tomateiro, enquanto a espécie mais comum associada à pinta-preta em batateira é A. grandis. Curiosamente, A. solani não foi identificada causando pinta-preta nas culturas.

A ocorrência de epidemias severas da doença está associada a temperaturas noturnas moderadas, elevada umidade relativa (acima de 90%) e chuvas ou irrigações frequentes, que favorecem a produção de esporos do patógeno.

Normalmente, o patógeno se estabelece na lavoura após o período de maior vigor vegetativo e se dissemina na forma de esporos (conídios). A disseminação ocorre principalmente pelo vento, chuva ou irrigação, insetos, trabalhadores e implementos agrícolas.

Sementes de tomateiro infectadas podem disseminar o patógeno a longas distâncias e constituem-se fonte de inóculo inicial. O patógeno sobrevive de forma viável entre estações de cultivo em restos culturais, plantas voluntárias de tomateiro e batateira ou em outras solanáceas infectadas, embora haja uma aparente especificidade ao hospedeiro. Os conídios caracterizam-se por serem altamente resistentes a baixos níveis de umidade, podendo permanecer viáveis por até dois anos.

Controle

A adoção integrada de diferentes práticas é fundamental para o controle eficiente da pinta-preta em ambas as culturas. Os métodos de controle preventivo devem ser priorizados sempre que possível, pois após o estabelecimento da doença o controle é mais difícil e os prejuízos podem ser maiores.

Locais onde há possibilidade de acúmulo de umidade e ventos fortes e constantes, bem como épocas do ano de maior precipitação, são mais propensos à ocorrência da pinta-preta. No caso do tomateiro, o cultivo em ambiente protegido (estufa) contribui para a redução da ocorrência da doença.

Outros métodos culturais recomendados para o controle da doença são: utilização de sementes e mudas de tomateiro sadias; rotação de culturas por dois a três anos com gramíneas ou leguminosas não hospedeiras para a redução da população do patógeno; incorporação de restos culturais imediatamente após a colheita, o que acelera a decomposição e contribui para a redução do inóculo; e evitar plantio próximo a lavouras em fase final de produção que possam servir de fonte de inóculo.

Ainda, são recomendadas irrigações preferencialmente por gotejamento e no período da manhã, para evitar a formação de filme d’água na superfície foliar; eliminação de hospedeiras alternativas, plantas voluntárias (tigueras) ou remanescentes de cultivos anteriores que nascem e se desenvolvem dentro e nos arredores da área de cultivo; adubação equilibrada visando manter o crescimento vigoroso das plantas; e cobertura do solo com palhada, que contribui para a redução da dispersão da doença, pois evita que respingos da chuva carreguem conídios do patógeno do solo para a parte aérea da planta.

Contudo, é difícil obter sucesso exclusivamente com os métodos culturais citados acima, especialmente quando a cultura se insere em sistemas intensivos de produção. Uma das alternativas seria a resistência genética, porém, a maioria das cultivares de tomateiro e batata disponíveis no Brasil mostra-se suscetível ou moderadamente suscetível à doença, o que consagrou a utilização de fungicidas como uma das principais medidas de controle da doença, em condições ambientais favoráveis à sua ocorrência.

Dicas

O controle químico da doença deve ser realizado por meio de aplicações preventivas de fungicidas protetores ou de contato (mancozebe, famoxadona, iprodione, metiram, propinebe e clorotalonil) ou cúpricos (oxicloreto de cobre, hidróxido de cobre e óxido cuproso) no início do período vegetativo.

Eles formam uma película protetora na superfície da planta e atuam sobre múltiplos sítios do metabolismo do fungo, impedindo a infecção do patógeno e, consequentemente, a seleção de raças resistentes. No entanto, devem ser aplicados frequentemente, pois a planta emite novas folhas que ficam desprotegidas, além de serem removidos pelas chuvas.

Quando a doença atinge incidências maiores, recomenda-se a aplicação de fungicidas sistêmicos que atuam de forma curativa. Como esses produtos apresentam modo de ação específico, para minimizar os riscos de seleção de raças resistentes do patógeno tem-se recomendado a aplicação de produtos com misturas prontas, contendo fungicidas pertencentes a grupos distintos: estrobilurinas (azoxistrobina, trifloxistrobina e picoxistrobina), triazóis (difenoconazol, tebuconazol) e carboxamidas (boscalida).

Vale ressaltar que a eficácia no uso desses produtos geralmente está condicionada a fatores como a suscetibilidade da cultivar, clima, escolha do fungicida adequado, pressão de doença, tecnologia de aplicação, posicionamento do produto, bem como o número e o intervalo entre aplicações.

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