Pitaia: Nutrição e adubação

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Autores

Guilherme Antonio Vieira de Andrade
Engenheiro agrônomo e mestrando em Fitotecnia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
Fábio Oseias dos Reis Silva
Doutor e pesquisador – UFLA foseias_ufrrj@hotmail.com
Crédito Ellison Oliveira

O cultivo da pitaia tem se expandido pelas diferentes regiões brasileiras. Atualmente, seu plantio tem sido feito desde as regiões do sul até o norte do Brasil, deixando de ser uma fruta promissora para virar realidade no cenário da fruticultura nacional.

A planta tem se adaptado a diferentes condições edafoclimáticas, contudo, para o cultivo de plantas com boa qualidade fitossanitária, com produtividades elevadas e frutos de qualidade, é necessário que o produtor conheça as questões relacionadas a nutrição da pitaia.

Para obter frutos de qualidade, altas produtividades e manter a fitossanidade das pitaias, além de manejos como podas, polinização, controle de pragas, doenças e plantas daninhas, é imprescindível monitorar o estado nutricional das plantas e do solo e repor os nutrientes necessários de forma a manter o equilíbrio nutricional do solo para que haja bom desenvolvimento da frutífera.

No entanto, antes de adentrar no assunto nutrição mineral de pitaias, é crucial levar em consideração alguns aspectos essenciais para que se obtenha o resultado desejado. O cultivo da pitaia só será satisfatório levando em consideração o conjunto de fatores edafoclimáticos que sustentarão e darão suporte às plantas, notadamente essa cactácea denominada perene, que permanecerá no campo por muitos anos.

Dessa forma, fica claro e evidente que se deve dar atenção especial não só ao aspecto nutricional propriamente dito, mas também é preciso olhar do ponto de vista mais amplo, considerando a umidade de solo, fitossanidade da planta, fontes de adubos e momento de aplicação, microbiota e pH do solo, entre outros.

Acidez e calagem do solo

Para uma eficiente nutrição de pitaias, é necessário fazer a correção da acidez do solo, por meio da prática da calagem, sobretudo para reduzir a toxidez de elementos tóxicos, como H+, Al3+ e Mn2+ e para elevar o pH do solo, buscando uma melhoria na disponibilidade dos nutrientes como nitrogênio, enxofre, fósforo e boro.

Além dos elementos citados, a disponibilização de cálcio e magnésio provenientes da adição de calcário é outro benefício da calagem. A faixa de pH ideal para a maioria das culturas se encontra entre 5,5 e 6,5, permitindo boa absorção de macronutrientes, sem reduzir drasticamente a disponibilidade de micronutrientes, mantendo equilíbrio entre o solo e a planta.

Um dos métodos frequentemente utilizados na prática da calagem é a elevação da saturação de bases (V%), no qual, em pitaia, tem se preconizado elevar a saturação a 70%.

Em experimento avaliando o crescimento inicial em dois tipos de solo, sendo um Neossolo Quartzarênico e um Latossolo Distrófico, verificou-se elevada resposta à calagem até as doses mais elevadas, que proporcionou valores de pH de 6,6 e 7,0 no Latossolo e Neossolo, respectivamente, e a saturação por bases em torno de 70%.

No crescimento inicial da pitaia, verifica-se grande resposta à calagem, sendo necessário doses maiores para estimar até que ponto esse crescimento ocorre. Porém, é importante frisar que doses elevadas de calcário podem reduzir a disponibilidade de nutrientes como K, N e micronutrientes.

O K é o nutriente mais acumulado pelos cladódios de pitaia, sendo que a sua redução na absorção é diretamente relacionada a altos teores de Ca e Mg provenientes de altas calagens.

Adubação com macronutrientes

A adubação de plantas pode ser ajustada utilizando diferentes parâmetros, como curvas de doses respostas, tabelas de recomendações para culturas mais conhecidas e pelo balanço nutricional, sendo que a dose varia conforme a demanda das plantas, com o que o solo e matéria orgânica conseguem fornecer e de acordo com a eficiência de recuperação de cada fertilizante nos diferentes tipos de solo.

Na cultura da pitaia, o método mais utilizado para obter parâmetros para a adubação são as curvas de doses respostas. O método de dose resposta é um indicativo para adubação, porém, é altamente dependente da região de cultivo e do genótipo. Dessa forma, é necessário que o técnico e o produtor observem os resultados obtidos na região de cultivo para que se alcance um equilíbrio nutricional adequado para a cultura da pitaia.

As recomendações de nutrientes para uma determinada cultura levam em consideração o genótipo em estudo, visto a grande variabilidade na absorção de nutrientes entre as diferentes variedades e cultivares.

Essa questão é muito importante, haja vista que, atualmente, já existem várias espécies e variedades de pitaias sendo cultivadas, porém, na literatura tem-se observado um número maior de trabalhos com as espécies em Hylocereus undatus (Haw) Britton & Rose, e  Hylocereus  polyrhizus.

Na dose certa

 A pitaia é altamente responsiva a doses de fertilizantes, afetando diretamente a assimilação de CO2 e acúmulo de ácido noturno nas plantas. O fornecimento de 540 kg de N/ha, 310 kg de P2O5/ha e 250 kg de K2O/ha permitiu uma produção média de duas safras com 31,6 ton/ha.

Porém, como em outras culturas, o fornecimento de nutrientes deve ser equilibrado, uma vez que o excesso e a falta podem ocasionar perdas drásticas de produtividade e qualidade. Com a aplicação de uma dose 50% menor que a padrão citada anteriormente, obteve-se apenas 18 ton/ha, já com doses 25 e 50% maiores em relação ao padrão, a produção foi de 23 ton/ha e na testemunha sem adubação a média foi de apenas 12,88 ton/ha.

Na aplicação, recomenda-se que se leve em consideração as doses desses elementos presentes na matéria orgânica e o restante pode ser complementado com outras fontes, como adubos minerais, somando-se também os teores dos elementos presentes na cobertura viva que será adicionada ao solo na posterior decomposição após a roçada.

Nesse último caso, pode-se citar o amendoim forrageiro (Arachis pintoi), que tem sido citado como excelente fonte de cobertura viva na pitaia. Esse vegetal, além de proteger o solo contra os danos como erosão, disponibiliza cerca de 100 kg de nitrogênio/ha/ano.

Vale ressaltar também que o amendoim forrageiro mantém a temperatura do solo em níveis mais adequados e mantém a umidade do solo em níveis que favorecem o bom desenvolvimento da microbiota. Adicionalmente, as reações de mineralização da matéria orgânica e as reações de absorção de água e nutrientes são efetivamente favorecidas pela planta.

O acúmulo de nutrientes nos diferentes órgãos varia em amplitude e proporção, sendo que nos cladódios a ordem de acúmulo é K > N > Ca > S > Mg > P > Mn > Fe > Zn > B ≥ Cu e nas raízes é N > K > Ca > S > P > Mg > Fe >Mn > Zn > B ≥ Cu.

Potássio e cálcio

O potássio (K) e o cálcio (Ca) são nutrientes altamente responsivos à adubação na cultura da pitaia, com respostas positivas em vários parâmetros no crescimento inicial. Um maior crescimento de cladódios foi encontrado nas doses de 250 mg/dm3 e 159 mg/dm3 de K e Ca, respectivamente.

Já a matéria seca (MS) foi maior com doses de 159 mg/dm3 de Ca e K em um nível médio entre 125 e 250 mg/dm3. O K também afetou positivamente a condutância estomática até a dose de 250 mg/dm3.

A dose de 125 mg/dm3 de K, que foi suficiente para maior produção de MS, acrescida ao teor disponível no solo antes da aplicação, resultou em um valor de K de 7,1% da CTC em pH 7,0. Doses acima de 250 mg/dm3 promoveram uma redução em diversos parâmetros de crescimento e fotossíntese, a quais correspondem a mais de 12,5% de K na CTC.

Para diversas culturas, essa quantidade de K no solo pode ser considerada acima do recomendável. O K apesar de ser um nutriente que possui uma longa faixa até a toxicidade, quando em alta quantidade no solo pode reduzir absorção a de Ca e Mg devido ao efeito antagônico provocado. Sendo assim, torna-se evidente a necessidade de adubações balanceadas de K e Ca na cultura da pitaia e o equilíbrio entre as bases no solo para um alto desenvolvimento vegetativo.

Benefícios

A fertilização potássica promove respostas positivas durante a fase de frutificação. Na primeira safra, com uma produção menor, uma dose intermediária de 120 g/planta obteve-se maior produção. Já nos anos seguintes, com o aumento na produção, a dose requerida foi a maior utilizada, de 200 g/planta, equivalente a 222 kg/ha.

Além da dose aplicada ter sido limitante, a produção foi abaixo de 10 ton, podendo-se inferir que para obter maiores produtividades são necessárias doses muito superiores a 222 kg/ha de K.

A massa e diâmetro do fruto e os teores de K nos cladódios aumentaram linearmente nos anos com maiores produções. O K é o nutriente mais acumulado nos cladódios, e nos frutos seus teores são duas vezes maiores que os de N, fator este que explica as altas respostas à adubação com esse nutriente na frutificação. Além de todas as respostas citadas, vale ressaltar que o k é um elemento fundamental, afetando positivamente o teor de sólidos solúveis na pitaia, e aumentado assim a qualidade dos frutos no que diz respeito a essa característica.

Fósforo

Na cultura da pitaia, o fósforo (P) é o macronutriente menos absorvido pelos cladódios. Apesar da menor demanda desse nutriente em relação principalmente ao K, N e Ca, a baixa eficiência de recuperação de P pelo solo pode comprometer sua absorção e exigir altas doses de adubações.

A aplicação de 150-300 mg/dm3 de P e 4-8 mg/dm3 de Zn ocasionou um aumento na disponibilidade de P e Zn no substrato capaz de promover incrementos significativos no crescimento, número de cladódios, na massa seca da raiz e parte aérea.

Mesmo em solo arenoso com menor capacidade máxima de adsorção de P, obteve-se alta resposta à aplicação de P, demonstrando a importância do nutriente juntamente com o Zn no desenvolvimento da pitaia.

Em outro trabalho, utilizando doses menores de P em um solo de textura média, encontrou-se valores máximos de matéria seca em doses intermediárias de 79 mg/dm³ e 85 mg/dm3 na parte aérea e raiz, respectivamente. Nesse último experimento os vasos utilizados foram menores, com capacidade de 4,0 dm³ de solo, considerado pequeno para o período que a cultura ficou em cultivo. Isso pode ter concentrado o número de raízes por área, melhorando o aproveitamento de P, que possui baixa mobilidade.

São necessários estudos futuros para verificar o residual da aplicação de fósforo para o crescimento da pitaia ao longo do ciclo de vida, visto que o parcelamento desse nutriente ainda é muito limitado devido à baixa mobilidade.

Além disso, como o sistema radicular da pitaia é superficial, pode viabilizar o parcelamento do P, principalmente via fertirrigação, em solos mais arenosos ou via enriquecimento de composto orgânico com o nutriente.

Nitrogênio

O nitrogênio (N) é um nutriente muito importante na cultura da pitaia, sendo o teor do nutriente e de clorofila altamente correlacionados com a capacidade de captação de CO2 em H. undatus (Haw.) Britton & Rose, além de ajudar na avaliação do status fisiológico da planta.

Doses de N proporcionam respostas significativas no crescimento inicial da pitaia, sendo que a aplicação de 100 mg/dm³ de forma parcelada permitiu maior crescimento de novas brotações durante 180 dias.

Em solos com alta disponibilidade de K, Ca e Mg, a aplicação de apenas N foi similar à aplicação do formulado com NPK, demonstrando a importância de se monitorar quais nutrientes estão em menor disponibilidade no solo e na planta.

A matéria orgânica possui características importantes devido à liberação gradual dos nutrientes, tornando a solução do solo mais equilibrada. Aplicações de fertilizantes de alta solubilidade, principalmente os nitrogenados, podem causar desequilíbrio no solo e na planta, causando excessos de brotações.

A adubação orgânica com esterco bovino, cama de frango e granulados bioclásticos obteve resultados positivos no crescimento da pitaia. Porém, apenas a adubação orgânica com doses baixas de forma parcelada pode não suprir a demanda periódica da planta.

Trabalhos realizados em Lavras (MG) aplicando-se a cada três meses 14 kg de esterco bovino, 4,0 kg de cama de frango e 35 gramas de granulado bioclástico proporcionou os melhores resultados em relação ao número de cladódios compondo a copa. Contudo, é necessário fazer a análise de solo para uma tomada de decisão mais criteriosa em cada região de cultivo.

Adubação com micronutrientes

Os micronutrientes, apesar de serem requeridos em menores quantidades, são extremamente limitantes para a produção, principalmente em solos com baixos teores deles. Os micronutrientes são responsáveis por diversas funções nas plantas, assumindo papéis de cofatores enzimáticos, ativação enzimática, estabilização de proteínas e papel estrutural, tendo grande importância na formação e qualidade visual e nutricional de frutos.

Na cultura da pitaia, o pH mais alto pode reduzir a disponibilidade de alguns nutrientes, sobretudo os micros. Trabalhos demonstram que a matéria orgânica promove excelente desenvolvimento das plantas, no entanto, deve-se ter cuidado ao utilizá-la, pois, altos teores de compostos orgânicos podem complexar os micronutrientes, limitando a sua disponibilidade.

Em trabalho realizado com diferentes doses de zinco (Zn), sua aplicação aumentou o crescimento dos cladódios. Tal afirmação é muito interessante do ponto de vista da produção de frutos, visto que cladódios pequenos promovem baixa produtividade, dado baixo número de gemas com potencial para diferenciação em flores.

Por outro lado, doses elevadas de Zn nos cladódios foram correlacionadas com os cladódios que obtiveram menores acúmulos de matéria seca, evidenciando uma pequena faixa entre a deficiência e a toxicidade.

Na cultura da pitaia, a adubação com micronutrientes ainda é pouco estudada, necessitando de trabalhos com mais ênfase nessa área, principalmente no que tange aos estádios reprodutivos. Como a pitaia pode ser cultivada em solos com pH mais elevados em relação às demais culturas frutíferas, pode-se ocasionar problemas na absorção de micronutrientes. Uma alternativa para suprir a demanda por micronutrientes é a aplicação via foliar, incrementando o que é absorvido via solo.

Boro e cálcio: essenciais no pegamento de flores

Atualmente, um grande número de produtores tem relatado baixo pegamento de flores em pitaia. Alguns fatores podem ser responsáveis pelo aborto de flores, como elevada precipitação e baixa frequência de agentes polinizadores, no entanto, em se tratando de nutrição vegetal, o boro e o cálcio são nutrientes que têm destaque no processo de polinização e fecundação. Esses são nutrientes essenciais na germinação e crescimento do tudo polínico.

Foram realizados estudos em laboratório nos quais demonstrou-se que a dose de 638 mg L-1 ácido bórico em meio de cultura foi responsável pela maior percentagem de germinação do grão de pólen. Já a dose de 500 mg L-1 de ácido bórico favoreceu o crescimento do tubo polínico em comprimento.

Além do B, os autores demonstraram que o cálcio (aplicação de 518 mg L-1 de nitrato de cálcio) é outro importante nutriente na germinação e crescimento do grão de pólen, reforçando a tese de que na ausência desses nutrientes pode-se incorrer no baixo pagamento  de flores e, consequentemente, baixa produtividade de pomares de pitaia. Em campo, tem-se recomendado a dose de 5,0 kg/ha de B ao ano.