Plantio sustentável de abacate é possível?

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Crédito Abacitrus

Evaldo Tadeu de Melo

Doutor em Fruticultura, técnico do IF Sul de Minas Campus Inconfidentes e sócio-proprietário da Guatambu Agrossustentável

evaldotadeumelo@hotmail.com

Givago Coutinho

Doutor em Fruticultura e professor efetivo do Centro Universitário de Goiatuba – UniCerrado

givago_agro@hotmail.com

Cada vez mais os consumidores têm buscado por produtos sustentáveis, que não agridam ao meio ambiente durante as etapas de produção. Além disso, os produtores têm buscado formas de produzir mais com menor custo de produção.

Um cultivo sustentável envolve todos os fatores de produção relacionados à cultura, desde o registro da propriedade, respeito às leis ambientais, condições de trabalho dos colaboradores, uso de boas práticas agrícolas maximizando a produtividade em uma determinada área, evitando-se assim a abertura de novas áreas sem a devida necessidade e, principalmente, a proteção do solo, que é a base da nossa produção.

Atenção redobrada

É para o solo que devemos voltar nossas atenções quando pensamos em cultivos sustentáveis. A parte aérea da planta que vemos é um reflexo da parte subterrânea que não vemos, a menos que abramos uma trincheira ao lado da planta.

A correção do solo com corretivos e fertilizantes deve ser feita sempre com base nas análises física e química do solo. Como o abacateiro é uma planta de grande porte, suas raízes também atingem grandes dimensões, sendo assim, a correção deve ser feita o mais profundo possível, formando um perfil de solo corrigido.

Sempre que recomendado pela análise de solo, deve-se aplicar calcário (usar um bom calcário que forneça a proporção adequada de cálcio e magnésio), gesso agrícola, fosfato natural, pós de rocha em geral e todos os demais nutrientes, de forma balanceada.

Entretanto, no solo, muito mais que as partes física e química tão estudadas, existe a parte biológica, que foi negligenciada por muito tempo. Esta vem ganhando atenção mais recentemente – são bilhões de microrganismos a cada grama de solo, entre eles bactérias, fungos, actinomicetos, protozoários e algas, e mais importante do que a quantidade é a diversidade deles.

Estes microrganismos agem de diferentes formas, em simbiose, competição, liberando nutrientes, competindo com micro-organismos deletérios, etc. Com a atividade desses seres microscópicos, diversos benefícios acontecem em prol de nossos abacateiros, como aeração do solo, retenção de umidade, solubilização de nutrientes, aprofundamento das raízes, promovendo um melhor desenvolvimento radicular e consequentemente uma parte aérea e maior e mais produtiva.

E, para que haja essa diversidade, é necessário haver matéria orgânica diversificada em decomposição, para que os mesmos possam se alimentar e se multiplicar. Essa MO pode vir de diversas fontes, entre elas: adubação com esterco/composto orgânico, poda dos abacateiros, mas principalmente da vegetação das entrelinhas, que deve ser manejada com roçadas.

Quando não existe uma boa vegetação diversificada na entrelinha, que produza grandes quantidades de massa verde, é recomendado que se faça a semeadura de um mix de plantas forrageiras, capazes de cobrir o solo rapidamente e produzir uma massa diversificada, para que sejam povoadas diversas camadas do solo, fazendo com que seja explorada a maior área possível do solo e subsolo.

Em ação

Uma nova forma de cultivar abacates se mostra muito mais sustentável, na qual as entrelinhas são compostas por mix de gramíneas, visando manter o solo coberto, retendo umidade e mantendo os microrganismos em constante viabilidade.

Diversas espécies podem ser utilizadas, em especial as gramíneas e as leguminosas, mas são muitas as opções disponíveis, entre elas: braquiária, aveia preta, milheto, sorgo, crotalárias, nabo forrageiro, girassol, entre tantas outras, dependo da região e da época do ano em que será feito o plantio.

As leguminosas, além de todos benefícios já citados, também incorporam nitrogênio ao nosso cultivo, devido a sua associação com bactérias do gênero Rhizobium. As sementes dessas plantas de cobertura podem ser adquiridas de empresas especializadas, como também podem ser produzidas na propriedade, reduzindo o custo das mesmas.

Espécies utilizadas nas entrelinhas

Até o segundo ano pós-plantio, podem ser utilizadas culturas intercalares nas entrelinhas do pomar de abacateiros, com consórcios com culturas de ciclo anual, tais como soja, feijão, milho, sorgo ou mandioca.

Pode-se utilizar, também, o sistema de associação de culturas, de forma simultânea com duas ou mais culturas que podem ser temporárias ou permanentes, que proporciona melhor utilização e cobertura do solo.

No caso do abacateiro, culturas temporárias são mais adequadas, desde a instalação do pomar até o 4° ou 6° ano nos espaços amplos das entrelinhas com culturas frutíferas de clima semelhante e frutificação precoce, porte pequeno e menor longevidade, como o abacaxizeiro, o mamoeiro e o maracujazeiro.

Também podem ser utilizadas plantas de cobertura do solo que produzam maior quantidade de material após a roçagem para ser depositado abaixo das copas dos abacateiros. A proteção do solo com plantas de cobertura evita problemas advindos de processos como erosão e da radiação solar, evitando assim problemas com espécies infestantes e a perda de água por evaporação em épocas de pouca precipitação.

A cobertura do solo também ajuda no controle da podridão radicular (Phytophthora cinnamomi)

Plantio sustentável

Uma possibilidade que pode ser utilizada no plantio de espécies perenes como o abacateiro é o plantio direto, já muito utilizado para culturas anuais. Este sistema consiste na realização da calagem superficialmente de toda a área antes do plantio, dessecação da vegetação em faixas em torno de dois metros que são utilizadas para o plantio das mudas e manutenção da vegetação nas entrelinhas. Após o preparo são abertos sulcos para o plantio.

Não se engane

No consórcio do abacateiro com espécies destinadas à cobertura do solo, as leguminosas são mais utilizadas devido ao fato de formarem associações simbióticas com bactérias fixadoras de nitrogênio como Rhizobium e Bradrhizobium. Além de reciclarem o nitrogênio presente no solo, conseguem fixar adicionar esse nutriente ao sistema a um custo relativamente baixo.

Contudo, o uso exclusivo de leguminosas na forma de adubação verde pode apresentar alguns problemas, como a proteção do solo por um curto período de tempo e liberação rápida de nutrientes de sua biomassa, devido ao fato dessa biomassa ser rapidamente decomposta após a sua incorporação ao solo. Neste caso, é recomendado que seja feito o cultivo consorciado entre leguminosas e gramíneas.

A presença de plantas espontâneas é recomendada e adequada aos pomares. Espécies espontâneas devem ser manejadas adequadamente e não erradicadas, pois a diversidade vegetal é a garantia de maior diversidade de organismos benéficos aos sistemas de produção mais sustentáveis.

As plantas podem ser roçadas, manejadas por meio de capinas e cobertura viva ou morta, ou mesmo cobertura plástica.

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