Polímeros com pigmentos pretos

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João Carlos NunesEngenheiro agrônomo, M.Sc. Ciência e Tecnologia de Sementes STI Consultoria e consultor técnico sticonsultoria.ts@gmail.com

É fato conhecido que o tratamento de sementes altera as características da superfície destas sementes e, em função disto pode afetar a plantabilidade. Deste modo, a regulagem das semeadoras deve ser realizada sempre com as sementes tratadas. A não observância deste cuidado pode induzir erros na população de plantas, distribuição espacial de sementes, provocar falhas ou semeadura de sementes em duplicidade.

No caso de semeadura de milho, esta qualidade de distribuição é essencial e está diretamente ligada à produtividade. A falta de plantas significa perda direta na produtividade, assim como duplas ou triplas resultam em competição inter-plantas por sol, nutrientes e água, também comprometendo o potencial produtivo.

Mas, não apenas em milho esta questão é importante, ela se aplica a várias outras culturas. Cultivares de soja, por exemplo, utilizam densidades populacionais bem baixas e que não admitem falhas de plantio ou de qualidade na distribuição espacial.

Os agricultores brasileiros, sempre buscando tecnologias mais modernas e apuradas, têm investido cada vez mais na aquisição de semeadoras com sistemas pneumáticos. Estes equipamentos geralmente possuem muitas linhas de semeadura, e com isso surgiu uma nova problemática: gerenciar o efeito  dos tratamentos na fluidez das sementes tratadas, por meio das tubulações que as transportam, desde o depósito central até as linhas de semeadura.

Este caminho que as sementes percorrem tornou-se um desafio, pois temos que reduzir o atrito das sementes tratadas com as paredes das tubulações e os mecanismos dosadores nas linhas de semeadura. Nestas máquinas semeadoras, parte das sementes são transportadas por vários metros de distância, desde o depósito central até as caixas da extremidade.

Outro risco neste transporte de sementes pelas tubulações da semeadora é o acúmulo de resíduos nas paredes internas devido à umidade relativa elevada no ar, criando diversos problemas de embuchamento que podem comprometer a qualidade de semeadura, principalmente nos quesitos de distribuição espacial e densidade populacional.

Desafios

Não podemos deixar de mencionar a grande variedade de insumos ofertados via tratamento de sementes como um desafio para a qualidade de aplicação e sua interferência na qualidade de cobertura e distribuição. Além dos tradicionais fungicidas, inseticidas, inoculantes e polímeros, temos uma vasta oferta de outros  produtos para compor a calda, tais como: micronutrientes com cobalto, molibdênio, zinco, etc., bioestimulantes à base de algas, peptídeos, hormônios, enfim uma ampla gama que aumenta o volume de calda e por consequência, sua complexidade.

Além da questão compatibilidade e estabilidade de caldas, o aumento nos volumes das caldas utilizadas em tratamento de sementes de soja tem se tornado um desafio também em termos de aderência, secagem, aplicabilidade, etc.

Por isso, ao adotar uma nova tecnologia de tratamento de sementes, quando utilizamos quatro, cinco, seis ou mais produtos sobre as sementes, temos que ter em conta que deve haver um estudo sobre o impacto desta decisão sobre a qualidade do resultado. 

Atualmente, o grafite é o lubrificante de mecanismos de semeadura mais utilizado e, em face disso, os agricultores que utilizam estes grandes equipamentos anteriormente mencionados passaram a utilizar maiores doses de grafite ou demandar sementes tratadas na indústria com este tipo de acabamento grafitado ou com pós de acabamento (pós secantes geralmente), com diferentes conteúdos de grafite ou outros componentes.

Inovação

Esta propensão em adotar grafite em altas doses ou talcos grafitados tem crescido principalmente em áreas de grandes agricultores que utilizam equipamentos com elevado número de linhas de semeadura em regiões do centro-Oeste brasileiro. Com estes pós de acabamento contendo grafite, popularmente denominados talco, a aparência das sementes tratadas fica com aspecto cinza bem escuro ou preto.

Este aumento no uso de grafite e pós grafitados acabou demandando o uso de pigmentos pretos nos polímeros para torná-los compatíveis visualmente com a cor de aditivos lubrificantes. Especialmente no caso do TSI (Tratamento de Sementes na Indústria), o aspecto visual é fundamental; então, quando as sementes têm que ser tratadas utilizando grafite ou pó de acabamento grafitado, o polímero deve ter cor combinante.

A partir disso, a indústria fornecedora de filmes de recobrimento (polímeros) rapidamente se adaptou e passou a fornecer a opção de pigmentação preta ou cinza escuro nesta linha de produtos, assim como para os pós de acabamento.

É bom saber

É importante ainda ressaltar, que a adoção do pigmento preto em polímero e no talco grafitado pura e simples não quer dizer que o produto contribua para a plantabilidade. Existem polímeros com qualidade e características diversas, e alguns se destacam especialmente pela contribuição no aspecto visual, alguns pela aderência, outros pela fluidez e outros ainda combinam estas diferentes características.

Entretanto, alguns pós grafitados sem qualidade podem não promover o secamento e a fluidez necessária. Por isso, um polímero preto ou cinza escuro, associado ou não ao uso de pós de acabamento grafitados, deve ser avaliado em vários quesitos de qualidade, como por exemplo testes de potencial de geração de poeiras flutuantes, teste de fluidez das sementes no funil de fluxo, resistência ao atrito, plantabilidade, etc.

Sem estas avaliações, não saberemos se o produto realmente corresponde às necessidades das sementes tratadas e do agricultor. Este fator pode resultar, na verdade, em um efeito adverso se a escolha for dirigida apenas pelo aspecto custo do produto.

Além do mais, o agricultor é bem exigente com relação ao resultado do acabamento visual ao adquirir sementes tratadas na indústria e, embora a cor do polímero não seja decisiva, a uniformidade e cobertura o são.

Originalmente, muitos tratamentos de sementes são geralmente de cor vermelha, verde ou azul. Quando aplicamos grafite ou talcos grafitados muitas vezes o aspecto visual deixa a desejar em termos de uniformidade e cobertura do tratamento.

Cuidados necessários

Outro ponto a considerar é que o uso de talcos grafitados e grafite sem o devido cuidado pode implicar em consequências indesejáveis, como a geração de poeira. Poeiras, se inaladas, podem afetar os operadores de equipamentos de tratamento, ensaque e semeadura.

Os pós de grafite e dos talcos grafitados em suspensão nos locais de tratamento e no pós-tratamento vão se infiltrando em equipamentos, quadros de controle, acumulando e podendo, a médio e longo prazos, gerar problemas para os equipamentos.

Um dos principais riscos seria provocar curtos-circuitos em equipamentos elétricos, tendo em vista sua capacidade como condutor de eletricidade. Por tudo isso, cresce a importância da escolha de polímeros que tenham boa performance de aderir o grafite às sementes tratadas.

Recomendações

Algumas das principais qualidades esperadas de um bom filme de recobrimento (polímero) são: boa compatibilidade e estabilidade na formação da calda com os demais insumos a serem aplicados, promover boa aderência destes insumos às sementes, reduzindo o risco de geração de poeiras e de lixiviação de ativos na pós-semeadura, melhorar a velocidade de secagem do tratamento, apresentar boa resistência ao atrito, ser seletivo aos ingredientes biológicos, auxiliar na qualidade da distribuição e cobertura do tratamento sobre as sementes, contribuindo para a qualidade visual e plantabilidade, qualidades estas muito difíceis de atingir em um só produto.

De qualquer forma, é fundamental realizar teste prévio da combinação do tratamento de sementes que será utilizado, adicionando o polímero e o pó de acabamento que se pretende usar e consultar um especialista no assunto sobre a escolha do polímero mais adequado.

Esta atitude resultará em maiores chances de obter assertividade na escolha do polímero preto e do pó de acabamento grafitado.