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Preparo do solo: importância do controle da compactação

Créditos Aldir Carpes

Aldir Carpes Marques Filho
Doutor e professor – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
aldir@ufla.br

O solo é o principal meio de suporte à produção agropecuária mundial. Ele deve ser capaz de fornecer meios de sobrevivência para as plantas e animais, bem como apresentar sustentabilidade de rendimentos econômico e ambiental ao longo dos ciclos produtivos.

O manejo inadequado do solo produz efeitos a curto prazo, como a compactação superficial e queda de produtividade das culturas, bem como, a longo prazo, propicia efeitos degradantes permanentes e problemas ambientais graves.

Tão importante quanto selecionar a melhor qualidade do material vegetal para implantar na lavoura é a criação de condições para o desenvolvimento radicular dessas plantas, de forma a propiciar a correta absorção de água e sais minerais.

As plantas literalmente “bebem alimento”, de forma que, se a estrutura do solo impede essa absorção, o desempenho agronômico é afetado e os prejuízos são certos.

O solo

O manejo de solo pode ser realizado fundamentalmente de três maneiras, sendo elas, o preparo convencional (com revolvimento completo do solo), o plantio direto (com o revolvimento do solo somente na linha de semeadura) e o cultivo mínimo (com a redução de operações ou preparo localizado em faixas) (Figura 1).

Figura 1. Semeadura direta (cobertura e preparo na linha) e preparo convencional com aração (direita).

 Tradicionalmente, o preparo convencional de solo conta com uma aração (inversão de leivas de solo) e duas ou mais gradagens com a função de destorroar e nivelar a superfície ou leito de semeadura.

Esta forma de manejo é cara e demanda muita energia, além de tornar o solo mais suscetível aos processos erosivos. No entanto, é preciso corrigir o perfil do solo para atingir altas produtividades e, ao menos no início da implantação de sistemas conservacionistas, como o plantio direto e o cultivo mínimo, é recomendável realizar um preparo convencional adequado.

Dinâmica do perfil

A compreensão da dinâmica do solo em relação ao trânsito de máquinas e implantação de culturas agrícolas é um item importante. Pesquisas mostram que o cultivo permanente e sucessivo em uma mesma área agrícola, de forma tradicional e intensiva, diminui a microbiota e afeta negativamente a saúde do solo.

Assim, nos manejos conservacionistas, como o plantio direto (SPD), seguem-se como preceitos fundamentais o não revolvimento do solo, a rotação de culturas e a manutenção permanente da cobertura vegetal sobre o solo. Normalmente, este sistema apresenta, ao longo dos anos, uma camada superficial compactada que prejudica a emergência das plântulas.

Para resolver a compactação superficial no SPD e melhorar o leito de semeadura, produtores têm aplicado sulcadores nos dosadores de adubo das semeadoras adubadoras e até mesmo uma operação de escarificação anual.

Hastes sulcadoras (botinhas) quebram essa camada compactada, porém, exigem maior demanda de tração e cuidados na operação com embuchamentos em áreas com cobertura vegetal espessa.

Prevenir ou remediar?

Quando o assunto é compactação, o melhor é prevenir do que remediar. O controle de trânsito das máquinas dentro da área agrícola representa uma alternativa promissora dentre as diversas ferramentas para a redução da compactação.

Em sistemas de produção que utilizam o controle de tráfego, são observadas maiores densidades de raízes na zona de crescimento das culturas e maiores produtividades. Com a máquina transitando sempre no mesmo local da lavoura, além de evitar o pisoteio nas plantas, as rotas (rastros dos pneus) tornam-se compactadas, melhorando a tração e reduzindo o consumo de combustível.

A implantação do tráfego controlado apresenta como um dos grandes entraves a conectividade e disponibilidade de sinal dos sistemas GNSS/GPS, bem como a necessidade de ajuste padronizado da bitola das máquinas, para que transitem sempre sobre o mesmo traçado na lavoura.

Inicialmente, esses sistemas foram implantados nas lavouras de cana-de-açúcar (Figura 2), porém, a tecnologia está ganhando força nas lavouras de grãos.

Tecnologias

Recentemente, sistemas de direcionamento para os veículos rebocados também estão sendo testados, visto que, com o piloto automático instalado somente no trator, os veículos rebocados desviam, em alguns casos, o traçado planejado, principalmente por escorregamento em áreas declivosas.

Figura 2. Tráfego Controlado em área produtiva de cana-de-açúcar (máquina no mesmo traçado do veículo de carga)

Conhecer a distribuição das áreas compactadas na lavoura é importante para o manejo das operações de escarificação e subsolagem, já que estas apresentam alta demanda energética. O manejo localizado da compactação pode reduzir os custos operacionais e energéticos.

A compactação do solo pode ser detectada de diversas formas, desde a observação visual do terreno e a verificação de acúmulo de água ou falhas na vegetação (Figura 3), abertura de trincheiras e verificação do perfil, até a aplicação de protocolos laboratoriais precisos e de alto custo.

Entretanto, maneiras indiretas de avaliação da compactação, como o uso de penetrômetros, vêm apresentando bons resultados.

Os penetrômetros são hastes metálicas padronizadas que mostram a resistência do solo à penetração (Figura 4). Fatores como textura, teor de água e densidade afetam essa medida e seus resultados podem ser correlacionados com a limitação que o solo oferece ao crescimento radicular das culturas, servindo de subsídio importante para a tomada de decisão relacionada ao manejo do solo.

Figura 3. Local da bordadura da lavoura com cobertura vegetal dessecada e possível compactação (falhas na infiltração – poça de água).

Figura 4. Penetrômetro para avaliação da resistência à penetração do solo

Intervenção no solo

Observando-se os dados de resistência à penetração do solo, por meio do gráfico do índice de cone, é possível localizar a camada com maior resistência e destinar a melhor forma de intervenção, seja por máquinas ou culturas vegetais condicionantes de solo.

Nos gráficos de índice de cone é possível correlacionar a pressão exercida pela haste no solo em cada profundidade. Essa ferramenta é de extrema importância, já que pode ser relacionada à resistência que o sistema radicular das culturas vegetais vai encontrar para o desenvolvimento. Pesquisas mostram que solos com resistência à penetração superior a 2MPa, são restritivos ao desenvolvimento radicular da maioria das culturas agrícolas.

Figura 5. Exemplo de um gráfico de índice de cone para detecção de áreas compactadas.

Hora da decisão

Com base nos locais de resistência à penetração crítica no solo, o produtor pode decidir em que profundidade atuar com os sistemas mecanizados, ou mesmo implantar culturas com sistema radicular agressivo para descompactação natural.

Arados e grades atuam até 25 cm de profundidade, sendo que preparos seguidos com essas ferramentas causam uma camada compactada logo abaixo da área preparada, chamada de pé de arado ou pé de grade (linha vermelha no gráfico do índice de cone da Figura 5).

A maioria das culturas agrícolas, após a colheita, deixa restos vegetais sobre o solo. Esse material possui efeito nas condições físicas e de manejo. Solos com mais cobertura vegetal são mais resilientes ao manejo e trânsito de máquinas.

Recomenda-se um mínimo de quatro toneladas de palha sobre o solo para que os benefícios sejam obtidos. Solos descobertos ficam sujeitos ao estresse e à erosão. A cobertura vegetal reduz a resistência à penetração dos solos e estabiliza o gradiente de temperatura na zona de crescimento radicular, incorrendo em maior disponibilização de nutrientes e água.

Associados com a manutenção da cobertura vegetal (palha), a utilização de terraços e o plantio em curvas de nível nas áreas com declividade alta contribuem muito para a redução nas perdas de solo.

Fique de olho

Preparos intensivos, com aração e gradagem em áreas declivosas no sentido “morro abaixo” causam empobrecimento do solo, contaminação e assoreamento dos cursos de água. 

O preparo de solo é uma operação de alto custo e muitas variáveis são interferentes na decisão de fazer ou não uma intervenção mecanizada. Culturas vegetais, como o nabo forrageiro e a crotalária, podem servir como atenuantes da compactação nos períodos de entressafra nas regiões onde é possível a realização de pousio.

Cobertura de solo

As braquiárias têm contribuído muito para a manutenção da produtividade dos grãos em solos arenosos no Centro-Oeste. Sem elas em cobertura, seria impossível alcançar as produtividades médias atuais que o Brasil tem obtido nas últimas safras.

Em consórcio com culturas anuais como o milho, as raízes agressivas da braquiária, que crescem mesmo em solos com 6,0 MPa de resistência à penetração, carregam consigo em profundidade as raízes do milho, incrementando a produtividade deste e permitindo a formação de pastagem para o inverno.

Portanto, ao realizar operações de preparo do solo, os produtores não devem prender-se somente aos sistemas mecanizados, já que o problema exige soluções integradas, que considerem as características edafoclimáticas da região, implantação de culturas vegetais, rotação, cobertura permanente e controle de tráfego das máquinas.

É importante levantar informações sobre as necessidades reais de intervenção mecanizada no solo, de forma que somente realizem essa operação em caso de extrema necessidade.

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