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Produtividade da soja: as cinco lagartas mais ameaçadoras

Helicoverpa armigera / Crédito Sebastião José de Araújo

Franciele S. De Armas
Doutora em Fitossanidade, pesquisadora, consultora e professora em Entomologia Agrícola no Grupo Rehagro
franciele.armas@rehagro.edu.br
Priscila Isabela Rabelo
Graduanda em Agronomia – Universidade Federal de Lavras (UFLA) e membro do Grupo de Pesquisa em Manejo de Produção (GMAP/UFLA)
priscilaisabelarabelo@gmail.com

A soja está sujeita ao ataque de pragas em todo o seu ciclo de desenvolvimento, desde a germinação das sementes até a colheita. As lagartas têm grande destaque neste cenário, devido aos danos provocados e consequentes prejuízos financeiros.

Além de causarem danos diretos à produção ao consumir as plântulas, folhas e vagens, as lagartas, de maneira geral, são insetos que sobrevivem no sistema de produção de grãos, isto é, podem estar presentes tanto na safra de verão como de inverno, permanecendo assim na mesma área, quando não manejada de forma adequada.

Manejo Integrado de Pragas

Para o produtor escolher a melhor estratégia de controle para lagartas, ele deve utilizar técnicas que estão amparadas no Manejo Integrado de Pragas (MIP), como realizar a correta identificação dos insetos-praga e de inimigos naturais, realizar o monitoramento por meio de amostragens regularmente, como o pano de batida, quando a soja estiver no período vegetativo/reprodutivo e análise visual na pré e implantação da cultura.

Isto porque lagartas, como do gênero Spodoptera spp., podem estar presentes na cobertura anterior à dessecação, e causar perdas de estande, além de estarem presentes no período reprodutivo, atacando folhas e vagens, por exemplo.

Identificar a espécie de lagarta que está ocorrendo, seu estágio de desenvolvimento (instar) e quantificar a população da área são informações que auxiliam o produtor a escolher com mais assertividade o método de controle que será empregado.

Este compilado de informações permite alinhar as técnicas de manejo existentes com a realidade de produtor, escolhendo as estratégias mais viáveis, como por exemplo, o emprego do controle químico e/ou biológico.

Dicas importantes

Em relação ao controle químico, podemos escolher com mais efetividade as moléculas disponíveis, quando relacionamos a espécie em predominância na área e a fase de desenvolvimento que está ocorrendo no campo.

Quando fazemos o monitoramento pelo pano de batida, classificamos as lagartas pelo estágio de desenvolvimento e instar. De maneira prática, classificamos como lagartas pequenas aquelas que possuem tamanho inferior a 2,0 cm, que normalmente, quando comparadas com a largura de um polegar, não ultrapassam este, no qual se encontram até o 3º instar.

Classificamos como lagartas grandes acima de 2,0 cm, que já ultrapassaram o terceiro instar. Essa divisão será importante para posicionarmos o inseticida conforme o modo de ação. Outra divisão que fazemos no monitoramento é dividir as lagartas por grupos semelhantes ou complexos: 1. Lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis Hübner (Lepidoptera: Noctuidae)). 2. Falsas-medideiras ou Plusiinae (Chrysodeixis includens, Rachiplusia nu e Trichoplusia ni (Lepidoptera: Noctuidae)). 3. Spodopteras (S. frugiperda (J.E. Smith, 1797), S. eridania, S. cosmiodes e S. albula (Lepidoptera:Noctuidae)). 4. Heliothinae (Helicoverpa armigera (Hübner) e Chloridea virescens (Lepidoptera:Noctuidae)).

Principais espécies

Dentre o complexo de lagartas que ocorrem na cultura da soja, podemos destacar cinco principais, devido ao seu potencial de causar danos, grande número de espécies hospedeiras e estar presente em praticamente todo o território nacional.

Chrysodeixes includens: esta é uma espécie que tem ganhado destaque ao longo dos anos no cenário nacional. Teve sua população aumentada coincidentemente no mesmo período que houve a entrada do fungo Phakopsora pachyrhizi, causador da ferrugem asiática na soja, em meados de 2003. Uma possível explicação para este fenômeno é de que o controle com fungicidas na soja diminuiu a ocorrência natural de fungos entomopatogênicos, como Metarhizium rileyi.

São chamadas de falsas-medideiras, devido ao hábito de caminhar medindo palmos, isto porque possuem dois pares de falsas pernas na região abdominal e um par na região caudal. O seu ciclo de desenvolvimento dura, em média, 27 a 35 dias.

Cada fêmea coloca em média 700 ovos por ciclo, podendo chegar até a 1.000 ovos. Em relação ao comportamento alimentar, as lagartas de C. includens não consomem nervuras, causam o aspecto rendilhado na folha e têm uma capacidade de consumir de 64 a 200 cm² de área foliar, diminuindo drasticamente a capacidade fotossintética da planta e comprometendo a produtividade.

Outro fator que dificulta seu controle é que esta lagarta fica situada na porção mediana e inferior da soja, ficando menos exposta à aplicação dos inseticidas. Além disso, os ataques mais severos ocorrem no período reprodutivo, quando a linha de cultivo está fechada, formando um “guarda-chuva” no dossel.

Spodoptera frugiperda: nos últimos anos tem aumentado também a ocorrência desse gênero na cultura soja, o que anteriormente estava mais correlacionado à cultura do milho. São lagartas altamente vorazes, que além de consumirem a folha, alimentam-se também de vagens e grãos.

A espécie, também chamada de lagarta-do-cartucho-do-milho, é uma praga que nos últimos anos sofreu uma adaptação ao ambiente cultivado. Com isso, é recorrente a ocorrência desta praga na palhada anterior à dessecação pré-semeadura, vindo da cultura anterior ou de plantas daninhas da entressafra.

Neste período ela adquiriu o hábito de cortar a base das plântulas, causando perda de estande ou perfilhamento. Também causa danos em hastes e pecíolos, e está associada ao período reprodutivo da soja.

É importante ressaltar que o “Y” invertido na cabeça é característica de todas as espécies do gênero Spodoptera spp., não sendo exclusivo para S. frugiperda, portanto, não é um caractere de diferenciação entre as espécies, apenas entre outros gêneros, como, por exemplo, Agrotis spp, que pode ser diferenciada de S. frugiperda por possuir um “V” na cabeça.

Crédito: Franciele De Armas.

Uma diferença comportamental de S. frugiperda é que esta é uma lagarta com hábitos canibais, não tolerando a presença outros indivíduos, enquanto S. cosmiodes e S. eridania não possuem essa característica. Em relação à área foliar, S. frugiperda consome entre 90 a 118 cm² em todo o seu ciclo de vida.

Spodoptera cosmiodes: também chamada de lagarta-preta-da-soja, S. cosmiodes é a lagarta que atinge o maior tamanho e, consequentemente, causa mais danos que as demais lagartas do complexo, consumindo, em média, 185 cm² de área foliar, além de atacar vagens e grãos.

A identificação de S. cosmiodes é pelas linhas longitudinais na lateral do inseto, que geralmente são de coloração alaranjada, e compreendem desde a parte final do inseto até a cabeça.

Spodoptera eridania: popularmente chamada de lagarta-preta-das-folhas, a S. eridania está associada mais ao final do ciclo da soja, causando severos desfolhamentos, podendo consumir de 98 a 107 cm² de área foliar.

A S. eridania é identificada facilmente pelas linhas longitudinais na lateral do inseto de coloração creme, que são interrompidas por faixa escura, que fica próxima às pernas toráxicas, no qual esta linha não chega até a cabeça do inseto.

  • Helicoverpa armigera: é uma espécie com alto potencial destrutivo, devido a sua preferência em consumir estruturas reprodutivas na soja, como flores, porém, também consome estruturas vegetativas, como folhas, hastes e pecíolos.

É uma praga mundialmente conhecida, devido à alta polifagia, com mais de 100 espécies vegetais hospedeiras. Apresenta capacidade de migração e adaptação às variações climáticas, como calor, frio e índice pluviométrico.

Esta espécie faz parte do grupo das Heliotinae, juntamente com C. virescens. É uma lagarta altamente agressiva, que tem um movimento conhecido como “cabeça de ganso”, quando inclina a cabeça para trás ao caminhar.

Possui cinco a seis instares, e o ciclo completo (ovo-adulto) dessa praga pode levar entre 30 e 45 dias. As mariposas colocam ovos de maneira isolada, podendo chegar a 2.000 ovos/ciclo.

É uma espécie que, apesar de consumir partes vegetativas, tem preferência por estruturas reprodutivas, como botões florais e vagens. Por isso, é importante, além de realizar o pano de batida, fazer uma análise visual na floração e nas vagens.

Nível de ação

Há uma certa quantidade de insetos-pragas que a planta de soja consegue conviver sem haver diminuição na produtividade, isto é, sem haver danos econômicos significativos. Esta tolerância da planta em suportar a presença de pragas varia conforme a intensidade do ataque, partes atacadas da planta, condições nutricionais e fisiológicas das plantas e das condições ambientais.

O nível de ação ou de controle é um referencial teórico que auxilia na tomada de decisão, a partir do estabelecimento de qual densidade populacional será tolerada na cultura. Para estabelecer este número, é necessário quantificar os danos causados pela praga.

No caso de lagartas, apesar de inúmeros trabalhos técnicos e científicos divulgados, é difícil mensurar precisamente, visto que temos uma gama enorme de cultivares comerciais que são responsivas a variações climáticas.

Além disso, quando as lagartas consomem as folhas, há redução na capacidade fotossintética da planta. Apesar de ter capacidade de recuperação de 20 a 30%, há uma questão nutricional e sanitária da planta que pode ser limitante.

E agora?

Outros dois parâmetros que são relacionados para determinar o nível de ação são o valor da produção e o custo total para controlar a praga. O valor da produção está ligado ao mercado econômico, e a soja, por ser uma “comodity”, tem seu valor atrelado ao mercado externo.

Já o custo para o controle leva em conta o preço do inseticida e questões operacionais, como mão de obra, pulverizador e óleo diesel, por exemplo, onde cada produtor encontra uma realidade.

Por estes fatores há diversos níveis de danos mencionados na literatura. A Embrapa Soja recomenda como nível de ação para lagartas desfolhadoras quando há uma infestação de 20 lagartas por metro de linha da cultura, ou avaliando o porcentual de desfolha, quando atinge 30% no período vegetativo e 15% no período reprodutivo.

Já para o controle de Helicoverpa spp., o nível de ação é de quatro lagartas pequenas/metro ou 30% de desfolha na fase vegetativa da cultura, e este número diminui no período reprodutivo, tolerando duas lagartas pequenas/metro, 15% de desfolha, ou 10% de vagens atacadas.

Controle químico

Para o controle químico com pulverização foliar, temos diversas opções, como os inseticidas popularmente chamados de fisiológicos, por atuarem no processo de crescimento e de muda, como o grupo das Benzoilfenilureia, por exemplo, os ingredientes ativos (i.a) lufenuron, diflubenzuron, teflubenzurom e novaluron e os grupos das Diacilhidrazinas, que têm o metoxifenozida como principal i.a.

Nestes grupos de inseticidas, a eficiência e o desempenho estão relacionados com as fases iniciais de desenvolvimento das lagartas, isto é, são indicados com maior segurança até o terceiro instar. Além disso, não é indicado usar no início da cultura de forma isolada em situações de alta pressão para as heliothinae.

Alternativas

 Outro grupo de inseticidas são as diamidas, que atuam no sistema nervoso e muscular do inseto, mais especificamente sobre receptores da rianodina (RyR) dos insetos, induzindo a liberação descontrolada de cálcio e levando o inseto à morte.

Clorantraniliprole, ciantraniliprole e flubendiamide são exemplos de moléculas deste grupo, que são eficientes e mais direcionadas para lagartas. Há, no mercado, produtos excelentes que misturam as diamidas mais piretroides, aumentando o efeito de choque do produto.

Outros inseticidas disponíveis são os organofosforados como o clorpirifós, e os carbamatos como tiodicarde e o metomil, que são inseticidas neuromusculares, atuam inibindo a enzima acetilcolinesterase.

São inseticidas que não devem usados constantemente ou em alta pressão de população para não haver indução da resistência, além de serem de maior toxicidade. Para lagartas, temos outras opções, como o benzoato de emamectina, do grupo das avermectinas, o indoxacarbe e o metaflumizone, do grupo das oxiadiazinas, a espinosade e o espinoteram, do grupo das espinosinas, além do clorfenapir, que é análago do pirazol.

Tratamento de sementes

O tratamento de semente é indicado para controle de lagartas que causam perda de estande, como S. frugiperda. Moléculas à base de diamidas são as mais indicadas nesse caso, devido a sua sistemacidade e residual na planta.

Outra estratégia que pode ser utilizada para o controle desse grupo de pragas é a adição de inseticidas na dessecação pré-semeadura. Inseticidas como diamidas mais piretroides, ou carbamatos, apresentam um bom desempenho, entretanto, para o sucesso dessa estratégia é importante que o período de pré-dessecação seja no mínimo de 10 a 15 dias antes da semeadura.

Controle biológico

Em relação ao controle biológico, há produtos comerciais à base de baculovírus (HearSNPV e HzSNPV), que são específicos para as heliothinae, controlam Helicoverpa ssp e C. virescens, porém, não terão efeitos sobre outras espécies, como as do complexo Spodoptera e C. includens.

Além, disso são produtos de ingestão, necessitando de uma boa cobertura do dosssel. É importante frisar que a morte das lagartas ocorre a partir do 4º dia, com o pico de mortalidade no 7º dia após a aplicação, e tais produtos devem ser usados em associação com o controle químico em períodos de seca e alta pressão populacional no início de desenvolvimento da cultura.

Outro método empregado é a liberação de agentes de controle biológico, como o Trichogramma pretiosum Riley, 1879 (Hymenoptera: Trichogrammatidae), que são parasitoides de ovos de lagartas, impedindo que o ovo da praga ecloda.

É importante ressaltar que são organismos vivos, portanto, é necessário ficar atento a outros aspectos para sua eficácia. Por atuarem na fase específica de ovo, não haverá a diminuição da população da praga naquele momento, mas ao longo do tempo, com liberações inundativas de parasitoides regularmente.

Outra questão é que é necessário coincidir com a presença de ovos de lepidópteros, que possuem uma duração média de três a cinco dias no campo antes de eclodir, com a liberação das vespas adultas.

Controle varietal

A utilização de cultivares modificadas geneticamente com Bacillus thuringiensis (Bt) também é uma alternativa, visto que a primeira geração de soja Bt foi liberada em 2013, e expressa a proteína Cry1Ac, que tem um controle sobre lagarta-da-soja (A. gemmatalis), lagarta-falsa-medideira (C. includens), broca-das-axilas (Crocidosema aporema, (Lepidoptera: Tortricidae) e lagarta-das-maçãs (C. virescens), porém, não tem efeito significativo em lagartas do gênero Spodoptera spp. e Helicoverpa spp.

Porém, as novas cultivares de segunda geração que expressam as proteínas Cry1Ac, Cry1A.105 e Cry2Ab2 passaram a ter um controle sobre H. armigera e S. cosmioides também. É importante ressaltar a importância de destinar áreas de refúgio, em torno de 20%, com cultivares convencionais, afim de não induzir a resistência e, consequente, perda da tecnologia.

Controle cultural

A rotação de culturas pode ser utilizada afim de quebrar o ciclo das lagartas, alterando a disponibilidade de alimentos. Outro fator a ser considerado é que a rotação de culturas entre Leguminosas e Poaceas favorece os aspectos fitossanitários e nutricionais da cultura, uma vez que uma planta sadia e bem nutrida fica mais tolerante ao ataque das pragas.

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