Quais os métodos eficazes contra a mosca-branca?

0
748

Autores

Anderson Gonçalves da Silva
Doutor e professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), campus Paragominas (PA) e coordenador do Grupo de Estudos em Manejo Integrado de Pragas (GEMIP)
anderson.silva@ufra.edu.br
João Rafael De Conte Carvalho de Alencar
Doutor e professor do Centro Universitário Integrado – Campo Mourão (CEI – PR), Membro do GEMIP
joao.alencar@grupointegrado.br
Crédito: Embrapa

São diversos os fatores que podem ocasionar baixa produtividade da cultura do feijão no Brasil, com destaque para os insetos que são prejudiciais desde a semeadura, fases vegetativa e reprodutiva das plantas, com danos até em pós-colheita, podendo ocorrer prejuízos também aos grãos armazenados.

Dentre a gama de insetos-praga que acarretam perdas econômicas à cultura do feijoeiro, a mosca-branca Bemisia tabaci (Hemiptera: Aleyrodidae) merece destaque por ocasionar danos (ou injúrias) diretos e indiretos, que podem provocar perdas econômicas severas, variando de acordo com os seguintes fatores: tipo de cultivo, estádio da planta, população do vetor (no caso de viroses), presença de hospedeiros alternativos e condições ambientais.

Danos

Os danos diretos são ocasionados pela sucção contínua de seiva, decorrentes da alimentação de ninfas e adultos da mosca-branca que retiram nutrientes através do floema (seiva elaborada), o que acaba debilitando a planta, interferindo no seu crescimento e também aumentando sua suscetibilidade às doenças.

Além disso, neste processo estes insetos injetam toxinas presentes em sua saliva, provocando desordens fisiológicas ao feijão. Já os danos de forma indireta ocorrem por meio da excreção açucarada chamada de “honeydew” ou “mela”.

Essa excreção serve como substrato para o crescimento de fungos saprofíticos, do gênero Capnodium (fumagina), sobre folhas, flores e até mesmo as vagens, impedindo as trocas gasosas, como respiração e transpiração, e interferindo na captação de luz para a fotossíntese, o que culmina na redução da produção. Outra interferência da fumagina é que dificulta a ação de produtos fitossanitários, acarretando em maiores custos de produção à cultura.

No entanto, o dano mais sério causado pela mosca-branca diz respeito à transmissão de vírus como o mosaico-dourado-do-feijoeiro e outros, com destaque para o seu biótipo B, por ser mais agressivo e eficiente na transmissão de viroses.

Estima-se, a nível mundial, que existam mais de 20 biótipos, e que somente as perdas geradas pelo mosaico-dourado-do-feijoeiro giram em torno de 80 a 100 mil toneladas do grão por ano, segundo dados do Agrianual. Isto acaba por inviabilizar a semeadura de feijão em áreas de alto risco da doença, além de dificultar a autossuficiência brasileira para a cultura.

Neste sentido, o controle microbiano de insetos, por meio da utilização de fungos entomopatogênicos, em especial a espécie Beauveria bassiana, surge como prática importante dentro de um manejo integrado da mosca-branca no feijoeiro, como também em outras culturas, configurando como uma verdadeira arma no manejo desta praga.

Quem é ela

A praga, mosca-branca, destaca-se por ser altamente polífaga, apresentando mais de 600 plantas hospedeiras, dentre elas culturas importantes para o agronegócio brasileiro, como soja, algodão e frutíferas em geral, dentre outras.

Essa gama elevada de hospedeiros também confere um problema, já que a mosca-branca se desenvolve em diversas plantas daninhas, o que dificulta ainda mais o seu manejo por constituírem refúgio para a praga até que a cultura econômica, no caso o feijoeiro, esteja disponível.

Manejo

Para o manejo da mosca-branca de forma eficiente, o monitoramento dos plantios de feijoeiro é de extrema importância, já que a praga apresenta alta taxa reprodutiva com a fêmea, depositando entre 100 e 300 ovos ao longo de sua vida, e mostra um ciclo biológico muito curto, em torno de 15 dias (em temperaturas elevadas), além de apresentar sobreposição de gerações (presença de todos os estágios de desenvolvimento, ovo, ninfa e adulto ocorrendo juntamente no plantio), que são favorecidas pela alta temperatura e baixa precipitação, situação que favorece os surtos populacionais, acarretando num difícil controle.

Dessa forma, seu monitoramento pode ser efetuado pelo uso de armadilhas adesivas amarelas, visando a captura de adultos ou inspeção visual nas folhas, anotando-se o número de ovos, ninfas e adultos, observando se estas atingiram nível de dano para seu controle.

Ainda, o monitoramento utilizando sua presença/ausência pode ser encontrado na literatura. Destaca-se que, por ser vetor de viroses em feijoeiro, nesse caso um adulto por armadilha adesiva já requer a adoção de medidas de controle, que quase sempre são feitas por meio do uso de inseticidas sintéticos (ou convencionais).

Métodos de controle

Quanto aos métodos de controle que atendem ao manejo integrado de pragas (MIP) e que devem ser estimulados a serem utilizados a fim de um controle efetivo da mosca-branca a níveis que não prejudiquem a cultura, destacam-se:

_ Controle cultural: vazio sanitário, quando possível, já que em algumas regiões se tem até três plantios de feijão, o que agrava o problema; eliminação de restos culturais e plantas daninhas que também são hospedeiras da praga e eliminação de plantas com sintomas de viroses.

_ Controle químico: evitar a aplicação de inseticidas (método de controle mais adotado) de amplo espectro de ação, sendo assim possível manter a população de inimigos naturais na área; realizar o controle da praga nos estágios iniciais de infestação; tratamento de sementes com inseticidas sistêmicos e adoção de bioinseticidas à base do fungo Beauveria bassiana e inseticidas botânicos à base de óleo de nim (Azadirachta indica), que já estão disponíveis no mercado (ver Agrofit).

Grupos químicos

Acrescenta-se que, atualmente, 69 produtos apresentam registro para controle da mosca-branca (B. tabaci biótipo B) na cultura do feijoeiro, com destaque para os grupos químicos dos neonicotinoides (maioria dos produtos), piretroides, neonicotinoides + piretroides em mistura) e organofosforados.

Outros grupos químicos encontrados são: tetranortriterpenoide (azadiractina), éter piridiloxipropílico, cetoenol, análogo de pirazol, feniltiouréia, éter difenílico e antranilamida (Agrofit, jan/2019).

Apesar do vasto número de produtos recomendados para mosca-branca na cultura do feijoeiro, pesquisas mostram que, em muitos casos, o tratamento com inseticidas convencionais não é eficiente devido, principalmente, ao fato dos estágios imaturos e dos adultos localizarem-se na face inferior das folhas (dificultando que o produto atinja o alvo) e alto potencial biótico da praga, o que lhe confere rápido desenvolvimento de resistência.

Dessa forma, é importante que, quando utilizado o controle químico, haja rotação de produtos e também da alternância de ingredientes ativos, bem como grupos químicos de diferentes modos de ação, visando o manejo da resistência desse importante inseto praga.

Melhoramento

Recentemente a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e a Embrapa Arroz e Feijão desenvolveram uma linhagem de feijoeiro comum (P. vulgaris) geneticamente modificada (GM), chamada Embrapa 5.1, que é altamente resistente ao vírus do mosaico-dourado-do-feijoeiro (BGMV – Beangoldenmosaic virus), consistindo em mais uma ferramenta a ser utilizada pelo agricultor.

Nesse caso, a preocupação na lavoura seria apenas com relação aos danos diretos provocados pela e praga e aqueles relacionados à presença de fumagina, que são problemas relativamente menores.

Controle biológico

O controle biológico é obtido pela preservação dos inimigos naturais da mosca-branca, quando usados inseticidas seletivos. Várias espécies de inimigos naturais têm sido identificadas em associação com complexo de espécies de mosca-branca. No grupo de predadores, foram identificadas 16 espécies das ordens: Hemiptera, Neuroptera, Coleoptera e Diptera.

Entre os parasitoides, identificaram-se 37 espécies de microhimenópteros, com destaque para os gêneros Encarsia, Eretmocerus e Amitus, comumente encontrados (Lacerda & Carvalho, 2008).

Quanto ao controle microbiano, diversos isolados dos fungos (Deuteromycotina: Hyphomycetes) foram identificados causando mortalidade em mosca-branca, com destaque para: Verticillium lecanii, Paecilomyces fumosoroseus, Aschersonia aleyrodis e Beauveria bassiana (Lourenção et al. 2001; Togni et al. 2009).

A Beauveria bassiana

A eficiência de isolados de B. bassiana contra a mosca-branca é um fato. Várias pesquisas têm demonstrado o potencial patológico deste fungo à mosca-branca (B. tabaci).

O uso desta biotecnologia não ocorre exclusivamente na cultura do feijão, afinal, B. tabaci é uma praga cosmopolita (de abrangência global) e altamente polifaga que acomete diversas culturas, principalmente as de folhas tenras, como é o caso do tomate e da soja.

O controle é tão eficiente quanto o uso de inseticidas químicos, variando em condições de campo entre 60 até aproximadamente 100% de controle. Além disso, o controle da mosca-branca por Beauveria ocorre pela colonização dos ovos, ninfas e os adultos da praga, mas o controle de ninfas é mais notório e eficiente.

Atualmente, pesquisas envolvendo o controle de mosca-branca com Beauveria têm evoluído, a ponto de associar o uso do fungo entomopatogênico conjuntamente com óleos de extratos vegetais, com propriedades inseticidas, que potencializam o efeito do agente de controle biológico, bem como a compatibilidade com inseticidas químicos: espiromesifeno, imidacloprido e tiacloprido.

Vale ressaltar a importância das condições ambientais para o uso deste agente de controle biológico  que é dependente de umidade superior a 60%.

Monitoramento e níveis de controle

O controle de mosca-branca com Beauveria, pensando em manejo integrado (MIP), depende de duas bases. Em primeiro lugar, o seu monitoramento que deve ser semanal, com amostragens que variam de quatro pontos para lavouras de até 05 ha até 10 pontos para lavouras de até 100 ha. Recomendam-se pontos que sejam representativos da área e que em lavouras maiores que 100 ha se proceda à subdivisão da mesma em áreas menores (melhores informações Embrapa MIP-Feijão), sempre em busca de ovos, ninfas e adultos da praga, a fim de constatar a presença da mesma.

Como a praga em questão prefere as folhas mais tenras, que se encontram principalmente no terço superior, deve-se dar mais atenção a esta parte, olhando minuciosamente a face inferior das folhas, que deve ser virada lentamente para não dispersar os adultos (técnica da folha virada).

Em seguida, toma-se a decisão de controle, que em áreas com histórico de alta incidência de mosaico-dourado e em plantio “da seca” (período com condições climáticas favoráveis à praga) consiste em controlar logo que ela for detectada na lavoura, com pulverizações semanais até a fase de florescimento.

Em áreas sem histórico da doença, a preocupação consiste nos danos diretos, ocasionados pela sucção de seiva e possíveis problemas com fumagina. Nessa situação, recomenda-se contar no terço superior das plantas o número de adultos da mosca-branca presentes em 10 trifolioladas/ponto de amostragem.

Nessa situação, o nível de controle (NC) é indeterminado, e fica a critério do agricultor, sendo recomendado o uso de algum método de controle somente se a infestação estiver muito elevada e problemas com fumagina forem detectados.

Para pulverizar o fungo, deve-se ter precaução com a tecnologia de aplicação devido às características do produto. Não realizar pulverização em horários mais quentes, portanto, fazê-lo preferencialmente em horário crepuscular.

Para a aplicação, deve-se adicionar um espalhante adesivo, visando aprimorar o contato dos conídios do fungo nas superfícies foliares e nos insetos. A opção por bicos de jato cônico tem obtido melhores resultados em cobrir o alvo, que fica na parte abaxial das plantas de feijão. Outra precaução é respeitar o intervalo de segurança de fungicidas, pois os mesmos apresentam incompatibilidade com esta estratégia de controle.

Custo

Quando se analisa o custo do controle biológico da mosca-branca em feijoeiro com o fungo Beauveria, temos que encarar que será necessário pesar a questão ambiental em relação à financeira.

A aplicação por hectare costuma ser mais cara que a de agroquímicos devido ao efeito de choque não ser observado no caso biológico. O efeito de choque desejado pelos agricultores nada mais é que visualizar um controle rápido do problema, entre um a dois dias, o que, no caso do fungo, ocorre apenas entre o terceiro e o sétimo dias após a pulverização.

Isso acaba impondo uma quantidade de aplicações maior do fungo do que dos agroquímicos. Entretanto, essa questão pode ser otimizada adotando-se as medidas corretas de tecnologia de aplicação mencionadas anteriormente, juntamente com o momento correto de controle, obtido como um rigoroso e correto monitoramento da lavoura.

Já ficou claro, que o controle de mosca-branca, baseado apenas no uso de inseticidas químicos, não é eficiente em longo prazo. Novas ferramentas devem ser incorporadas ao manejo, reduzindo os problemas causados por essa praga que a cada ano vem se tornando mais problemática e de difícil manejo.