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quinta-feira, agosto 11, 2022
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Qual o potencial do controle biológico na soja?

Autores

Bruna Cristina de Andrade
brunaandrade639@yahoo.com.br
Amanda Sabino
Engenheiras agrônomas e mestrandas em Proteção de Plantas – Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Rafaela Araújo Guimarães
Engenheira agrônoma e doutora em Fitopatologia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
Paulo Henrique Dionizio Luiz
Engenheiro agrônomo e mestrando em Fitopatologia – Universidade Federal de Viçosa
 (UFV)
Ana Paula Mendes Lopes
Engenheira agrônoma e doutoranda em Proteção de Plantas – Unesp/FCA -Botucatu
Huarlen Marcio Balbino
Engenheiro agrônomo e doutorando em Fitopatologia – UFV

Crédito Shutterstock

O controle biológico de doenças em plantas é uma prática agrícola que tem sido adotada atualmente em grandes e pequenas propriedades. A ineficiência de controle das doenças de plantas e a resistência de alguns princípios ativos de fungicidas de base química foram suficientes para promover e desenvolver trabalhos sobre o potencial do controle biológico de doenças em campo.

Sendo assim, a prática deve ser usada aliada ao manejo integrado de doenças de plantas, que além de reduzir a severidade delas, atua de forma amigável dentro do manejo da resistência a fungicidas. Esse potencial advém da característica dos produtos, que apresentam diferentes mecanismos de ação (antibiose, produção de metabólitos, produção de compostos voláteis, parasitismo, competição, indução de resistência e promoção de crescimento) contra fitopatógenos.

Doenças controladas

Na cultura da soja esse potencial vem sendo explorado no manejo de mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum), ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) e nematoides (Meloidogyne spp, Heterodera glycines e outros).

O fungo Trichoderma spp. se destaca no parasitismo de escleródios no controle da doença do mofo branco. No manejo da ferrugem, bactérias do gênero Bacillus spp. atuam na inibição da germinação de uredósporos. No controle de nematoides, diferentes fungos (Arthrobotrys spp., Purpureocillium spp. Trichoderma spp. e Pochonia spp.) atuam no parasitismo de ovos reduzindo a eclosão e juvenis de segundo estágio (J2).

Para nematoides de solo, um modelo bem disseminado e conhecido como um ‘caso de sucesso’ é o uso da bactéria Pasteuria penetrans, que atua como endoparasita, ou seja, parasita o corpo dos nematoides, reduzindo sua locomoção e capacidade infectiva e, assim, também diminui os danos às plantas e os custos de produção nas lavouras de soja. Outra vantagem desse agente de controle biológico é a alta capacidade de sobrevivência em solos e o potencial de disseminação (por produzir estruturas conhecidas como endósporos).

Assim, o manejo biológico de doenças da soja tem amplo espectro de ação (a diferentes tipos de doenças) e são normalmente utilizados também outros patossistemas com eficiência. Desta forma, estes produtos de origem biológica trabalham na direção da redução de fontes de inóculos e severidade das doenças da soja, além de promover benefícios na qualidade biológica, química e até física dos solos para o cultivo da soja.

Por onde começar

A implementação dessa ferramenta de manejo necessita de cuidados quanto ao tempo de aplicação. Alguns microrganismos são mais eficientes quando aplicados de forma preventiva, pois necessitam de pré-estabelecimento antes de atuarem contra um patógeno específico.

Assim, a fenologia da planta é importante na tomada de decisão para iniciar as aplicações, além de cuidado com os momentos da aplicação em relação às condições de temperatura, umidade, direção do vento e nebulosidade para uma correta aplicação e estabelecimento de microrganismos nas áreas de plantio de soja.

Outro ponto a ser pensando é em relação à compatibilidade com outros produtos (herbicidas, inseticidas e fungicidas). Normalmente, produtos à base de fungos têm maior incompatibilidade com fungicidas e até com alguns herbicidas, enquanto produtos à base de bactérias são menos sensíveis.

Mais produtividade

No controle de doenças de solo, estudos recentes do Instituto Phytus demonstram que a economia diante da utilização de produtos de base biológica pode chegar a 30%. Para nematoides, ensaios demonstram acréscimo de mais de 200% em produtividade de soja, passando de 28 para 60 sacas por hectare.

Vale ressaltar que, além das características produtivas, os benefícios associados à implementação de controle biológico em doenças abrangem seguridade do operador ao consumidor (não é tóxico), o favorecimento de microbiota no solo, biodegradação do produto sem danos ao meio ambiente, seletividade a outros organismos e, em alguns casos, a indução de resistência, promovendo proteção sistêmica da planta contra fitopatógenos.

Custo-benefício

Em uma avaliação mais criteriosa sobre o custo-benefício da implementação, deve-se considerar condições econômicas e socioculturais do agricultor e sua propriedade, mas de modo geral, o controle biológico tende a ser barato que o químico, e traz benefícios a curto e longo prazos.

No Estado do Paraná, por exemplo, os produtos podem variar de R$ 150,00 a R$ 210,00 por alqueire. Essa variação gira em torno dos produtos “linha premium”, com os produtos de linha ainda em expansão.

Realidade

Dentre os diversos organismos relatados com eficiência a nível de campo, deve-se citar o Baculovirus anticarsia para combater a lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis). Esse vírus é capaz de causar mortalidade em até 80% do número de larvas de A. gemmatalis e, por consequência, o dano causado pela desfolha se mantém abaixo do considerado importante economicamente.

Para fitopatógenos, o mofo branco, causado por Sclerotina sclerotiorum, é um organismo de grande importância, podendo ocasionar até 70% perdas e, quando não manejado, chega a produzir prejuízos de 100%. Como alternativa de controle biológico, o fungo antagonista Trichoderma harzianum mostra-se eficiente em reduzir a incidência em mais de 60%. Ainda, trabalhos realizados em condições de campo relataram que a dosagem e 0,5 L.ha-1 de T. harzianum acarretou no incremento de 313 kg.ha-1 de grãos de soja.

No controle de nematoides em soja podemos destacar o uso de alguns fungos e bactérias. O uso de Pochonia chlamydosporia no controle de nematoide-das-galhas e das lesões das raízes se mostra eficiente, uma vez que o fungo parasita os ovos e fêmeas dos nematoides, fazendo com que tenha menos infecção e, consequentemente, diminuindo a incidência da doença.

Por fim, vale ressaltar, ainda, que ano após ano mais produtos de controle biológico com grande potencial são disponibilizados para o mercado, que é cada vez mais exigente em produção agrícola sustentável. Além de atuarem sobre o organismo-alvo, microrganismos de biocontrole oriundos de formulados podem também estabelecer uma relação com a cultura, melhorando seu desempenho, resistência e culminando em maior produtividade.

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