Segure uma xícara e exale o aroma de um bom café

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Autores

Mônica Bartira da Silva Engenheira agrônoma, doutora em Agronomia e professora – Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) – monica.bartira@gmail.com

Artur Deperon Gallucci Engenheiro agrônomo, MBA em Agronegócios, mestrando em fitotecnia (ESALQ/USP) e pesquisador – Aprimora – Pesquisa e Assistência Agronômica

Café – Crédito: shutterstock

Na cultura do café, é necessário um maior rigor na análise e interpretação dos resultados de custos, pois seu ciclo perene, com produção bienal, pode gerar uma grande diversidade de situações pré e pós-colheita dos grãos.

O café tem tido um efeito transformador na história do mundo. Desde sua descoberta até os dias atuais ele influencia no cotidiano das pessoas – traçou novas rotas comerciais, estimulou movimentos revolucionários, inspirou a literatura e a música.

Conforme Ana Luiza Martins escreveu em seu livro “História do café”, ele se tornou o elixir do mundo moderno. Não é à toa que ele é a maior mercadoria comercializada em alimentos e bebidas do mundo, existindo cerca de 72 países produtores da cultura.

Diferenciais brasileiros

Um dos grandes diferenciais do Brasil é que nos destacamos tanto na produção do café arábica (Coffea arabica), que atualmente ocupa a maior parte da área de produção, com 81%, quanto do café conilon (Coffea canephora).

Com relação à espécie arábica, a produção foi de 34,3 milhões de sacas, o que representou uma redução de 27,8%. Diferente do conilon que alcançou 15 milhões de sacas colhidas, observou-se um aumento de 5,9% em relação ao ano de 2018. Porém, para as duas espécies foi observada redução de área plantada. A área de arábica soma 1,73 milhão de hectares, com queda de 0,9%, e a do conilon ocupa 398,8 mil hectares, decréscimo de 2,5%.

Apesar da redução na produção, dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostram que no ano civil de janeiro a novembro de 2019 o Brasil exportou para 128 países um volume total de 37,4 milhões de sacas, considerando a soma de café verde, solúvel e torrado/moído, o que representa um crescimento de 18,4% em relação ao mesmo período do ano de 2018 e se destaca como o melhor desempenho das exportações dos últimos cinco anos para o período.

Outra característica importante de ser relatada é que, apesar de ser o maior exportador de café, o Brasil foi responsável por apenas 6,9 milhões de sacas de cafés especiais, o que representa 18,6% de participação do total de café exportado no ano de 2019.

Marco de 2019

Além dos valores apresentados, o que marcou o ano de 2019 foi a baixa nos preços do café. A safra 2018/19, finalizada em junho de 2019, teve preços bem inferiores aos observados na 2017/18.

O arábica tipo 6 teve média de R$ 422,62/saca de 60 kg, queda de quase 15% frente à da safra anterior, a mais baixa desde a temporada 2001/02, em termos reais. Quanto ao robusta tipo 6, a média dos preços em 2018/19 foi de R$ 317,28/saca, 20,1% inferior à de 2017/18 e a menor desde a temporada 2009/10. 

A pressão sobre as cotações do café só não foi mais significativa por conta do dólar elevado ao longo da safra 2018/19, contudo, a valorização da moeda norte-americana também resultou em aumento dos custos de produção, refletindo notadamente em alta nos preços de adubos e de outros insumos agrícolas.

Relatos reais

Diante dessas informações, entrevistamos alguns produtores de diferentes regiões do Brasil, que relataram, do seu ponto de vista, como foi o ano agrícola de 2019:

O produtor Valdinei Astori, 36 anos, sempre trabalhou com café. Já são três gerações trabalhando com este grão no Espírito Santo. As propriedades estão divididas em três áreas de produção de Coffea canephora, em Jaguaré (ES).

Ele relata que 2019 foi um ano de recuperação e pagamento de dívidas decorrentes da seca de anos anteriores. Houve queda dos preços do café e alto custo de produção, por isso foi preciso reduzir os investimentos na lavoura, principalmente em adubação. Para 2020 o produtor terá uma safra pequena e espera que haja aumento dos preços do café.  

O produtor Douglas Revesse da Silva, 26 anos, trabalha com café desde os 12. A propriedade leva o nome de Chácara Boa Esperança, e fica localizada em Novo Horizonte do Oeste (RO), onde é produzido Coffea canephora, das variedades 08, 25, AS2, que correspondem a 70% da lavoura e R152, 06, 41, G8, 01, 010, AS3, 02, 05, 80 e 180.

Ele relata que o fator que mais marcou a produção em 2019 foi o reduzido preço da saca. Na safra passada ele teve problemas com mancha aureolada, principalmente em uma cultivar específica. A solução encontrada foi a utilização repetitiva de bactericidas, com fungicidas multissítios.

O produtor ainda conta que ocorreram outros problemas com mão de obra e que neste caso ele não conseguiu encontrar solução. Contudo, para este ano tem estudado a implantação da colheita semimecanizada, e espera uma melhora dos preços em virtude de menor oferta do produto e sonha com uma redução no preço dos insumos, que representam cada dia mais uma fatia maior do custo de produção.

O produtor Marcelo Braun, 34 anos, é cafeicultor desde os 10. A propriedade Chácara Boa Esperança fica em Alto Alegre dos Parecis (RO), com Coffea canephora, das variedades 25, 08, 010, 80, 88, 22, 015, 68 e 102.

Segundo ele, 2019 foi um ano com boa produtividade, mas seu principal problema foram os ataques de brocas e cochonilhas. O produtor espera para o ano de 2020 uma boa produtividade e que haja mais inovações, variedades mais produtivas, além de melhora nos preços.

O produtor Celso Giufrida, 47 anos, trabalha com café há 20 anos. O Sítio Córrego Azul está localizado em Alvorada do Oeste (RO), onde é plantado Coffea canephora. Para ele, o que mais marcou 2019 foi a queda brusca no valor de comercialização do café conilon e os principais problemas foram perdas ocasionadas pela broca e pelo fungo Phoma, necessitando de aplicações preventivas de inseticidas e fungicidas.

O produtor espera para 2020 uma safra de alta produtividade, sem perdas com a broca e o fungo, além de um bom valor comercial.

Marcio Alexandre Cequinato Basseto, 48 anos, é cafeicultor desde os 15. A Agropecuária Ouro Verde fica em São Manuel (SP), onde tem sete hectares de café arábica – Catuaí e Obatã. 

Ele relata que o baixo preço do café e a falta de incentivo na área agrícola foram situações que marcaram 2019, mas no final do ano o valor da saca teve uma ligeira melhora. A esperança dele é a torrefação, para agregar valor ao seu café, e com ela espera que o produto tenha uma valorização e assim possa voltar a sonhar com um ano melhor.

Análise macro

Como é difícil influir nos preços, cabe, então, analisar como foram os custos de produção dos cafés. Primeiro, deve-se considerar que os custos são muito variáveis, conforme as condições particulares de cada região, o sistema de manejo das lavouras, o grau de mecanização, tipo e eficiência do produtor e até mesmo das variações climáticas do local, que influenciam diretamente na produtividade das plantas e na qualidade da bebida do café.

Segundo o trabalho realizado por Almeida et al., 2010, avaliando o cultivo do café arábica, os principais fatores de produção que variam entre diferentes regiões produtoras são:

Ü Operação com máquinas;

Ü Aluguel de máquinas;

Ü Mão de obra temporária;

Ü Mão de obra fixa;

Ü Fertilizantes;

Ü Agrotóxicos;

Ü Beneficiamento;

Ü Juros,

Ü Depreciação de máquinas;

Ü Depreciação do cafezal;

Ü Remuneração do cafezal e;

Ü Remuneração do fator terra.

De acordo com os autores, dentre esses fatores, a mão de obra temporária e fixa apresentam o maior impacto sobre o custo na produção de café, correspondendo a 32% do total. Além disso, fertilizantes e agrotóxicos, juntos, somam 29,5% dos totais de gastos.

No estudo publicado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab, 2017), analisando a evolução dos custos de 2008 a 2017, a mão de obra também foi apresentada como principal fator nos gastos totais.

Entretanto, foi observado que sua utilização tem reduzido, em algumas localidades onde o sistema de plantio é mecanizado ou em processo de mecanização, como em Luís Eduardo Magalhães (BA), Patrocínio (MG), Cristalina (GO) e Franca (SP).

No relatório, as análises dos custos de produção indicaram que a mão de obra participa com 36,22%; as operações e aluguel de máquinas, em média, com aproximadamente 15%; e os fertilizantes apresentaram participação média de 18,45% nos custos operacionais, que estão relacionados aos investimentos no cultivo, busca de melhoria da produtividade e qualidade do café.

Rigor

Na cultura do café, é necessário ainda um maior rigor na análise e interpretação dos resultados de custos, pois seu ciclo perene, com produção bienal, pode gerar uma grande diversidade de situações pré e pós-colheita dos grãos.

Sendo assim, é aconselhável que os investimentos em estruturas internas à propriedade cafeeira, como terreiros, tulhas, armazéns, descascador, lavadores, secadores e máquinas de beneficiamento sejam incorporados ao custo, de modo que o produtor tenha condições de realizar uma análise dos recursos empregados no processo produtivo e a viabilidade econômica do seu negócio.

Análises de viabilidade econômica da produção cafeeira podem ser realizadas de maneira simples pelos produtos rurais, à medida que estes conseguirem levantar corretamente seus custos de produção e a produtividade de suas lavouras.

O investimento anual para produção, a produtividade da cultura, o preço médio da saca de 60 kg de café beneficiado praticado na safra e a taxa de juros dos investimentos que o produtor utiliza junto aos bancos são fatores que permitem o cálculo de indicadores econômicos, tais como Valor Presente Líquido (VPL), Taxa interna de retorno (TIR), Índice de Lucratividade e Período de Payback, os quais representam a transferência de todos os fluxos de caixa esperados no projeto para o presente, indicando se este é viável ou não.

A taxa de juros representa o limite entre a viabilidade e inviabilidade do negócio; o índice de lucratividade que o produtor terá conforme seu investimento e o período de recuperação do seu capital investido, respectivamente.

Estudos com indicadores econômicos simples podem auxiliar o produtor a observar se realmente o seu negócio está sendo ou quando será rentável dentro da propriedade rural, porém, como já dito, um correto levantamento do custo de produção é essencial para essa prática.

Cenário futuro

A projeção de cenários, tanto favoráveis, com valores altos nos preços da saca de 60 kg de café beneficiado e taxas de juros baixas; quanto desfavoráveis, com o oposto do citado acima, demonstram situações em que o produtor não tem muita influência sobre o fator que está levando seu negócio à viabilidade ou não.

Sendo assim, algumas são as alternativas que o cafeicultor possui para tentar manter seu negócio viável e rentável, as quais são: manutenção de altas produtividades ao longo dos anos, visando reduzir ao máximo a bienalidade das safras; produção de uma bebida de qualidade, colhendo além de peso de grãos, o aroma e a doçura de um café especial e; agregação de valor ao produto colhido, por meio do beneficiamento dos grãos e busca por certificações de suas lavouras.

Essas alternativas exigem que cada vez mais o produtor de café procure conhecimento, tecnologia agregada e capricho nas operações em suas lavouras, de modo que a produção deste grão de grande importância econômica para o Brasil possa gerar prazer na xícara e dinheiro dentro do bolso.