Sementes piratas: alerta máximo de perigo

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Fotos: Shutterstock

Cristiane Deuner
Engenheira agrônoma, doutora em Fitotecnia e assistente técnica de pesquisa de campo
cdeuner@yahoo.com.br
Daniele Brandstetter Rodrigues
Engenheira agrônoma, doutora em Fitotecnia e supervisora de controle de qualidade de sementes
ufpelbrandstetter@hotmail.com
Erica Camila Zielinski
Engenheira agrônoma e mestranda em Produção Vegetal – Universidade Federal do Paraná (UFPR)
ericacamilazielinski@gmail.com
Daniela Andrade
Engenheira agrônoma e mestre em Produção Vegetal – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
daniela.agronomia@hotmail.com

Sementes piratas são aquelas produzidas fora do sistema de certificação e fiscalização, em campos não inscritos no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). São comercializadas informalmente, sem garantia de procedência, bem como do atendimento aos padrões de qualidade e identidade estabelecidos pela legislação brasileira.
Grande parte dessas sementes são oriundas das sementes salvas pelos agricultores, que é uma prática permitida pela legislação. Entretanto, a quantidade deve ser de acordo com as áreas cuja posse o agricultor detenha e somente para a safra seguinte, sendo proibida a sua comercialização.

A grande vilã

A semente pirata se torna uma vilã na produção da soja, assim como em outras culturas. Isso ocorre exatamente pela falta de conhecimento sobre a sua procedência, o que pode acarretar em aquisição de materiais totalmente diferentes do previsto, com características genéticas e comportamentais inesperadas no campo. Somado a isso, têm-se sementes com baixa qualidade fisiológica e problemas fitossanitários, acarretando em perda de rendimento e lucratividade.

Nesse contexto, os prejuízos provocados pela adoção de sementes piratas incluem:


– Mistura de cultivares: o que dificulta o manejo da cultura, principalmente pela diferença nos ciclos de maturação e varrições na resistência/tolerância ou suscetibilidade às pragas, doenças e produtos químicos;
– Aumento da incidência de plantas daninhas nas áreas de cultivo: um lote de sementes piratas não respeita a legislação quanto à presença de sementes nocivas proibidas e toleradas, acarretando muitas vezes no uso desnecessário de defensivos agrícolas;
– Ser veículo de transmissão de patógenos: estes patógenos podem ser causadores de doenças agressivas, seja por meio delas ou pela presença de partículas de solo contaminados, podendo, inclusive, causar epidemias, ou ainda inaugurar uma doença ainda não ocorrida na região, que por sua vez onera o cultivo e diminui a lucratividade das lavouras.

Em relação à baixa qualidade fisiológica, ou seja, baixo percentual de germinação e vigor, normalmente característica nessas sementes em função da falta de cuidados e conhecimentos técnicos na produção, beneficiamento e armazenamento, verifica-se uma limitação no potencial produtivo.

Esse aspecto é visível tão logo ocorra o desenvolvimento inicial das plântulas nos campos, por meio de falhas nas linhas, atraso e desuniformidade na emergência, maior suscetibilidade às condições adversas de clima, entre outros. Sem uma população bem estabelecida, a perda de produtividade é maior. Além disso, o custo por planta se torna bem mais elevado, podendo não ser viável continuar com a lavoura.

Outro fator importantíssimo, quando se trata do uso de sementes piratas, é a falta de retorno em tributos aos obtentores dos materiais. Novas cultivares de soja são lançadas constantemente no mercado e as obtentoras necessitam do retorno do seu investimento em pesquisa e desenvolvimento por meio da venda de sementes legais e cobrança de royalties.

Com a pirataria isso não ocorre, prejudicando o programa de melhoramento genético, a inovação tecnológica, a diversidade de materiais lançados e toda a cadeia produtiva. Dessa forma, deve-se sempre lançar mão da compra de sementes certificadas, evitando todos esses problemas e otimizando a produtividade.

Financeiramente falando

De acordo com a Abrasem, o uso de sementes ilegais impacta em prejuízos de mais de R$ 2 bilhões/ano ao agronegócio brasileiro. No caso da soja, ela é a quarta cultura mais “pirateada” no Brasil, perdendo para o feijão, arroz e algodão, e o resultado disso é visível na produtividade. Via de regra, quando utilizadas sementes certificadas (legais) de soja, a produtividade pode ser superior em mais de 30% em relação às piratas.

No entanto, em decorrência do preço, considerado mais atrativo no caso da semente pirata em comparação à certificada, muitas vezes os produtores cometem o erro de adquirir esses “grãos” que foram salvos, com o intuito de baratear o custo do plantio.

A semente pirata chega a ser até 70% mais barata do que a certificada. Essa prática ocorre comumente entre produtores, com a venda do excedente para vizinhos e conhecidos, sendo mais comum em determinadas culturas, como é o caso do feijão, em que, considerando a esfera nacional, cerca de 55% da semente é comercializada de forma ilegal e em Estados como o Paraná, cerca de 90% da semente é ilegal.

Porém, embora atrativo, o custo/benefício, neste caso, não existe, pois as perdas e os gastos extras na produção podem ser imensuráveis. Vale ressaltar que esse material não possui os atributos já mencionados acima que conferem garantias de qualidade e pureza ao produtor.

Segurança em primeiro lugar

Dessa forma, a semente certificada é a garantia de um bom aproveitamento do material e de estabelecimento adequado. Entretanto, o sucesso da lavoura também irá depender de todo processo/manejo posterior à germinação da semente.

Hoje, existem empresas que garantem a população desejada pelo produtor e, caso não aconteça alguma situação adversa, a semente e os hectares plantados são assegurados pela empresa, e o produtor recebe novas sementes para plantio. No caso da semente pirata, não há seguro para a lavoura.

A boa notícia é que, para evitar todos os prejuízos advindos do uso de sementes piratas, a receita é simples: comprar sementes certificadas! Estas vêm acompanhadas de nota fiscal, certificado ou termo de conformidade, que garante que as sementes seguiram as normas estabelecidas para produção e comercialização.

Também é necessário desmistificar o fato de que a semente certificada é cara, mostrando ao produtor os benefícios e vantagens de uma semente de qualidade e quais os impactos negativos que podem ser gerados com a utilização da semente pirata, evidenciando que semente não é gasto, e sim investimento básico, visando uma lavoura de qualidade. Além da conscientização do produtor, fiscalização adequada é necessária, visando reduzir esse mercado ilegal.