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quarta-feira, agosto 10, 2022
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Silício x requeima da batata – A hora da verdade

Autores

Rodrigo Vieira da Silva
Engenheiro agrônomo, doutor em Fitopatologia e professor do IF Goiano – Campus Morrinhos
rodrigo.silva@ifgoiano.edu.br
João Pedro Elias Gondim
Luam Santos
Engenheiros agrônomos e mestrandos em Olericultura – IF Goiano – Campus Morrinhos
Brenda Ventura de Lima e Silva
Mestre em Fitopatologia e Servidora do IF Goiano – Campus Morrinhos
Edcarlos Silva Alves
Graduando em Agronomia – IF Goiano – Campus Morrinhos B

A batata é a terceira cultura alimentar mais importante do mundo, sendo amplamente cultivada e fazendo parte da dieta alimentar em diversos países. Entre os fatores limitantes da produção e de boa qualidade de batata, podemos destacar a doença denominada mela ou requeima.

No Brasil, as quantidades de agrotóxicos utilizados para o controle desta doença são extremamente elevadas, devido ao fato de que as pulverizações são realizadas por meio de calendário fixo, desconsiderando os fatores ecológicos que afetam a interação entre este Oomiceto e a batateira, principalmente as condições ambientais.

A requeima constitui-se na principal doença da batateira, causada pelo oomiceto Phytophthora infestans. Em condições favoráveis, ou seja, temperatura amena (15 a 22ºC) e muita umidade (>90%), pode destruir completamente uma lavoura em poucos dias, devido à destruição da folhagem, de modo que em áreas com alto nível de infecção e controle ineficiente, os prejuízos podem chegar a 100% da produção.

Nos últimos anos ocorreu o aparecimento de novas raças ainda mais agressivas do patógeno e, consequentemente, exigindo maior quantidade de aplicação de agrotóxicos. Estima-se que os prejuízos causados por essa doença em todo o mundo ultrapassam os US$ 8 bilhões. Algumas estimativas indicam que, no Brasil, mais de 20% do custo de produção é direcionado para o controle da requeima da batata.

Sintomas da requeima

O patógeno é capaz de afetar todos os órgãos da planta, principalmente as folhas, onde se manifestam os sintomas mais típicos, mas que também podem ser observados nos tubérculos.

Nas folhas, as lesões se iniciam como lesões aquosas no limbo foliar com rápido crescimento, e que em pouco tempo provoca a necrose, apresentando bordos de tonalidade verde mais clara se comparada com os tecidos sadios.

Em condições de alta umidade, pode ocorrer a formação das estruturas do patógeno, geralmente na face abaxial das folhas. Sob condições de surtos epidêmicos, as lesões coalescem, destruindo as folhas de forma rápida, dando aspecto de queimada, o que originou o nome característico da doença.

Em pecíolos e caules, o ataque do patógeno pode resultar na morte da porção acima das lesões. Em tubérculos ocorre uma podridão seca inicialmente marrom, que escurece com o tempo, chamada de “mancha chocolate”.

Condições propícias para a requeima

A alta umidade relativa (acima de 90%) e temperaturas moderadas entre 15 e 22ºC são condições ideais para o surgimento e propagação da doença. O fungo consegue migrar entre os folíolos da batateira, espalhando-se entre as plantas, e sob o molhamento contínuo todos os órgãos aéreos da planta podem ser infectados e necrosados.

Os esporos deste patógeno, que são as células reprodutivas, aderem em minutos à superfície da planta e em menos de três horas penetram nos órgãos da parte aérea, sendo que após três a quatro dias os sintomas já são visíveis. O fungo sobrevive por muito tempo na batata-semente e ocorre também a disseminação pelo vento, que o transporta para novos locais.

Ação do silício

A nutrição adequada das plantas proporciona uma melhor tolerância a fitopatógenos. O silício, com o passar dos anos, teve o efeito benéfico reconhecido pelos diversos pesquisadores da área agrícola, por atuar como uma barreira a diversos patógenos, diminuindo o ataque de insetos e a incidência de doenças, além de aumentar a capacidade fotossintética das plantas, promover o desenvolvimento de plantas mais eretas, reduzir a taxa da transpiração, aumentar a resistência mecânica das células, diminuir o efeito tóxico do Mn, Fe e outros metais pesados, e aumentar a absorção e metabolismo de elementos, tais como o fósforo.

Além de barreira física, devido ao acúmulo na epiderme das folhas, o silício ativa alguns genes envolvidos na produção de compostos secundários do metabolismo da planta, como os polifenóis e enzimas relacionadas com os mecanismos de defesa vegetal.

Assim, o aumento de Si nos tecidos vegetais faz que a tolerância da planta ao ataque de Phytophthora infestans aumente, devido à produção suplementar de toxinas que podem agir como substâncias inibidoras do patógeno.

Resultados observados em condições decampo

Alguns trabalhos comprovaram que a aplicação de silício via foliar na cultura da batata, na forma de ácido silícico estabilizado, proporciona uma redução na severidade da requeima (Phytophthora infestans), além de aumentar a produtividade e qualidade comercial e o teor de matéria seca dos tubérculos de batata.

Verificou-se, também, que com a aplicação de doses crescentes de silicato de potássio via foliar, proporcionou folhas mais eretas das plantas de batata, diminuindo o sombreamento mútuo e, consequentemente, aumentando a taxa fotossintética.

Estudos recentes sobre a aplicação foliar de silício na cultura da batata, cultivar ‘Atlantic’, demonstraram que a adição de Si, quando utilizada a cada sete dias, reduziu em até 50% a severidade da requeima em relação às plantas que não foram tratadas com Si.

Além disso, pesquisas apresentam resultados positivos, em que o fornecimento de Si na cultura da batata, na forma de adubação, incorporando o material ao solo, promoveu em até 63% a redução no acamamento das plantas, além do aumento da produção total e comercial de tubérculos, em média, de 20%.

Quando e como aplicar o Si

O momento da aplicação é quando as plantas estão em estádio vegetativo com brotações, flores e frutos verdes. A ideia é aplicar em folhas jovens para que as células formem camadas de proteção à entrada do fungo.

O silício é pouco móvel na planta e, desta forma, mesmo ocorrendo a absorção pelas raízes, o Si encontra dificuldade em alcançar as partes aéreas, sendo necessárias aplicações frequentes.

Portanto, o fornecimento de silício via pulverização foliar é considerado uma alternativa viável para o fornecimento às plantas, estimulando seus efeitos benéficos, além de reduzir significativamente a taxa de germinação de esporos do fungo.

Dose recomendada e manejo

Os métodos de aplicação dos silicatos são principalmente por meio da forma sólida (pó ou granulado) ou líquida (via solo ou via foliar). O emprego dos silicatos em pó se dá pela incorporação em área total, enquanto os granulados são aplicados nas linhas de plantio, normalmente acompanhados de outros adubos, como o NPK.

As doses de silício a serem aplicadas no solo dependem da fonte utilizada e do teor de Si no solo. Ainda há muitas divergências sobre a dose ideal para a aplicação de silício na lavoura, porém, estudos indicam que doses para o material fino (pó) a lanço variando de 1,5 a 2,0 t ha-1 de silicato de cálcio são eficientes, e para os solos que já estão corrigidos, a dose não deve ultrapassar de 800 kg ha-1.

Outros estudos com o material granulado têm demonstrado que doses de silicato variando de 0,5 a 0,8 t ha-1 são suficientes no sulco de plantio, pois a combinação do silicato com material fertilizante (NPK) é uma ótima alternativa. Para a aplicação via pulverização mecânica, pesquisas utilizaram doses de silicato entre 1,0 a 8,0 L ha-1 de forma parcelada no ciclo da cultura.

Alguns trabalhos mais recentes com aplicação foliar de Si evidenciaram que a dose de 2 L ha-1 de produto comercial com 0,8% de Si solúvel, como concentrado estabilizado de ácido salicílico, parcelada em quatro aplicações durante o ciclo da batata, foi suficiente em reduzir a severidade da requeima em mais de 40% em comparação às plantas que não receberam nenhuma dose de Si.

Custo da aplicação

O custo da aplicação varia de acordo com as condições de solo, sendo importante que se realize análise de solo, que apontará a melhor indicação da dose a ser utilizada pelo produtor. Contudo, sua aplicação não exige maiores investimentos do que a tecnologia comumente empregada para pulverizações em parte aérea, tratamento de sementes ou adubações, podendo até mesmo ser conciliada com outras aplicações.

A tecnologia baseada no uso do silício na agricultura é limpa, viável e sustentável, com enorme potencial para diminuir o uso de agroquímicos mais caros e tóxicos, e aumentar a produtividade por meio de uma nutrição mais equilibrada e fisiologicamente mais eficiente, com plantas mais produtivas e vigorosas, com baixa severidade de doenças.

De modo que apenas o ganho em produtividade já paga o custo de aplicação do Si, sem contar o auxílio no manejo da requeima e de outros patógenos e insetos pragas.

Manejo sustentável da requeima

Segundo diversos pesquisadores, algumas medidas preventivas devem ser consideradas para a racionalização do uso de agrotóxicos e melhor manejo da requeima, a saber:

Ü Plantio de cultivares resistentes e/ou tolerantes à requeima;

Ü Adubação equilibrada, sem excesso de nitrogênio;

Ü Adubação com o silício;

Ü Evitar o plantio em regiões sujeitas à ocorrência e permanência de neblina por períodos longos;

Ü Evitar o plantio em terrenos baixos, sombreados ou próximos a reservatórios de água;

Ü Realizar a rotação de cultura com espécies de planta não hospedeira da doença;

Ü Utilizar batatas-semente de boa procedência (empresas idôneas);

Ü Vistoriar as batatas-semente para a verificação e eliminação de tubérculos infectados;

Ü Não plantar em áreas próximas de culturas velhas de batata e de tomate;

Ü Fazer plantios menos adensados, para um melhor arejamento;

Ü Eliminar plantas voluntárias próximas às lavouras;

Ü Destruir os restos da cultura logo após a colheita.

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