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segunda-feira, julho 15, 2024
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Sistema de cultivo mínimo

Jose Geraldo Mageste jgmageste@ufu.br

Wedisson Oliveira Santos wedisson.santos@ufu.br

Araína Batista Hulmann Batista araina@ufu.br

Professores do Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Uberlândia – UFU

Eucalipto – Crédito Fibria

As práticas silviculturais no Brasil foram estabelecidas inicialmente, no final da década de 1970, tipicamente seguindo padrões agronômicos convencionais de preparo de solo e manejo de resíduos.

Foi comum, por muito tempo, o intenso revolvimento do solo com aração e gradagem (camada superficial), enleiramento e queima de resíduos. As recomendações eram genéricas, não consideravam variações regionais de clima, solo ou material genético (Gonçalves, 2009).

Em muitos casos, eram necessários tratores de esteira de grandes potências. Na década de 1980 algumas organizações usavam uma grade Bedding para formar camalhões, produzindo diques. Isto em pleno Cerrado! Este modelo era cópia fiel da silvicultura estadunidense, principalmente da Flórida e do Arkansas, onde havia muitos cultivos em áreas de pântanos. Assim, o camalhão evitava que as raízes passassem por restrições de oxigênio (“falta de ar”).

Nesses cenários, havia certa dificuldade de acertar no manejo de adubação dos povoamentos devido ao desafio de se estabelecer locais preditivos da fertilidade do solo para a coleta de amostras, tendo em vista o “carnaval” de substratos que se formava entre o camalhão e a entrelinha.

Influência direta

Muitos são os fatores que influenciam o preparo do solo para plantio de árvores como o eucalipto, desde a capacidade de investimento da organização ou do silvicultor, até condições edafoclimáticas como o relevo, a classe textural do solo (arenoso, argiloso, siltoso, etc.), vegetação predominante na área a ser cultivada e regimes hídricos.

Neste ponto, vale uma observação – fazer destocas não é aconselhável para os plantios, seja para renovação dos povoamentos, ou para os novos. Em outras palavras, os principais tipos de preparo do solo (ou sequência de operações) são recomendados para terrenos planos ou inclinados e para áreas “sujas” ou “limpas”, no que diz respeito à vegetação pré-existente.

Considerando as características dos solos utilizados, a quantidade e qualidade de argila (baixa ou alta atividade, com maior ou menor pegajosidade, plasticidade e consistência) vão influenciar muito no rendimento e qualidade das operações.

As novas demandas, no que diz respeito à conservação do solo e da água, têm levado produtores a aderirem cada vez mais a modelos conservacionistas de produção. Há uma certa urgência em diminuir a degradação dos solos, e as preocupações com a preservação ambiental têm sido acompanhadas pelo desenvolvimento de novas tecnologias de produção, como por exemplo, o uso de herbicidas e maquinários adaptados a sistemas de cultivo mínimo (SCM).

Propõe-se que neste sistema de cultivo os restos vegetais sejam mantidos sobre o solo (serapilheira e sobras da colheita), que sofre um preparo parcial: apenas nas linhas de plantio ou nas covas.

Vantagens do eucalipto

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Diferentemente de outros cultivos, como a soja, onde chega-se a passar na mesma área até 12 vezes com os maquinários durante o ciclo (isto tem sido reduzido com o uso de drones ou vant´s), a eucaliptocultura apresenta vantagens decorrentes do menor tráfego de máquinas na área (mais frequente nos dois primeiros anos).

Assim, quando comparados às práticas de manejo das culturas anuais, os plantios de espécies florestais são, via de regra, mais conservacionistas. Tanto que em levantamentos de aptidão agrícola e capacidade de uso das terras, áreas com maior susceptibilidade à degradação são destinadas a cultivos perenes, como florestas e pastagens (Ramalho Filho e Beek, 1995; Lepsch, 1991).

Além das vantagens ambientais, com evidente redução de impactos ambientais negativos, diversas pesquisas têm demonstrado que o SCM traz benefícios não apenas à qualidade do solo e da água, mas também é vantajoso em relação aos custos de produção, devido à redução das atividades de preparo (aração, gradagem, escarificação, por exemplo), diminuindo as despesas, e consequentemente aumentando a lucratividade do empreendimento silvícola.

Outro ponto a ser considerado é o melhor aproveitamento de nutrientes em SCM, devido à maior ciclagem biogeoquímica nas áreas, decorrente da permanência dos resíduos (similar ao ciclo biogeoquímico de florestas nativas). Ainda, assim como ocorre com as áreas de plantio direto de culturas anuais, SCM promove maior conservação de água e nutrientes no solo, pois mitiga processos erosivos devido à maior proteção da superfície do solo com resíduos vegetais.

Evolução do sistema

Atualmente, estima-se que mais de 80% das áreas de eucalipto sejam conduzidas no SCM. Por algum momento, após o abandono do “grande gastador de energia” chamado camalhão (dito anteriormente), pensava-se que seria preciso fazer sulcos profundos (como para implantação de canaviais) para crescimento inicial das mudas de eucalipto.

Também eram cultivadas espécies como E. grandis ou híbridos desta espécie, que possui “artimanhas” para emprego de tecnologias de rustificação das mudas.

Com o advento do plantio direto na palha, foi necessário o desenvolvimento de muitas pesquisas em áreas da eucaliptocultura para se alcançar o sucesso, que sempre será aprimorado com novas tecnologias e pesquisas. A principal restrição diz respeito à resistência ao crescimento radicular, devido à maior densidade de solo em áreas de SCM.

Importante destacar que isso varia conforme a classe textural do solo, profundidade do perfil, entre outras características. Assim, o desenvolvimento de alternativas de manejo para reduzir estas restrições vem ocorrendo desde o advento desta forma de manejo do solo. Dentre estas, podem ser mencionadas:

a) Desenvolvimento de maquinário que possibilitasse fazer o que os engenheiros civis chamam de “ripagem”, que é a formação de um risco com profundidade de pelo menos 45-50 cm.

b) Desenvolvimento deste chamado “subsolador” (difere do subsolador utilizado na agricultura, onde a camada de solo compactada é rompida pelo êmbolo, que “rasga” o solo em profundidade) que proporcionasse a entrada da água e facilitasse o desenvolvimento das raízes no sentido das linhas.

Muitas foram as dificuldades para se chegar neste equipamento que tornasse possível bons rendimentos em condições onde permanecem as raízes superficiais do cultivo anterior. Até o desenvolvimento de equipamentos que promovessem a espessura e o ângulo adequado de corte, foram necessárias muitas pesquisas e um grande volume de ideias. O resultado foi o desenvolvimento de um o disco que vai na frente da lâmina em forma de meia lua. Posteriormente veio a adaptação do condutor do adubo fosfatado de maneira a deixá-lo abaixo de 40 cm de profundidade;

c) Desenvolvimento de formulações de nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) – fórmulas NPK, com especial preocupação quanto à aplicação de P em profundidade. Até hoje ainda se discute o uso de fosfato parcialmente acidulado ou de fontes de P prontamente disponível (aciduladas).

Neste sentido, ressalta-se a relevante contribuição dos pesquisadores da área de pedologia, principalmente sobre a qualidade da fração argila e sua influência no manejo das características químicas e físicas dos solos.

Solos com teores muito baixos de argila, como os arenosos, onde esta fração participa com menos de 20% da composição granulométrica, são muito mais difíceis de serem manejados em suas características químicas, com elevadas perdas de nutrientes por lixiviação, aliadas à baixa densidade de cargas elétricas para fornecimento dos nutrientes às plantas.

d) Adaptar num mesmo “subsolador” a distribuição de adubos na superfície e em profundidade. Os equipamentos vindos da agricultura possuíam apenas um depósito de fertilizante, que caminhavam em superfícies “lisas” e “berço esplêndido”. O equipamento silvicultural começava com uma fórmula no início da fila e após 100 m de distribuição já tinha mudado completamente a formulação inicial.

f) E o trator para “puxar” este equipamento? Outro enorme desafio. Os tratores de esteiras, pesados, caros e gastadores de combustível possuíram baixo rendimento. Foi aí que se chegou aos tratores de pneus, ágeis, fortes, de maiores velocidades, como o trator florestal traçado, de até 110 CV. E mais importante, poderia “rasgar” os tocos sem qualquer problema quando havia mudança de espaçamento em relação aos povoamentos iniciais.

É preciso fazer um adendo aqui. Atualmente, a empresa Eldorado Brasil Papel e Celulose está inaugurando uma usina de energia elétrica totalmente movida a queima de tocos de eucalipto. Isto é um pioneirismo na silvicultura brasileira.

Normalmente os tocos (cortados com no máximo até 10 cm de altura do solo) são deixados na área para apodrecimento (o que acontece antes de dois anos após o corte). A nossa condição tropical ajuda muito nesta rápida decomposição dos tocos.

Nas condições de Cerrado, às vezes notam-se brotações mais intensas para as colheitas realizadas no verão chuvoso. Quando não se deseja fazer a condução para novo povoamento, elas podem ser rapidamente erradicadas com aplicação de herbicidas. É comum haver mudanças de espaçamentos em cultivos subsequentes.

g) Ainda foi necessário desenvolver tecnologias de “rustificação” das mudas, uso de clones de maiores taxas de desenvolvimento inicial, fertilizantes mais eficientes. Atenção especial para os micronutrientes, etc.

h) Especial desenvolvimento para as tecnologias de erradicação ou controle de plantas invasoras (chamadas erroneamente de “daninhas”). Com o cultivo mínimo foi necessário garantir um ambiente de reduzida competição com as mudas eucalipto, principalmente na utilização do P e K, tão escassos nos solos velhos e muito intemperizados do Brasil.

Some-se a esta condição a excelente adaptabilidade da gramínea trazida da África, presente de Norte a Sul do nosso País. Estamos falando da brachiária, também chamada de urocloa. As sementes destas plantas passam até sete anos sob a sombra do eucalipto sem germinar. Logo após a colheita, a incidência direta de raios solares sobre o solo estimula a germinação da gramínea, que povoa rapidamente o solo de maneira a competir com as futuras mudas.

Desafios a serem vencidos

Muito se evoluiu na tecnologia de uso de herbicidas na silvicultura. Ainda não se tem o transgênico de resistência ao herbicida, desfolhador de gramíneas, principalmente. Quando isso acontecer, será um grande passo para a implantação de novas áreas de cultivo silvícola.

Compare-se, por exemplo, com áreas de produção de eucalipto estadunidense, onde chega-se a usar mais de 8,0 L/ha de herbicida (cerca de 6,0 L/acre) para controle de plantas invasoras. Em áreas do Brasil (de solos mais pobres em fertilidade, é lógico), o volume médio geralmente não supera 3,6 L/ha.

O rendimento operacional do plantio com uso do cultivo mínimo, em geral, é superior a 5,0 ha/dia. Se fossem feitas covas com enxadões, não se chegaria a 2,0 ha/dia. Além do mais, existe um “arranque” inicial satisfatório e superior das mudas quando do uso de SCM.

Qual o custo?

Atualmente, a formação de 1,0 ha de eucalipto em SCM custa em torno de US$ 800 (R$ 4.200,00). Nos demais sistemas de plantio, adubando-se manualmente e incorporando com enxada, o custo de implantação de 1,0 ha situa-se em torno de R$ 6.200,00.

O maior benefício está no fornecimento de fertilizantes no lugar e momento adequados. A colocação do adubo fosfato em torno de 40 – 45 cm de profundidade foi um sonho na silvicultura do eucalipto.

A fertilização fosfatada nesta profundidade promove satisfatório desenvolvimento inicial das mudas, que é acompanhado por boas taxas de um crescimento radicular em profundidade e arranque.

Como demonstrado anteriormente, a relação benefício/custo para o plantio florestal em SCM é muito favorável e superior aos sistemas tradicionais, portanto, sendo altamente recomendados.

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