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Tomate – Receita para controle de nematoides

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Autores

Danielle Perez Palermo
Engenheira agrônoma e mestre em Fitotecnia – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
daniellepalermo@ufrrj.br
Carlos Antônio dos Santos
Engenheiro agrônomo e doutorando em Fitotecnia – UFRRJ
carlosantoniods@ufrrj.br
Margarida Goréte Ferreira do Carmo
Engenheira agrônoma, doutora em Fitopatologia e professora – UFRRJ
gorete@ufrrj.br

O tomateiro é a segunda principal hortaliça cultivada no Brasil e no mundo. Movimenta grandes cifras em toda a sua cadeia de produção e gera milhares de emprego no meio rural e urbano.

Sua produção envolve altos investimentos, seja em mão de obra, fertilizantes, produtos fitossanitários e outros materiais. Na maioria das vezes, o cultivo de tomateiro demanda manejo intensivo da fertilidade do solo, no controle de invasoras e de pragas e doenças.

Os nematoides

Dentre os principais agentes biológicos causadores de danos ao tomateiro estão os nematoides, que são de difícil controle. Existem várias espécies de nematoides que são parasitas de plantas. Em sua maioria, habitam o solo e são polífagos, ou seja, parasitam várias espécies de plantas. 

Os nematoides do gênero Meloidogyne são reconhecidos pelo grande dano que causam a várias espécies cultivadas, como o feijoeiro, algodoeiro, alface, café, cenoura, cebola, pepino e outras espécies, como as solanáceas (tomateiro, pimentão, berinjela, batata, jiló, etc.).

Danos

Os nematoides atacam as raízes das plantas, onde causam galhas, escurecimento, redução das raízes ativas e injeção de algumas toxinas. Os danos causados às plantas são percebidos na sua parte aérea que passam a apresentar sintomas semelhantes à deficiência hídrica e nutricional, redução de crescimento e da produção.

Como causam ferimentos às raízes, abrem portas para a entrada de outros patógenos presentes no solo. Muitas cultivares de tomateiro são suscetíveis a uma ou mais espécies de Meloidogyne, como Meloidogyne incognita, M. javanica e Meloidogyne arenaria, por exemplo.

Cultivos intensivos, plantios sequenciados de espécies suscetíveis, manejo inadequado da irrigação e da fertilidade do solo, utilização compartilhada de implementos agrícolas e plantio de mudas sem qualidade fitossanitária facilitam a disseminação e a sobrevivência de nematoides nas áreas cultivadas que, muitas vezes, ficam praticamente inviáveis para o cultivo de tomateiro. 

O impacto econômico causado por nematoides costuma ser variável, dependendo da densidade populacional no solo, suscetibilidade da cultivar e das condições ambientais. Podem levar a perdas parciais, como a diminuição da produção e produto final com menor qualidade, ou a perda total das lavouras.

Controle

A saída para a redução dos danos causados é a utilização de práticas integradas de manejo, que incluem a rotação de culturas com espécies não hospedeiras, como o capim-elefante, mamona e braquiárias, ou de espécies que afetam negativamente a população dos nematoides, como a crotalária; o pousio das áreas ou alqueive; a adição de matéria orgânica ao solo; o manejo adequado da fertilidade do solo e utilização de cultivares resistentes.

O controle químico é raramente indicado para controle de nematoides, já que nem sempre é eficaz, possui custos muito altos e é extremamente agressivo ao ambiente e ao ser humano.

O silício

Diante das dificuldades no manejo dos nematoides, diversas alternativas têm sido estudadas para a redução das perdas causadas por estes agentes. A premissa de que solos bem manejados e de que plantas bem nutridas são peças-chaves para redução das perdas pelas doenças vem sendo mais explorada.

Com isso, a aplicação de matéria orgânica ao solo, a correção de sua acidez e o manejo adequado da fertilidade visando uma boa nutrição das plantas pode contribuir muito para o controle de patógenos, principalmente para culturas como o tomateiro.

O silício (Si), que é um dos é um dos elementos mais abundantes na natureza, está presente no solo, porém, nem sempre em forma biodisponível, o que pode ser contornado com a aplicação de fertilizantes silicatados para a elevação dos seus teores. Este elemento não é considerado um nutriente essencial para as plantas, porém, atua como elemento benéfico e proporciona melhorias nas condições do solo e de crescimento das plantas. 

A ação benéfica do silício tem sido associada a efeitos na modificação anatômica, como maior espessamento de tecidos, maior resistência mecânica ao ataque de pragas e doenças e maior vigor das plantas. Alguns estudos sugerem efeitos indiretos, como aumento da capacidade fotossintética, redução da perda de água por transpiração, diminuição de efeitos tóxicos por altas concentrações de alguns micronutrientes (manganês e ferro) e elevação da capacidade de absorção de macronutrientes.

Existem, também, relatos de aumento de resistência sistêmica, de atividades enzimáticas e produção de substâncias repelentes, antifúngicas e antibacterianas, como resposta ao ataque de patógenos. Estudos de Silva (2009) mostraram que a aplicação de Si aumentou a resistência do cafeeiro à Meloidogyne exigua por afetar o parasitismo do nematoide e potencializar alguns mecanismos bioquímicos de respostas de defesa da planta.

Manejo

O silício tem papel importante durante a fase reprodutiva do tomateiro. Contudo, é importante que o mesmo esteja presente no solo desde a implantação da cultura, para que seja absorvido antes mesmo que a planta venha a ser infectada por nematoides.

O silicato de cálcio tem sido a formulação base utilizada para pesquisas, sendo aplicado ao solo na forma de fertilizante. Como o nematoide está localizado no solo e o Si tem ação local, nas raízes (o tomateiro não é uma planta acumuladora de Si), a sua adição ao solo seria a forma mais indicada para o controle desses agentes. 

Contudo, outras fórmulas via foliar têm sido comercializadas e podem ser utilizadas como fonte de reposição de Si nas plantas. Nestes casos, porém, não se sabe sobre seu efeito nas infecções da planta por nematoides radiculares.

Matéria orgânica

Aliado ao silício, o incremento da matéria orgânica (M.O.) no solo tem também sido preconizado para o manejo de nematoides e de várias outras doenças causadas por patógenos do solo.

A adição de matéria orgânica ao solo é uma técnica de conhecimento milenar que, além de fornecer nutrientes para as plantas, melhora a estrutura do solo, aumenta a sua atividade biológica e pode atuar no controle de patógenos habitantes do solo.

Atuação

Diversas fontes de M.O. podem ser incorporadas ao solo, porém, os resíduos vegetais de processamento de extração de óleos, como as tortas, têm sido amplamente utilizados, por conterem altos teores de N.P.K. e liberarem no solo, conforme a decomposição do material, compostos voláteis com propriedades nematicidas.

Nesse contexto, vem se destacando a torta de mamona, que é um subproduto do processamento da semente da mamona para extração de óleo. Tem sido utilizada em campo com certa frequência como suplementação nutricional, já que contém altos teores de nutrientes.

A torta de mamona vem sendo estudada para o controle de nematoides em diversas culturas. Seus efeitos devem-se ao composto tóxico chamado ricina. Assim, a adição de torta de mamona pode ser mais uma alternativa para reduzir as perdas no tomateiro causadas por nematoides de galhas.

Pesquisas

Ferreira (2012), avaliando o efeito da aplicação de fertilizante organomineral à base de torta de mamona, observou redução da população de Meloidogyne incognita e aumento do desenvolvimento vegetativo do tomateiro quando o produto foi incorporado ao solo 14 dias antes do transplantio do tomateiro. 

Em outra linha de pesquisa, Pedroso (2016) comprovou efeito supressivo a M. incognita com a aplicação de torta de mamona devido à liberação de compostos orgânicos voláteis liberados e à sua atividade tóxica ao patógeno.

Assim, a torta de mamona como fertilizante pode ser aplicada tanto em plantio como em cobertura. No entanto, para efeito nematicida é necessário que sua aplicação e incorporação sejam feitas antes do transplantio.

O uso de torta de mamona na cultura do tomate é interessante porque, além de diminuir o ataque de nematoides, fornece nitrogênio, liberado gradualmente com a decomposição da torta, e outros nutrientes, como fósforo e potássio.

Em função desses benefícios, a torta de mamona já vem sendo largamente utilizada na produção orgânica. No entanto, alguns aspectos ainda precisam ser mais investigados e definidos, uma vez que a aplicação em doses excessivas pode resultar em danos às plantas devido a efeitos fitotóxicos. 

Recomenda-se, portanto, que a dose seja parcelada, com aplicações previamente ao transplantio e em aplicações de cobertura.

Custo

A utilização de silício e de adubos orgânicos como a torta de mamona são estratégias que podem ser consideradas como parte do manejo integrado de nematoides na cultura do tomateiro.

Podem promover benefícios nutricionais que potencializam o crescimento das plantas de tomate e colaboram para a obtenção de bons índices produtivos. A utilização desses insumos deve estar associada ao uso de práticas preventivas e integradas visando alcançar resultados mais satisfatórios e duradouros.

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