Tomateiro: controle da murcha de fusário

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Créditos Hélcio Costa

Carlos Antônio dos Santos

Engenheiro agrônomo, doutor em Fitotecnia e pesquisador – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

carlosantoniods@ufrrj.br

Margarida Goréte Ferreira do Carmo

Engenheira agrônoma, doutora em Fitopatologia e professora – UFRRJ

Juliane Ferreira Pinto

Graduanda em Agronomia – UFRRJ

O tomateiro é suscetível a diversos agentes fitopatogênicos que podem prejudicar substancialmente o desenvolvimento das plantas e, consequentemente, afetar a sua produção.

As doenças causadas por patógenos habitantes do solo requerem atenção especial na tomaticultura por resultarem em perdas na produção e na inviabilização de áreas para o seu cultivo. Estes patógenos comumente apresentam estruturas de resistência, além de atividade saprofítica que lhes permitem sobreviver por vários anos no solo, mesmo sem a presença do tomateiro, o que dificulta ou impossibilita o plantio da cultura em determinadas áreas. Este problema se agrava quanto o cultivo é feito em ambiente protegido.

A murcha de fusário

A murcha de fusário é uma importante doença do tomateiro causada por Fusarium oxysporum f. sp. lycopersici (Fol), fungo habitante do solo e com especialização à cultura do tomateiro. Este fitopatógeno apresenta atividade saprofítica, o que garante a sua sobrevivência pela colonização da matéria orgânica presente no solo e produz esporos de resistência, conhecidos como clamidósporos, que lhes permitem sobreviver no solo por períodos superiores a 10 anos. 

O patógeno, quando presente no solo, é estimulado pelos exsudados liberados pelas raízes do tomateiro, se desenvolve até a adesão às raízes, através das quais penetra nos tecidos da planta até atingir e colonizar os vasos do xilema. 

A presença de ferimentos diversos, como os decorrentes de danos mecânicos em capinas e ataques de nematoides, dentre outros, facilita o processo de penetração do patógeno. O cultivo em solos ácidos e adubações desequilibradas, incluindo a adubação com fontes amoniacais de nitrogênio, contribui para uma maior severidade da doença.

Sintomas

À medida que o patógeno vai colonizando os feixes vasculares da planta, vai bloqueando o livre transporte de água e nutrientes, levando ao desenvolvimento de sintomas típicos, como murchas, deficiência nutricional, amarelecimento de folhas, subdesenvolvimento da planta, queda de flores e frutinhos, e até mesmo a morte das plantas.

A identificação da doença pode ser feita pela observação dos sintomas citados, mais a observação de escurecimento nos vasos. Para tanto, deve-se fazer um corte transversal do caule e observar os vasos visando identificar a presença de necroses, que podem ser em áreas mais ou menos extensas, dependendo da severidade da doença.

A confirmação deste diagnóstico pode ser feita por meio de isolamento do patógeno em meios de cultura e observação em microscópio óptico. A doença pode se manifestar em qualquer estágio de desenvolvimento da planta, sendo mais comum em plantas na fase adulta, no estágio de florescimento e frutificação.

Raças fisiológicas

O patógeno F. oxysporum f. sp. lycopersici apresenta especialização a nível de variedade ou cultivar do tomateiro, classificadas como raças fisiológicas. Até então já foram identificadas três raças de F. oxysporum f. sp. lycopersici: raças 1 e 2, que são amplamente disseminadas no Brasil e no mundo; e raça 3, identificada mais recentemente, mas que também já se encontra disseminada em áreas de cultivo de tomateiro no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Ceará e São Paulo.

A maioria das cultivares de tomateiro comercializadas pelas empresas de sementes são resistentes às raças 1 e 2 de Fol, e outras são resistentes às três raças do patógeno.

Regiões mais afetadas

Dentre as causas que contribuem para o aumento de perdas de produtividade pela murcha de fusário estão o cultivo sequenciado de tomateiro em áreas com histórico de ocorrência da doença, a dispersão recente da raça 3 em novas áreas e a menor oferta, até então, de cultivares resistentes a esta raça.

Além destes aspectos, existem ainda outros que contribuem para o aumento das perdas pela doença, como manejo inadequado da fertilidade do solo, a exemplo da não correção da acidez, adubação desequilibrada ou inadequada e práticas de manejo de solo que favorecem a dispersão dos esporos do patógeno dentro da própria área e entre as áreas de cultivo.

O uso de sementes e mudas infectadas e o tráfego de máquinas estão entre as práticas que mais contribuem para disseminação do patógeno entre as diferentes regiões. 

Formas de controle

A principal estratégia para manejo de doenças causadas por patógenos de solo é a prevenção. Com isso, o produtor deverá usar sementes e mudas de boa qualidade, água de irrigação de boa qualidade, evitar movimentação excessiva do solo e realizar limpeza de máquinas e implementos utilizados nas lavouras. 

Nas áreas onde a doença já é recorrente, as opções disponíveis envolvem a rotação de culturas (preferencialmente com gramíneas), correção da acidez do solo, adubação equilibrada, limpeza de máquinas e implementos, destruição dos restos culturais e, principalmente, uso de cultivares resistentes à(s) raça(s) presentes na região.

Atualmente, também têm sido disponibilizados porta-enxertos resistentes à doença. Mas, é importante verificar se este possui resistência às três raças de Fol, ou à(s) raça(s) predominante(s) na região produtora, e o custo adicional.

O controle químico não está entre medidas prescritas para murcha de fusário, pela baixa eficiência e complexidade do ambiente solo. O controle biológico tem sido promissor em alguns estudos, principalmente com a utilização de algumas estirpes de Trichoderma spp. e Bacillus spp.

Fique atento

O uso de cultivares resistentes consiste na medida mais econômica, limpa e segura para o controle da murcha de fusário do tomateiro. No entanto, para que funcione é necessário que a cultivar escolhida possua genes de resistência à(s) raças(s) presentes na área de cultivo e que se conheça previamente estas raças predominantes na região. 

Como dificuldades, temos: muitas vezes há o desconhecimento sobre a(s) raça(s) predominante(s) na região; a oferta de cultivares resistentes às raças 1, 2 e 3 ainda é reduzida, comparado às demandas do mercado; as informações nos portfólios das empresas nem sempre são claras o suficiente para garantir uma escolha segura pelo produtor.

Este cenário tem resultado em preocupação por parte dos produtores das áreas onde a doença é frequente e irá requerer ações alinhadas das empresas públicas e privadas para o aumento da disponibilidade de cultivares resistentes às três raças.

O uso de mudas enxertadas em porta-enxertos resistentes às três raças pode ampliar as possibilidades do produtor na escolha da planta copa. No entanto, isto representa um aumento significativo nos custos de produção e comercialização das mudas.

Pesquisas

Estudos realizados por instituições brasileiras de pesquisa indicam aumento das áreas contaminadas com a raça 3 de Fol, provavelmente, pelo cultivo frequente de cultivares resistentes às raças 1 e 2.

O uso de cultivares resistentes, associado a boas práticas de prevenção e manejo adequado do solo, são importantes para assegurar a redução das perdas causadas pela murcha de fusário em lavouras de tomate.