Tratamento de sementes: A arma contra nematoides

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Autor

Diouneia Lisiane Berlitz
Bióloga, doutora e pós-doutora em Controle Biológico de Pragas e Doenças
dberlitz@hotmail.com
Crédito Centro Sul Cereais

Os fitonematoides se destacam pela sua importância econômica, principalmente em grandes culturas, como soja, milho, feijão e algodão. Porém, a ocorrência desse grupo de pragas é generalizada, encontrando-se em frutíferas, hortaliças, cítricas.

As espécies-praga são distribuídas em vários gêneros, sendo que podem ser considerados como os mais ocorrentes: Meloidogyne e Pratylenchus (Davis e Curty, 2011; Moens e Perry, 2009). Apesar disso, observa-se em resultados de laudos e análises nematológicas a campo, a ocorrência de um ou mais gêneros associados à mesma área, além dos já citados, como: Heterodera, Helicotylenchus, Trichodorus e Rotylenchulus.

Alguns fatores responsáveis pela penetração destes nematoides nas plantas foram estudados, em que as secreções do estilete dos nematoides, produzidas pelas glândulas esofágicas, são fatores cruciais para a penetração, migração e formação dos sítios de alimentação.

Esses nematoides fitoparasitas causam perdas que variam de imperceptíveis até a morte de um grande número de plantas, chegando a inviabilizar áreas para o plantio quando o índice populacional é elevado.

Apesar da dificuldade em mensurar as perdas devido a um único fator (nematoides), estima-se que as mesmas ascenderam a US$ 125 bilhões, no mundo (Koenning et al, 1999; Oka et al, 2000). Essas perdas chegam a 90% do rendimento de algodão, feijão e soja.

Opções em controle

Os nematoides têm uma grande gama de hospedeiros, sendo de difícil controle, já que sobrevivem durante longos períodos no solo ou em restos culturais, os quais podem ser facilmente disseminados por implementos agrícolas, água (irrigação, enxurradas), animais (aderidos às patas e fezes) e material vegetal (mudas e sementes).

Atualmente, o principal método de controle dessas pragas, que são os nematicidas químicos de amplo espectro e impacto, acumulando substâncias tóxicas no solo e na água, vem sendo substituído ou aliado ao controle biológico por meio de diferentes espécies de microrganismos muito eficazes no controle destas pragas.

Dentre esses microrganismos, destacam-se as bactérias: Bacillus subtilis e B. licheniformes, com 11 produtos nematicidas registrados junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA; os fungos Trichoderma koningiopsis, Pochonia chlamydosporia com um produto registrado no MAPA para cada espécie e Purpuriocilium lilacinum (Paecilomyces lilacinus), com seis produtos registrados.

Portanto, atualmente o MAPA dispõe de um total de 19 produtos formulados a partir de microrganismos para o controle de diferentes espécies de fitonematoides. No caso de nematicidas químicos, são oito ingredientes ativos registrados no MAPA que se desdobram na totalidade de 52 produtos. Ressalva-se que dentre esses produtos, encontra-se um formulado à base de extrato vegetal de Allium sativum com ação nematicida.

Manejo

Em relação à aplicação, encontram-se somente dois produtos direcionados ao tratamento de sementes. A maior parte da aplicação é indicada via terrestre, especialmente devido à baixa compatibilidade destes organismos com os produtos químicos.

Na prática, majoritariamente a semente adquirida pelo produtor já vem com o tratamento industrial. Para isso, a aplicação de produtos biológicos diretamente nessa semente tratada pode inferir na viabilidade das bactérias ou fungos nematicidas e, consequentemente, refletem no resultado final.

Ou seja, os produtos químicos vão interferir na sobrevivência destes microrganismos e a sua eficiência de controle pode ser prejudicada. Com isso, pode-se considerar a melhor forma de aplicação de insumos biológicos, sejam estes com finalidade nematicida ou outras, via sulco de plantio, uma vez que os microrganismos terão um mínimo contato com os insumos químicos, e iniciarão a sua reprodução no ambiente (solo) que, nesses casos, é seu habitat natural.

Cabe salientar que cada microrganismo possui uma ação diferente, por exemplo, as bactérias citadas acima se caracterizam especialmente pela produção de antibióticos e formação de um biofilme na região radicular da planta, que inibem a penetração dos nematoides.

Já o fungo T. koningiopsis forma pequenas armadilhas com as suas hifas (estruturas de crescimento do fungo) que prendem os nematoides; e os fungos P. lilacinum e P. chlamydosporia são específicos no parasitismo dos ovos de nematoides. Percebe-se, então, que a utilização conjunta desses microrganismos aumenta o índice de controle em campo.

Eficácia

Em estudos realizados a campo, verifica-se um controle que pode variar de 20 a 90% quando comparados com testemunha (área não tratada). Essa variação está relacionada a diferentes fatores: espécie (s) de nematoide presente na área, dosagem do produto microbiano e preparo de calda, via de aplicação, população de nematoides na área, utilização de um mix de microrganismos ou de apenas uma espécie, índice pluviométrico, rotação de culturas e formação de palhada, índice de matéria orgânica no solo.

Trabalhos recentes realizados em casa de vegetação mostram que não há diferença significativa no controle de nematoides entre o uso de microrganismos e produto à base de abamectina (Oliveira et al., 2019; Santos et al., 2019).

Os autores Dias-Arieira e colaboradores (2018) avaliaram os fungos Trichoderma harzianum e P. lilacinum, em campo naturalmente infestado por Pratylenchus brachyurus, obtendo um incremento na produtividade final que variou entre 11 e 20%.

Portanto, o produtor pode optar pela utilização de microrganismos em sua lavoura, agregado ou não a produtos químicos, objetivando o controle dos nematoides e aumento de produção. Salienta-se que sempre deve haver precaução na utilização via semente, especialmente devido à baixa compatibilidade entre estes insumos.