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quarta-feira, julho 6, 2022
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Tratamento de sementes – Alternativa contra nematoides na safrinha

Autor

Camila Queiroz da Silva Sanfim de Sant’Anna
Doutoranda em Produção Vegetal pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro
agro.camilaqs@gmail.com

São várias as espécies de nematoides já observadas nas raízes do milho causando sérios prejuízos, sendo as mais nocivas ao milho Pratylenchus brachyurus e P. zeae. Segundo a Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN), os prejuízos anuais provocados pelos fitonematoides chegam a R$ 35 bilhões, alcançando também outras culturas, sobretudo a soja em plantio sucessivo com milho safrinha.

Estudo realizado pela Syngenta mapeando 595 municípios em todo o Brasil com as culturas do milho, soja e algodão evidenciou que as principais infestações são por Pratylenchus (74%), Helicotylenchus (53%), Meloidogyne (26%), Heterodera (24%) e Rotylenchulus (11%), indicando que a produtividade pode ter quedas entre 30 a 80%, em casos mais críticos.

Sintomas

As plantas atacadas pelos nematoides apresentam, em geral, sintomas em reboleiras e prejuízos em seu desenvolvimento. O sistema radicular da planta parasitada torna-se menos eficiente na absorção de água e nutrientes, implicando em porte reduzido, deficiência mineral, murcha, espigas malformadas e de menor tamanho.

A identificação visual da presença de nematoides observando os sintomas apresentados pelas plantas pode ser confundido com demais disfunções, como um estresse abiótico ou deficiência nutricional, por exemplo. Assim, para sua confirmação a realização de análises em laboratório de amostras de solos e raízes é o ideal.

Por onde começar

Cuidados quanto à profundidade e melhor época de coleta devem ser tomados, realizando-se a amostragem do solo em torno de 45 – 50 dias após o plantio, quando a cultura já está estabelecida e os nematoides já completaram seu primeiro ciclo de vida nas raízes das plantas.

O procedimento consiste em coletar o solo com umidade natural, evitando-se encharcamento ou excessivo ressecamento, na profundidade de 0 – 20 cm/25 cm juntamente com as raízes, preferencialmente as radicelas (raízes mais finas) vivas.

Similar à amostragem para análise química do solo, deve ser realizada em zigue-zague, obtendo-se entre 15 a 20 subamostras a cada 30 hectares, junto às plantas que apresentem sintomas moderados, formando amostras compostas conforme a uniformidade da área e quanto ao tipo de solo e histórico agrícola.

Recomenda-se que cada amostra composta contenha pelo menos 500 g de solo e aproximadamente 20 g de radicelas. Após formadas, deverão ser acondicionadas em sacos de polietileno bem fechados e identificados.

Importante salientar que o aquecimento das amostras por exposição direta ao sol ou ambiente com resfriamento excessivo são prejudiciais à sobrevivência dos nematoides e precisa de identificação, sendo indicadas temperaturas entre 10° a 15°C.

Após a análise em laboratório será possível à confirmação da presença de nematoide, o tipo e densidade populacional, tanto no solo quanto nas raízes.

Incidência

As regiões do Cerrado, sobretudo o norte do Mato Grosso, têm apresentado maior incidência de nematoides, acredita-se que devido ao cultivo de monoculturas e uso contínuo de cultivares suscetíveis. Como reflexo desse cenário, 98% dos solos do Mato Grosso apresentam evidências de nematoides em praticamente todas as culturas do estado.

Há relatos, inclusive, de agricultores da região e do Tocantins que abandonaram suas terras por se tornar inviável a produção com a infestação por nematoides.

Controle

Várias alternativas têm sido buscadas para o controle e minimização do ataque, destacando-se: uso de cultivares resistentes ou tolerantes, rotação de culturas com espécies não hospedeiras e o controle químico com nematicidas no tratamento de sementes.

Essa última consiste em uma medida de alta tecnologia e baixo custo para o produtor comparado, por exemplo, com os investimentos em replantios com as perdas provocadas pelos danos.

Tratamento de sementes

O tratamento de sementes consiste na adição de produtos químicos, visando a proteção das sementes. É comprovadamente eficiente no controle de uma gama de espécies, principalmente P. brachyurus e P. zea.

Resultados obtidos com a cultura do milho sugerem aumento na produção de até 39%, além da obtenção de melhor qualidade e aumento da rentabilidade com o uso do tratamento das sementes.

O controle químico é amplamente difundido com o uso de nematicidas sintéticos, sendo os principais produtos no tratamento de sementes o abamectin e imidacloprid + thiodicarb.

Apesar da pouca opção de nematicidas químicos disponíveis no mercado brasileiro, uma vez que muitos desses produtos foram proibidos em função de sua elevada toxicidade (dentre outros apontamentos negativos, como dificuldade de acessibilidade pelo pequeno produtor devido a um custo mais elevado e potencialmente prejudicial à saúde e ao meio ambiente) a eficiência de ação é preponderante para optar por sua aplicação.

Testes a campo no norte do Mato Grosso com inseticida no tratamento de sementes de milho apresentaram excelentes resultados. Após 60 dias de plantio houve redução significativa em 60% dos nematoides do tipo Pratylenchus sp, de 62% da espécie Meloidogyne sp e 81% do Heterodera sp nas raízes das plantas.

Alternativa

Uma alternativa em função das desvantagens apresentadas pelos nematicidas químicos, como alta toxidade, é o emprego de nematicidas biológicos. São vários os organismos considerados inimigos naturais de fitonematoides que podem ser utilizados, sendo os fungos e as bactérias os principais agentes biocontroladores.

O modo de ação de fungos como o Trichoderma sp. consiste de parasitismo, antibiose e competição, sendo atuantes na proteção preventiva das plantas, restaurando a comunidade microbiana e recuperando estrutura de solos debilitados, além da liberação de metabólitos secundários que estimulam o crescimento das plantas.

Experiências práticas com o uso desse agente biológico no controle de Meloidogyne sp. evidenciou significativa redução da população.

Há vários produtos registrados e comercializados a base de Trichoderma, destacando-se T. harzianum – cepas ESALQ-1306 e ESALQ-1303, T. asperellum, Trichoderma sp., T. harzianum, e um mix de isolados de Trichoderma spp. e T. harzianum.

Produtos como um formulado a partir da bactéria Bacillus amyloliquefaciens podem ser inoculados na semente ou aplicados via sulco de plantio. Seu modo de ação constitui na colonização do sistema radicular da planta, alimentando-se dos exsudatos radiculares e, por sua vez, na síntese de toxinas e antibióticos que, ao serem liberados no solo, formam uma capa protetora ao redor do sistema radicular da planta.

Assim, os nematoides não conseguem reconhecer os exsudatos radiculares e têm sua penetração via radicular nas plantas inibida. 

Portanto, tanto o controle utilizando nematicidas sintéticos como biológicos apresentam eficiência no manejo e praticidade de aplicação, sendo uma alternativa que possibilita ao produtor minimizar os danos e prejuízos causados pelos nematoides.

“As plantas atacadas pelos nematoides apresentam, em geral, sintomas em reboleiras e prejuízos em seu desenvolvimento”

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