Tratamento de sementes: Eficiência no controle de pragas da soja

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Autores

Herika Paula PessoaEngenheira agrônoma, mestra e doutoranda em Fitotecnia – Universidade Federal de Viçosa (UFV)herika.paula@ufv.br

Ramon Gonçalves de PaulaEngenheiro agrônomo, mestre e doutorando em Genética e Melhoramento – UFV ramondepaula22@gmail.com 

Semente – Créditos: Shutterstock

A ocorrência de insetos-pragas, que podem atacar tanto as sementes como as plântulas em seus estágios iniciais, é um problema de importância crescente em todo o mundo e um dos fatores que mais causa danos aos cultivos agrícolas.

O tratamento de sementes surge com a promessa de proporcionar uma garantia adicional ao produtor, auxiliando no estabelecimento do ‘stand’ inicial de plântulas, principalmente em condições adversas em que as populações de insetos-praga estejam muito elevadas. Na prática, o tratamento protege a semente desde a semeadura e contato inicial com o solo até a fase inicial de formação das plantas.

Prejuízos

O ataque às plantas de soja por insetos-praga pode ocorrer desde antes da emergência das plântulas até a colheita. A lagarta elasmo (Elasmopalpus lignosellus), cupim (Procornitermes triacifer), tamanduá da soja (Sternechus subsignatus) e Julus spp. são pragas iniciais que atacam as lavouras em seu estágio inicial, logo após a emergência das plântulas e podem reduzir o ‘estande’, comprometer o estabelecimento da cultura e, consequentemente, reduzir o rendimento de grãos da lavoura.

Pragas como mosca-branca (Bemisia tabaci), brasileirinho (Diabrotica speciosa) e torrãozinho (Aracanthus mourei) podem prejudicar o crescimento e desenvolvimento da cultura desde o início da emergência das plântulas. Além desses insetos-praga, com o aumento da área cultivada sob sistema de plantio direto tem-se constatado maior incidência de pragas, subterrâneas que atacam as sementes antes mesmo da emergência das plântulas.

Os prejuízos diretos estão relacionados à morte da semente ou plântulas, as quais reduzem o ‘estande’ da lavoura. O menor ‘estande’ de plantas pode, em última instância, reduzir a produtividade final da lavoura.

Os danos indiretos acontecem quanto o ataque das pragas as sementes e plântulas é menos severo, de maneira que essas não são mortas, mas tem seu vigor drasticamente reduzido. Dessa forma, após o ataque das pragas, as plântulas geradas são menos vigoras, consequentemente, mais sensíveis a estresses bióticos e abióticos, os quais podem também comprometer a produção de grãos pela mesma.

Manejo

O tratamento de sementes pode ser realizado na fazenda, ou o produtor pode optar pela compra de sementes já tratadas industrialmente. Para o tratamento com inseticidas o primeiro passo é identificar quais as principais pragas que afetam a cultura na região e época em que o plantio será realizado.

Além disso, é importante atentar-se a outros fatores, como o histórico da área e o sistema de plantio que serão adotados, uma vez que eles podem influenciar a população de pragas à qual as sementes/plântulas serão expostas.

Com essas informações em mãos, o produtor poderá escolher o melhor inseticida a ser utilizado contra o ataque dessas pragas em sua lavoura. Durante o processo de escolha do inseticida deve-se considerar ainda o modo de ação, espectro de controle e se o mesmo pode causar fitotoxidade à semente.

Quando realizado na fazenda, é importante atentar-se aos equipamentos que serão utilizados, a fim de reduzir possíveis injúrias às sementes e garantir uniformidade de cobertura dos produtos.

Alguns produtos podem exigir adjuvantes, como corantes, para melhor visualização da qualidade de recobrimento, e polímeros para melhorar a fixação do tratamento de sementes. Com relação aos colaboradores que serão responsáveis por executar essa tarefa, é sempre importante garantir que os mesmos sejam treinados para tal e estejam sempre protegidos com equipamentos de proteção individual (EPI).

Em campo

Ensaios a campo comprovam que essa técnica permite controlar com eficiência o ataque inicial de pragas de solo e pragas foliares. O tratamento de sementes com inseticidas protege plântulas durante todo o processo de germinação, emergência e estabelecimento do ‘estande’ da cultura da soja.

Inseticidas já disponíveis no mercado com características específicas, como a rápida absorção pela semente no processo de germinação, favoreceram a manutenção do ‘estande’ da soja já nas fases iniciais do desenvolvimento da lavoura, protegendo-a, principalmente, contra o ataque das lagartas-elasmo (Elasmopalpus lignoselus) e coró (Phyllophaga cuyabana).

Na fase de desenvolvimento das plântulas, o inseticida translocado via xilema para a parte aérea da planta resultou no amplo espectro de controle das lagartas Spodoptera frugiperda, Helicoverpa armigera e Anticarsia gemmatalis.

Comparando o desempenho de áreas em que se realizou o tratamento de sementes com inseticidas, pesquisadores observaram performance até 10% superior na comparação ao tratamento do produtor, na média das duas últimas safras.

Erros mais frequentes

Os erros mais comuns no tratamento de sementes de soja estão associados ao método empregado durante o tratamento, o qual pode danificar a semente e reduzir o seu vigor, e ao produto utilizado para o tratamento.

Nesse sentido, tem-se observado que alguns inseticidas não afetam a qualidade das sementes, a exemplo do fenitrotion, malation, pirimiphos-metil e deltametrin em sementes de soja. Entretanto, alguns inseticidas, como o sumicidin, podem reduzir a qualidade fisiológica das sementes de soja.

Além disso, uma vez que o uso de inoculantes é bastante comum entre os produtores de soja brasileiros, a interação entre o inseticida utilizado para o tratamento das sementes e o inoculante deve ser considerada. Dessa forma, a viabilidade do microrganismo responsável pela fixação biológica do nitrogênio não será reduzida.

A recomendação do tratamento de sementes de soja com inseticidas deve estar condicionada aos efeitos dessa técnica sobre o potencial fisiológico das sementes e sua interação com a inoculação de bactérias fixadoras de nitrogênio do gênero Bradyrhizobium nas sementes, além de sua eficiência no controle da praga-alvo.

Custo

O tratamento de sementes de soja com fungicidas já é uma técnica consolidada desde a década de 90 no Brasil. Até a safra 2009/10, cujo tratamento de sementes era feito somente com fungicida, o custo operacional correspondia a menos de 1% no custo da produção total. 

Com a introdução do uso de inseticidas no tratamento das sementes da safra 2010/11, houve um aumento considerado no custo total de produção (3,19%). Nas safras seguintes, houve uma redução do custo com tratamento de sementes, sendo que nos últimos anos o valor gasto pelo produtor para realizar o tratamento de sementes com fungicidas e inseticidas está em torno de 1,5% em relação ao custo total de produção de um hectare de soja, que em geral está em R$ 3 mil. Ou seja, o valor médio investido no tratamento de sementes foi de apenas R$ 45,00 por hectare.

Além de evitar a disseminação de doenças pela semente, o tratamento de sementes de soja pode ser considerado o método mais eficiente no controle dos principais insetos e doenças de solo que afetam a cultura nos primeiros estágios de desenvolvimento. A adoção desta prática proporciona obtenção de um ‘estande’ inicial desejado e garante um bom desenvolvimento inicial da cultura, principalmente em condições climáticas desfavoráveis à germinação e rápida emergência das sementes.

Consequentemente, investir no tratamento de sementes pode evitar gastos com aplicações para controle de pragas e doenças que podem ocorrer nas fases iniciais da cultura da soja.