Trigo: Inseticidas de duplo mecanismo de ação

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Autores

Lucas Alexandre Batista Engenheiro agrônomo – Universidade Federal de Lavras (UFLA)lucaslabatista@gmail.com

Guilherme de Sousa Ferreira Graduando em Agronomia – UFLA – guilheme.ferreiramb@hotmail.com

Produção de Trigo – Crédito Shutterstock

O trigo na América do Sul é cultivado principalmente na região do sul, composta pela Argentina, na região dos Pampas, Sul do Brasil, Centro do Chile e partes do Paraguai e Uruguai. No Brasil há uma tendência de explorar a cultura do trigo no Cerrado, onde vem se investindo em cultivares adaptadas para a região.

Milhares de insetos são descritos na cultura do trigo ao redor do mundo onde são cultivados. A grande maioria dos insetos não causa grandes danos à produção do trigo, embora alguns sejam relatados como responsáveis por perdas expressivas na produtividade.

Alguns desses problemas, como pragas, estão diretamente ligados ao sistema agrícola intensivo de monocultura empregado em uma área específica, enquanto outros são herbívoros oportunistas ou generalistas que não têm como alvo o trigo especificamente como hospedeiro.

Algumas dessas pragas são adaptadas ao trigo e ao conjunto de condições ambientais e fisiográficas nas quais ele é cultivado. Como a agricultura se expandiu para áreas que não são tradicionalmente plantadas com trigo e como essas práticas agrícolas eliminam ou impedem as forças reguladoras naturais que normalmente controlariam suas populações, muitas pragas surgiram em surtos graves, causando destruição quase total nas culturas que infestam.

Pragas mais comuns

As pragas mais comuns na cultura do trigo são os pulgões, as lagartas, os percevejos e os corós, que podem reduzir a qualidade dos grãos e a produtividade. Os pulgões (Rhopalosiphum padi, Metopolophium dirhodum, Sitobion avenae e Schizaphis graminum) podem ser encontrados nas folhas, no colmo e nas espigas.

Eles são responsáveis por infectar a planta com o barley yellow dwarf virus (BYDV) ou virose do nanismo amarelo da cevada (VNAC). Há, no mercado, cultivares tolerantes ao vírus, embora lavouras afetadas possam diminuir a produção em até 20%, podendo chegar a 80%, dependendo do nível de suscetibilidade da cultivar ao vírus.

A incidência do BYDV depende da presença de pulgões nas lavouras, que são influenciados pelas condições climáticas do ambiente. Anos quentes e secos influenciam no aumento da incidência de pulgões. Uma forma de prevenir e proteger as plantas contra o ataque de pulgões é o tratamento de sementes, que proporciona uma segurança inicial para o desenvolvimento das plantas (Informações Técnicas para Trigo e Triticale 2019 – Embrapa).

Alerta

As lagartas de maior influência na cultura são as lagartas do trigo (Pseudaletia adultera) e a lagarta-militar (Spodoptera frugiperda), que se alimentam das folhas e atacam as lavouras a partir do mês de setembro. Para controlar as lagartas recomenda-se a aplicação logo nos primeiros focos de infestação, já que os produtos mais eficientes agem por meio da ingestão (Informações Técnicas para Trigo e Triticale 2019 – EMBRAPA).

Os percevejos-barriga-verde (Dichelops furcatus) podem ser encontrados desde o plantio da cultura do trigo até a fase de espigamento, sendo que a fase de maior suscetibilidade ao ataque é entre o emborrachamento/espigamento.

As plantas atacadas por percevejos apresentam folhas com perfurações e necrose. Assim, os prejuízos causados pelos danos do percevejo barriga-verde podem variar desde a perda total da planta até perdas de 30% da produção nas plantas sobreviventes. O controle pode ser realizado de forma preventiva usando inseticidas no período de desenvolvimento da cultura, não deixando a população dessas pragas se elevarem a níveis críticos ou ao ponto de apresentarem danos e até perdas significativas na cultura (Informações Técnicas para Trigo e Triticale 2019 – EMBRAPA).

Os corós das pastagens (Diloboderus abderus) e o coró do trigo (Phyllophaga Triticophaga) atacam a cultura somente quando ainda estão em estádio de larvas. A incidência dos corós nas lavouras varia de ano para ano e ocorre em manchas nas áreas plantadas. Rotação de cultura e a própria palhada do trigo ajuda no controle dessas pragas (Informações Técnicas para Trigo e Triticale 2019 – EMBRAPA). 

Duplo mecanismo de ação

Um inseticida com duplo mecanismo de ação faz o controle de pragas das plantas cultivadas, agindo nos insetos por contato e ingestão. Contendo dois ingredientes ativos distintos, com funções diversificadas, seja para controle por ingestão ou contato, é recomendado para o manejo da resistência das pragas de difícil controle.

Produtos com mais de um mecanismo atuam rapidamente nos insetos por apresentarem alternativas diferentes para diminuir ou eliminar as pragas das lavouras.

A utilização de dois mecanismos de ação em inseticidas traz alguns benefícios, dentre eles, diminuir a necessidade de fazer mistura de tanques, pois em um único produto já estão presentes dois ingredientes ativos com mecanismos de ação distintos; diminuir a chance do alvo desenvolver resistência; aumentar o espectro de controle, maior taxa de controle e  diminuição do custo de produção.

O controle de insetos pragas na cultura do trigo, assim como em outras culturas, deve seguir alguns critérios para que seja eficiente, seguro e economicamente viável.  O primeiro passo para um bom manejo de insetos é a realização de monitoramentos periódicos com o intuito de identificar a real necessidade de controle.

Estes monitoramentos devem ser realizados semanalmente, por meio da retirada de amostras ao acaso, mas que possuam uma boa representatividade do talhão, lembrando que cada inseto-praga possui uma metodologia específica para sua amostragem.

Feito isto e com dados em mãos, deve-se tomar a decisão de entrar com o controle ou não, sendo que cada um deles apresenta determinado nível de dano econômico. Quando o mesmo estiver acima do limite aceitável, este que foi estabelecido com base em estudos técnicos científicos, deve-se entrar com o controle.

Preventivo ou curativo?

O controle feito quando ocorre nível de dano econômico é chamado de curativo, mas há também o preventivo, que tem por objetivo cuidar para que não tenha infestação na lavoura. Um bom exemplo de medida preventiva é o tratamento de sementes, pois não deixa que ocorra a infestação nos estádios iniciais da lavoura. No caso do trigo, o tratamento de sementes pode ser usado como estratégia de prevenção ao ataque de pulgões, lagartas e corós.

Custo envolvido

O custo com inseticidas varia em função de vários fatores, dentre eles: suscetibilidade da cultivar, condições ambientais da área (há anos que as condições são mais propícias para o aparecimento dos insetos), histórico do talhão (algumas pragas são polífagas, ou seja, atacam mais de uma cultura) e sistema de produção.

Todos estes fatores influenciam direta ou indiretamente na população dos insetos e, como já dito, para um manejo correto e economicamente viável, as aplicações só são feitas quando há um dano igual ou superior ao econômico.

Segundo levantamento feito pela Embrapa, o gasto com inseticidas é em torno de R$ 17,00/ha para uma produtividade esperada igual a 30 sacas por hectare (Estimativa do Custo de Produção de Trigo, Safra 2011, para Mato Grosso do Sul- Embrapa).