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terça-feira, julho 5, 2022
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Uso de bioestimulantes na cultura do milho

Autores

Regina Maria Quintão Lana
Professora de Fertilidade e Nutrição de Plantas – Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
rmqlana@ufu.br
Danyela Cristina Marques Pires
Mara Lúcia Martins Magela
Doutorandas em Agronomia – UFU

O milho é uma cultura muito importante para a economia brasileira. O levantamento da safra 2018/19 apresenta o Brasil como terceiro maior produtor e exportador de milho e quarto maior consumidor do cereal no mundo (FIESP, 2019). No momento, a produção no Brasil está estimada em 92,8 milhões de toneladas. Os incrementos na produção, produtividade e área em relação à safra 2017/18 estão estimados em 15, 12 e 3%, respectivamente (CONAB, 2019).

A produção de milho de segunda safra ou milho safrinha tem maior importância nesse cenário. A produção e a produtividade apresentam incrementos de 23,6 e 18,3%, respectivamente, em relação à última safra, com valores estimados em 66,6 milhões de toneladas e 5,5 toneladas por hectare.

A principal região produtora do milho safrinha é o Centro-Oeste (CONAB, 2019), região que está localizada em maior parte no Bioma Cerrado e apresenta na sua maioria solos altamente intemperizados, de baixa fertilidade natural e alta saturação por alumínio. Outro fator limitante ao milho safrinha são as condições climáticas, sendo muito comum ocorrer escassez de água. Nesse contexto, os resultados positivos na produtividade vêm sendo relacionados principalmente ao uso de novas tecnologias.

Os bioestimulantes

Recentemente houve um aumento na procura por bioestimulantes, pois estes são capazes de mitigar estresses abióticos e bióticos, como oscilações climáticas e incidência de pragas e doenças, ao modular a eficiência dos processos fisiológicos na planta, induzir respostas de defesa, potencializar a produtividade, vigor e qualidade das culturas.

Além disso, existe a preocupação atual por uma agricultura mais sustentável, que possa reduzir os impactos ambientais causados pelo uso excessivo de defensivos agrícolas e fertilizantes na agricultura convencional (Stadnik et al., 2017, 2018).

Os bioestimulantes podem ser derivados de um conjunto muito diverso de materiais orgânicos e inorgânicos, incluindo fermentações microbiológicas de substrato animal e vegetal, microrganismos, macro e microalgas, hidrolisados proteicos, substâncias fúlvicas e húmicas, compostos orgânicos, rejeitos de alimentos e industriais (Brown; SAA, 2015).

Pesquisas

Existem várias pesquisas que mostram os benefícios desses produtos quando utilizados na cultura do milho. As mais comuns são com microrganismos, a exemplo das bactérias promotoras do crescimento vegetal (BPCV), com destaque para o uso de Azospirillum brasilense, que é uma bactéria fixadora de nitrogênio e que contribui para a redução de fertilizantes nitrogenados nas lavouras.

Além desse benefício, as bactérias se estabelecem na rizosfera, produzem fitohormônios, solubilizam o fósforo e combatem patógenos de solo, refletindo assim em um maior crescimento da planta e aumento de produtividade (Nascimento; Rigobelo, 2018).

Nascimento e Rigobelo (2018) avaliaram a eficiência da inoculação de Azospirillum brasilense e Bacillus subtilis no aumento de massa seca e na extração de nutrientes com e sem adubação mineral e verificaram que a inoculação de B. subtilis na ausência de adubação mineral proporcionou maiores níveis de extração e acúmulo de nitrogênio e fósforo na planta de milho, sugerindo que a presença de fertilizantes minerais no solo promove uma diminuição das interações planta e microrganismo e, como consequência, uma diminuição na eficiência de absorção de nutrientes.

As bactérias promotoras de crescimento também são relatadas como estimulantes quanto ao aproveitamento da luminosidade. A pesquisa de Battistus et al. (2018) teve como objetivo avaliar plantas de milho inoculadas com A. brasilense via semente ou pulverização foliar, quanto ao aproveitamento da luminosidade sobre a fotossíntese e trocas gasosas ao longo do dia.

Os autores verificaram que o aproveitamento dos recursos luminosos foi impulsionado pelo microrganismo, principalmente nos momentos de maior radiação, aliado à alta transpiração. Desse modo, A. brasilense inoculado, e principalmente pulverizado, proporciona melhor aproveitamento dos recursos ambientais e assimilação de CO2.

Fixação biológica de nitrogênio

Pesquisas com o uso de fungos micorrízicos arbusculares contribuem para a absorção de nutrientes como o nitrogênio, fósforo, zinco e cobre, favorecem a fixação biológica de nitrogênio e aumentam a tolerância da planta a estresses diversos (Souza et al., 2006).

Stoffel et al. (2018) testaram a aplicação de um inoculante micorrízico comercial à base de Rhizophagus intraradices e três concentrações de adubação fosfatada na semeadura do milho em seis Estados brasileiros. Os autores verificaram que a inoculação aumentou em média 54% o rendimento de grãos, principalmente nas concentrações de 0 e 50% de fósforo e a biomassa da cultura, principalmente na concentração de 50% de fósforo.

Segundo Siqueira e Siqueira (2013), o uso de Bokashi, que é uma mistura balanceada de matérias orgânicas de origem vegetal e/ou animal, submetidas ao processo de fermentação controlada, favorece multiplicação e atuação da microbiota nativa do solo. A matéria orgânica aplicada ao solo ajuda a restabelecer o equilíbrio dos organismos, a quebrar os ciclos de algumas doenças e pragas e a favorecer a boa nutrição das plantas.

Metabolismo

Bioestimulantes à base de substâncias húmicas têm efeito direto sobre o metabolismo de carbono, nitrogênio e metabolismo secundário das plantas. A aplicação de ácidos húmicos na cultura do milho promoveu um incremento de 25 e 64% nos valores de massa fresca de raiz e de parte aérea, respectivamente, e alteraram o metabolismo das plantas, aumentando a produção de diferentes ácidos orgânicos nas folhas (Souza et al., 2018).

Bioestimulantes à base de extrato de algas de Ascophyllum nodosum apresentam uma matriz orgânica complexa composta por macro e micronutrientes, aminoácidos, oligossacarídeos, ácido abscísico, giberelinas, citocininas, auxinas, betaínas e alginatos (Carvalho; Castro, 2014). 

Andrade et al. (2018) verificaram que as doses de 0,50 e 0,75 litros por 100 kg de sementes foram as mais promissoras ao desenvolvimento inicial das plântulas de milho, ao proporcionar incrementos no vigor, altura da parte aérea, peso de massa fresca e seca, da parte aérea e foliar.

Em relação aos fertilizantes organominerais contendo nitrogênio, potássio e carbono orgânico, estes proporcionaram maior produtividade de grãos de plantas de milho safrinha quando aplicados três dias após a cobertura da adubação nitrogenada na dose de 0,62 L ha-1 (Melo et al., 2017).

Substâncias húmicas e fúlvicas combinadas com nitrogênio, fósforo, potássio e zinco proporcionaram maior crescimento das plantas e maior peso de mil grãos, quando aplicadas durante o cultivo da segunda safra, favorecendo o aumento da produtividade (Krenchinski et al., 2014).

A aplicação dos hormônios auxina, giberelina e citocinina, nas sementes, nas folhas ou em conjunto, favorece as características da espiga, a área foliar e massa seca de folhas de plantas de milho (Kuhn et al., 2017). Segundo Pinto et al. (2017), a dose de 25 mL kg-1 do produto aplicada às sementes proporcionou plantas com maior comprimento da espiga (15,3 cm) e maior número de fileiras por espiga (18,4).

O tratamento de sementes com essa dose e a aplicação de 0,5 L ha-1 do hormônio via foliar proporcionaram plantas com maior diâmetro de espiga (5,68 cm) e maior produtividade de grãos (8538 kg ha-1). Com o aumento das doses do produto, houve um aumento na massa de 100 grãos, com um ganho de 8,3% em relação à testemunha (Piati et al., 2017).

Quais eram eles

Santos et al. (2013) utilizaram três bioestimulantes. O primeiro era composto por aminoácidos, sulfatos de zinco e manganês, citrato de ferro, ácido bórico e molibdato de amônio, utilizado para promover o desenvolvimento do sistema radicular e garantir um bom crescimento da parte aérea.

O segundo era constituído de molibdênio, ácido fosforoso e extrato de algas marinhas (Ascophyllum nodosum); utilizado para estimular o desenvolvimento de frutos e corrigir carências de molibdênio. E o terceiro foi composto por resíduo orgânico agroindustrial (glúten de milho e arroz), aminoácidos, fermentação pela bactéria Brevibacterium sp, amoníaco e ácido nítrico; utilizado para acelerar a recuperação de plantas submetidas a estresse, aumentar a resistência a pragas e doenças e aumentar o crescimento e o vigor das plantas.

Os autores aplicaram os produtos via semente ou foliar e verificaram efeitos positivos na área foliar e massa seca de folhas e do caule, observando maior incremento na massa seca de raízes das plantas de milho.

O milho

Fertilizantes contendo bioestimulantes (hidrolisados proteicos, aminoácidos isolados, extratos de algas, reguladores de crescimento, estimuladores de fotossíntese, ácidos húmicos e fúlvicos) foram avaliados isolados ou em combinações, em diversas fases de crescimento em várias culturas.

No caso do milho, as avaliações ocorreram em cinco Estados brasileiros e mostraram que é evidente para os produtores a viabilidade econômica da utilização dos bioestimulantes, uma vez que os ganhos de produtividade obtidos superaram os investimentos realizados para a sua utilização.

Os bioestimulantes promoveram a rápida superação de estresses, e quando aplicados às sementes houve um aumento médio no estande de cerca de 13%, o que também refletiu em ganhos de produtividade na ordem de 6,5% (Gomes, 2018).

O mercado de bioestimulantes no Brasil está em plena expansão e as empresas vêm investindo cada vez mais em pesquisas e na elaboração de novos produtos. Os bioestimulantes contribuem para a redução dos insumos e aumento da produtividade nas lavouras, favorecendo uma agricultura mais sustentável e um sistema produtivo mais equilibrado.

Bioestimulantes utilizados na cultura do milho e os principais benefícios do seu uso

Bioestimulante Incremento na cultura do milho
Azospirillum brasilense Assimilação de CO2 e aproveitamento da luminosidade1
Bacillus subtilis Extração e acúmulo de N e P2
Rhizophagus intraradices Rendimento de grãos e biomassa da planta3
Bokashi Acúmulo de Fe, K e S4
Substâncias húmicas Massa seca de raiz e de parte aérea5
Extrato de algas (Ascophyllum nodosum) Vigor, peso de matéria fresca e seca da parte aérea, área foliar e altura das plântulas 6
N, K e carbono orgânico Produtividade de grãos7
N, P, K, Zn, substâncias húmicas e fúlvicas Altura de plantas e peso de mil grãos8
Citocinina, giberelina e auxina Área foliar, características da espiga e produtividade de grãos9
Zn, Mn, Fe, B, Mo e aminoácidos Área foliar, massa seca de folhas e do caule, massa seca de raízes10
P, Mo e extrato de algas (Ascophyllum nodosum) Área foliar, massa seca de folhas e do caule, massa seca de raízes10
N, resíduo orgânico, aminoácidos, fermentação por Brevibacterium sp Área foliar, massa seca de folhas e do caule, massa seca de raízes10
1Battistus et al. (2018); 2 Nascimento e Rigobelo (2018); 3Stoffel et al. (2018); 4Dornas (2017); 5Souza et al. (2018); 6Andrade et al. (2018); 7Melo et al. (2017); 8Krenchinski et al. (2014); 9Kuhn et al. (2017); Piati et al. (2017); Pinto et al. (2017); 10 Santos et al. (2013).
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