Uso de clones é o diferencial no sucesso da heveicultura?

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Autores

José Geraldo Mageste
Engenheiro florestal, PhD e professor – Universidade Federal de Uberlândia (UFU/ICIAG)
jgmageste@ufu.br
Joicy Vitoria Miranda Peixoto
Engenheira agrônoma, doutoranda e técnica de laboratório – UFU/ICIAG
joicyvmpeixoto@ufu.br
Emmerson Rodrigues de Moraes
Engenheiro agrônomo e professor do IFGoiano
emmerson.moraes@ifgoano.edu.br
Crédito Paulo Brito

Um fato tentador para o leigo ou para o agricultor desavisado é a possibilidade de formar um seringal de produção por meio do plantio de mudas oriundas da brotação de sementes, sem fazer a enxertia. Talvez porque as sementes de seringueira brotam emitindo uma parte aérea vigorosa, com lançamentos longos e folhas verdes intensas. Ledo engano.

Em se tratando de seringueira, “filho de peixe não é alevino”. Assim, mesmo sementes provenientes de plantios de um clone (diz-se “sementes monoclonais”) não reproduzem todas as características deste clone. Isto acontece principalmente com a produtividade.

A manifestação de genes deletérios é intensa e se uma árvore do clone está produzindo 400 ml de látex não quer dizer que suas sementes produzirão indivíduos com igual produtividade. No clone RRIM 600 (Ruber Research Institute of Malasya – 600) por exemplo, é grande a frequência de indivíduos albinos (sem clorofila), que morrem nos primeiros meses após germinação. A sua descendência por sementes são indivíduos de péssima produção de látex.

Opções

Atualmente, encontra-se disponível no mercado uma série de clones de seringueira que variam na adaptação às diferentes condições edafoclimáticas e produtividade. Por isto, a opção por determinado clone deve ser feita com certos cuidados.

Existem características peculiares de cada clone, inclusive variando entre plantios solteiros e sistemas agroflorestais. Estas características diferem os clones em crescimento, intensidade e tamanho de copa, produtividade, crescimento radicular, respostas às variações de temperatura e umidades do solo e do ar. 

Clones que, por exemplo, apresentam copas menos densas, com período regular de troca de folhas, são os mais indicados para instalação de seringais nas chamadas Zonas de Escape do Mal das Folhas. Esta é uma doença fúngica que se torna epidêmica e chega a inviabilizar a instalação dos seringais na região equatorial.

Diferencial dos clones

Estamos falando da instalação dos seringais nas chamadas Zonas de Escape, ou seja, a região Centro Sul do Brasil, onde vem ocorrendo uma grande expansão com a instalação de novos seringais de produção, fato impensável até meados do século passado.

O sucesso pode ser comparado à não utilização dos clones, ou seja, com a formação do seringal com plantio de mudas que não foram enxertadas, os chamados “Pé franco”. Os pés francos não contam com enxertia e as mudas originadas de sementes são levadas para o campo e conduzidas para futuras sangrias.

Só que se um pé franco produz de 40 a 50 ml de látex por sangria, uma árvore de clone pode chegar a 250 – 300 ml de látex. Então é indiscutível a não utilização de clones. Esta situação agrava-se com a maior suscetibilidade do pé franco a inúmeras doenças fúngicas, etc.

Benefícios

Além da indicação da melhor adaptação às condições climáticas locais, o maior benefício está na resistência a doenças, como o “mal das folhas” (causado pelo fungo desfolhador Microcyclus ulei) e a produtividade diferenciada.

A ocorrência desta doença é limitante para instalação de seringais produtivos. No século passado foram feitas tentativas de cultivo no Norte do Brasil, como em Belterra, no Pará e Açailândia, no Maranhão. Esta doença dizimou os seringais e inviabilizou a continuidade do seu cultivo nestas regiões.

Posteriormente, foram trazidos clones da Malásia, como a série RRIM, que possui características fisiológicas que permitem o cultivo da seringueira na região centro sul do Brasil. Assim, também centros de pesquisas brasileiros, como o antigo Instituto Agronômico do Norte (IAN), a Epamig (Empresa de Pesquisa Agrícola de MG), o IAPAR (Instituto de Pesquisa do Paraná) e os paulistas, como o IAC (Instituto Agronômico de Campinas, que colocou no mercado os clones da série IAC), ajudaram a selecionar e testar novos materiais genéticos que permitem a convivência com esta doença de maneira epidêmica. 

Como implantar a técnica

Mudas enxertadas devem ser adquiridas de viveiristas idôneos, com certificação e registro no Ministério da Agricultura. Um viveirista procura enxertar suas mudas com clones conhecidos e desenvolvidos nos centros de Pesquisa como: IAC – Campinas ou na Epamig – Minas Gerais.

A maioria dos viveiristas possui um jardim clonal, onde estes clones são mantidos com tratos silviculturais especiais, como adubação, irrigação e condução de copas, a fim de produzirem hastes que fornecerão as borbulhas de enxertia.

Atenção especial para confirmar que estes clones são realmente aqueles desejados e que estejam registrados no Ministério da Agricultura. Somente assim, haverá garantia de que estará se plantando os clones indicados.

Após enxertia, a muda é conduzida para crescimento regular e quando estiverem com pelo menos dois lançamentos maduros (de cor verde e não amarronzado) podem ser transportadas e plantadas no local definitivo. O plantio deve contemplar em torno de 500 mudas por hectare (7,0 x 3,0 metros, ou próximo a este espaçamento) na maior parte da região de escape.

Tomar cuidado para uma cova ou sulco de plantio facilitar o crescimento inicial da muda. Covas de 20 x 20 x 50 cm de profundidade são essenciais para o crescimento da muda.

Custo

Uma muda enxertada, com pelo menos dois lançamentos maduros, deve custar em torno de um dólar. A muda custa muito pouco em relação ao custo final de instalação do seringal. Por isso, não justifica ignorar a qualidade da mesma arriscando-se em seringais pouco produtivos.

Devem ser preferidos clones que são indicados para o local de plantio Observe principalmente a distribuição pluviométrica e temperaturas baixas (geada em hipótese alguma).. Erros na escolha de clones são muito danosos para o produtor. Na região de Barretos (SP) e Uberaba (MG), tem-se optado por eliminar seringais que estão sendo sangrados há pelo menos uma década e começar tudo de novo, principalmente porque as plantas são de clones não adaptados que não chegam a 900 kg de borracha seca por hectare ao ano. 

O investimento no plantio de clones é igual a um plantio com uso de mudas de sementes (não indicado). Mas, o retorno na produtividade é excessivamente compensador. Um seringal com uso de clones chega a 2.000 kg de borracha seca por hectare por ano. Um plantio de sementes não chega a 300 kg/ha/ano.

Atualmente, a formação de um hectare de seringueira está em torno de R$ 5 mil, considerado desde o preparo do solo até o final do primeiro ano. Por isso é indicado o cultivo de espécies agrícolas (milho, soja, feijão) no meio da seringueira, para reduzir os custos de implantação.

O uso de SAF´s com a seringueira tem inúmeros benefícios silviculturais. Possibilita um retorno financeiro antecipado até o seringal entrar em plena produção (quatro a cinco anos após a instalação), facilita manter a área sempre limpa, melhora o aproveitamento do adubo destinado à cultura, faz o produtor acompanhar mais de perto a formação do futuro painel de sangria e facilita a ciclagem de nutrientes. 

Produtividade

Conforme citado anteriormente, a produtividade dos clones chega a ser de seis a 10 vezes superior, comparada ao plantio de sementes puras.

Alguns produtores têm optado por fazer a enxertia no campo. Assim, são plantadas de sementes e posteriormente faz-se a enxertia. Esse método oferece inúmeros riscos, principalmente de desuniformidade do futuro seringal e a necessidade de uma mão de olha bem treinada em enxerto. O melhor é plantar mudas já enxertadas e com uniformidade de tamanho.

Outro erro frequente no plantio de clones é conservar o broto ladrão e retirar aquele da gema enxertada. Assim, todo esforço do enxerto é jogado por terra. Além do mais, é comum não se fazer a condução da brotação do enxerto. Assim, ocorre uma formação do futuro painel de sangria com muitos problemas de brotações a pequena altura.

Deve ser conduzida uma única brotação até a altura de pelo menos 2,3 m de altura, facilitando a formação do futuro painel de sangria.

Aqui, o principal remédio é mesmo treinar o operador. Ele deve ser capaz de reconhecer um broto ladrão e retirá-lo com precisão (inclusive colocando uma calda de proteção), ao invés de retirar o broto de enxertia.

Além disso, não se pode querer economizar mão de obra e não fazer a condução devida das plantas para formação do painel de sangria. Existem muitos seringais malformados e que trazem sérios problemas de sangria.

Procure um profissional engenheiro florestal ou outro com capacitação adequada em formação de seringais. O êxito da instalação de um seringal na Zona de Escape exige conhecimentos sobre comportamentos de clones, adubação e condução dos mesmos.

Procure visitar seringais em produção. Em Minas Gerais ou no norte de São Paulo existem muitos seringais em produção. Acerte na escolha dos clones – existe uma tendência em se pensar que o Clone RRIM 600 (Asiático) serve para qualquer condição edafoclimática do Brasil. Isto não é verdade.

Em condições de solos adensados, ele não consegue crescer e nem produzir. Além do mais, ele é muito sensível a geadas (qualquer clone) ou até mesmo a temperaturas baixas (menos de 10ºC) por muito tempo.

A adubação do seringal tem que fornecer, com especial atenção, o NPK e magnésio. Este é um elemento muito importante para o crescimento e desenvolvimento das seringueiras. Além destes, micronutrientes como Boro, cobre, zinco e manganês são, em condições deficientes ou desbalanceadas, limitantes para o desenvolvimento da seringueira.

Existem características peculiares de cada clone, inclusive variando entre plantios solteiros e sistemas agroflorestais.