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Uvas sofrem influência das alterações climáticas

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Crédito Shutterstock

Claudia Aparecida de Lima Toledo
Engenheira agrônoma e doutoranda em Agronomia/Proteção de Plantas – UNESP
claudia.lima.toledo@gmail.com
Franciely da Silva Ponce
Engenheira agrônoma e doutora em Agronomia/Horticultura – UNESP
francielyponce@gmail.com
Santino Seabra Júnior
Engenheiro agrônomo, PhD e professor – Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat)
santinoseabra@hotmail.com

A qualidade dos vinhos depende de características químicas, como açúcar, álcool, compostos fenólicos, entre outros, que sofrem grande influência das condições climáticas e sanidade das uvas.
Fatores como temperatura, umidade relativa, precipitação e radiação solar podem alterar os estádios fenológicos, maturação e qualidade das uvas. Além disso, dependendo das condições ambientais, podem favorecer o aparecimento de doenças como o míldio (Plasmopara viticola), antracnose (Elsinoe ampelina), oídio (Uncinula necator), entre outras.
Nesse sentido, os conhecimentos da influência dos fatores ambientais sobre as videiras são muito importantes, principalmente devido às mudanças climáticas pelas quais o planeta vem passando, em que o crescimento e desenvolvimento de árvores frutíferas são afetados por variáveis genéticas e ambientais.
Sendo assim, acredita-se que o aquecimento global provoque mudanças no clima das regiões tradicionais de produção de uva. Entre os fatores ambientais, a temperatura e radiação solar são os principais impulsionadores do crescimento das culturas, o que mostra que a agricultura é altamente dependente dos fatores climáticos.
Além disso, a influência do clima sobre as videiras pode auxiliar os produtores na tomada de decisão quanto às políticas e práticas de manejo que minimizem os efeitos dos fatores ambientais. Desta forma, o aumento da temperatura pode impactar a produção, área de cultivo e variedades avaliadas.

La Niña na produção de uvas

O clima é influenciado por dois fenômenos principais, El Niño e La Niña, sendo resultado do aquecimento os resfriamentos das águas superficiais do oceano pacífico. A safra 2021/22 de uvas foi atingida pelo fenômeno La Niña, e acredita-se que ele se manterá firme nos próximos meses, tendo 57% de probabilidade para se neutralizar apenas no inverno, entre junho e agosto, segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).
O fenômeno La Niña consiste no resfriamento anormal das águas superficiais do oceano pacífico central e oriental. Esses fenômenos afetam o clima de várias regiões do mundo, alterando o padrão de chuvas e a temperatura do ar.
O fenômeno provocará mais chuvas no Norte e Nordeste, e menor frequência de chuva no Sul do País. Como mencionado anteriormente, o Estado do Rio Grande do Sul é o maior produtor de uva do País, respondendo por 62% da produção. Nesse sentido, buscaremos abordar a influência do La Niña nesse estado.

No Sul

Na safra de 2021/22, no Rio Grande do Sul, devido às condições climáticas ocasionadas pelo evento climático, no início da primavera/2021, e à soma de horas de frio no inverno, houve favorecimento das brotações nas videiras, indicando potencial produtivo nessa safra.
Todavia, algumas cultivares precoces e intermediárias tiveram dias frios e chuvas na época da floração, afetando diretamente a polinização das flores, o que resultou em perdas. No entanto, em outubro/21, as videiras precoces foram favorecidas com chuvas, o que proporcionou o desenvolvimento das bagas das uvas. Porém, o mesmo não ocorreu para as cultivares intermediárias e tardias, sendo as mesmas prejudicadas.
Todavia, além da chuva em outubro, as cultivares precoces foram favorecidas pela estiagem imposta pelo La Niña, que possibilitou dias quentes e noites frias, entre os meses de novembro e dezembro/2021, favorecendo o acúmulo de carboidratos e uniformidade de maturação as videiras.
Além disso, essa amplitude térmica favorece a produção de compostos como antocianinas nas uvas tintas, elevando o potencial enológico das uvas produzidas. Porém, essas condições climáticas podem não favorecer as cultivares intermediárias e tardias, devido às chuvas que ocorreram em janeiro.
Neste sentido, apesar da ocorrência de La Niña na safra 2021/22 e provável redução na produção em alguns vinhedos, será possível apresentar qualidade enológica na safra de 2021/22 (Embrapa Uva e Vinho, 2022).

Relação direta

A fenologia da videira tem grande relação com os fatores ambientais, e fatores como temperatura, umidade relativa, precipitação e radiação solar apresentam grande influência. A interação desses fatores com a variedade utilizada e as técnicas de cultivo são responsáveis pela potencialidade produtiva de cada região.

Temperatura do ar

A temperatura do ar influencia diretamente a videira, dependendo da fase de desenvolvimento, seja ela vegetativa ou de repouso. No inverno, quando a videira está na fase de repouso vegetativo, ela pode suportar temperaturas mínimas de até -20ºC, dependendo da espécie.
As baixas temperaturas no inverno são importantes para que haja a quebra de dormência das gemas, assegurando a brotação adequada. Em climas subtropicais, onde há pouco frio, práticas culturais e adoção de tratamentos adequados são necessárias para garantir uma porcentagem satisfatória de brotação.
Entre as práticas utilizadas, podemos citar o uso de biorreguladores. Além disso, temos a temperatura de primavera, em que até 10ºC de mínima é o ideal para que ocorra o bom desenvolvimento vegetativo. Em locais onde se tem temperaturas baixas na passagem do inverno para a primavera, podem ocorrer geadas tardias, comprometendo e causando a destruição dos órgãos herbáceos da videira.
Assim, regiões com riscos de geadas tardias devem ser evitadas, e em locais com risco baixo ou moderado deve-se utilizar cultivares de brotação tardias. Quanto ao período de floração, temperaturas superiores ou iguais a 18°C são adequadas, especialmente se associadas a dias ensolarados e baixa umidade.
Já no verão, para o bom desenvolvimento e atividade fotossintética, temperaturas entre 20 e 25°C são adequadas. Essa estação geralmente coincide com o período de maturação das uvas, e temperaturas amenas durante o dia possibilitam período de maturação mais lento, favorecendo a qualidade, enquanto noites frias favorecem o acúmulo de antocianina em cultivares tintas e aroma em cultivares brancas.
Todavia, altas temperaturas proporcionam uvas de maiores teores de açúcar e menor acidez titulável. Portanto, na fase de maturação das bagas, temperatura próximas aos 30°C são ideais, por manter a qualidade do produto e evitar a acidez elevada.
No entanto, a temperatura de outono, afeta o comprimento do ciclo vegetativo, sendo importante na maturação dos ramos e acúmulo de reservas pela planta. É importante frisar que geadas precoces, que ocorrem no outono, podem causar a queda das folhas e o fim do ciclo vegetativo da planta.
Na viticultura consideram-se três escalas de condições climáticas, o macroclima, mesoclima e o microclima, que refere-se às condições climáticas de uma pequena superfície próxima à planta, proporcionada especialmente pelo sistema de condução.
Isso porque, por ser uma planta de hábito trepador, a videira necessita de um sistema de condução que modifica a estrutura da videira no campo, e tais alterações favorecem o arejamento, na temperatura e interceptação da radiação solar, que favorecem a produção de compostos fitoquímicos durante o desenvolvimento e maturação das uvas.

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