Vida do solo: Um olhar para as raízes da produtividade cafeeira

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Autor

Givago Coutinho
Doutor em Fruticultura e professor efetivo do Centro Universitário de Goiatuba (UniCerrado) givago_agro@hotmail.com

O solo consiste em um sistema trifásico, ou seja, é composto por material sólido, gasoso e líquido. Logo, como sistema trifásico o solo é composto pela junção de partículas sólidas, ar e água.

Neste contexto, o solo consiste em um ambiente complexo, no qual a fase sólida é formada por substâncias inorgânicas e materiais orgânicos, a fase líquida é formada pela solução do solo e a fase gasosa, pelos gases presentes entre as partículas do solo. Este último é resultado dos processos bioquímicos, como a respiração de raízes, microrganismos e da macrofauna.

Dada sua importância, vários processos do solo dependem da atividade biológica para que continuem ocorrendo. A atividade biológica, por sua vez, depende diretamente de um conjunto de seres vivos, flora e fauna, que habitam o solo, podendo ser mensurada e seus valores caracterizando o potencial do solo.

Base

O solo constitui a base para o desenvolvimento do sistema radicular das plantas. No caso de plantas perenes, como o cafeeiro, é necessário a formação de um sistema radicular bem estruturado, com um bom aprofundamento de raízes, sendo estes cuidados importantes desde o início, no plantio e formação da lavoura.

Os efeitos da má formação do sistema radicular são duradouros, sendo que a planta com sistema radicular malformado tende a sentir mais as intempéries, especialmente após anos de alta produção. Assim, a obtenção de matéria orgânica e o equilíbrio nutricional garantem maior enraizamento do cafeeiro, o que contribui para alcançar alta produtividade.

Como alcançar alta produção cafeeira

A biologia do solo é definida como o estudo dos organismos, vegetais ou animais que habitam o solo e que relações determinam entre si, sendo que passam a ser componentes do material orgânico, formando a matéria orgânica do solo após sua morte.

A qualidade do solo (QS) é medida, em geral, por três atributos básicos: químico, físico e biológico, em que neste último a matéria orgânica exerce um papel fundamental por promover a sustentabilidade em agroecossistemas, influenciando fatores como a retenção de água no solo, mineralização, capacidade de troca catiônica (CTC), atividade microbiana, dentre outros. Inclusive, atributos microbiológicos podem ser analisados e utilizados como indicadores de qualidade dos solos.

Em solos ácidos e mais intemperizados, pobres em nutrientes, características típicas de solos presentes no bioma Cerrado, ao longo do ciclo de cultivo do cafeeiro são requeridas periodicamente adubações comumente realizadas em cobertura.

A maior proporção de raízes do cafeeiro se encontra espacialmente distribuída nos primeiros 30 cm do perfil de solo, cerca de 60% total de raízes absorventes .

Das raízes para o solo

Assim, é fundamental que se conheça o sistema radicular do cafeeiro para se proceder ao manejo corretamente, sempre atentando também aos fatores edafoclimáticos, pois raízes bem desenvolvidas proporcionam melhor absorção de nutrientes.

Além disso, o conhecimento dos atributos básicos do solo garante maior efetividade no desenvolvimento do cafeeiro, potencializando a utilização dos recursos disponíveis pelo mesmo.

Manejo

Os SAF’s são uma boa alternativa para melhoria das condições biológicas do solo, segundo diversos autores, pois são uma forma de alteração do ambiente solo, o que influencia diretamente na microbiota local e seus processos.

Matsumoto (2004) ressalta que o cultivo do cafeeiro neste tipo de sistema tem pouca tradição, entretanto, pesquisas mostram a possibilidade dessa prática alcançar êxito na cultura.

Os sistemas agroflorestais (SAFs) são também uma forma de manter a ciclagem de nutrientes no sistema de produção cafeeira, bem como por meio de outras alternativas, como restos culturais, compostos e resíduos orgânicos, dentre outros.

Produtividade

Segundo Caixeta et al., (2008), é economicamente inviável a produção cafeeira com produtividade inferior a 15 sacas por hectare, devendo a área de produção apresentar também um tamanho mínimo que seja viável.

Assim, a manutenção adequada das características físicas, químicas e biológicas do solo auxilia na produtividade equilibrada e rentável do solo, lembrando que a nutrição desequilibrada interfere, inclusive, no tamanho dos grãos produzidos.

Em campo

Segundo Mesquita et al., (2009), raízes bem desenvolvidas proporcionam melhor absorção de nutrientes, auxiliando inclusive no maior aproveitamento de fungicidas e inseticidas aplicados via solo.

Conforme já mencionado, a análise de atributos microbiológicos pode ser utilizada como indicador de qualidade dos solos, auxiliando na produtividade do cafeeiro e até na qualidade e sustentabilidade ambiental, bem como na avaliação e identificação de estratégias de manejo em sistemas agroflorestais (SAFs), por exemplo.

Muito cuidado

No que se refere à biologia do solo, ao se proceder sua avaliação deve-se atentar para a retirada do maior número possível de amostras de solo na área, visto não haver parâmetros disponíveis com relação ao número de amostras necessárias, diferentemente da avaliação da fertilidade do solo, por exemplo.

Isso ajuda a evitar erros como a sub ou superestimação de valores. Com relação à orientação de coleta das amostras, vale a mesma recomendada para a avaliação da fertilidade, com a subdivisão da área em talhões homogêneos.

 De maneira geral, é recomendada a utilização da matéria orgânica no plantio quando seu teor no solo estiver abaixo de 2%, lembrando que quando não estiver disponível na propriedade, o seu custo de aquisição poderá ser elevado.

Além disso, a análise da matéria orgânica juntamente com outras análises, como a química de macro e micronutrientes, e a análise física do solo, permitem a elaboração de um bom plano de calagem, gessagem e adubação do solo na busca pela produção economicamente viável do cafeeiro.

Além disso, a nutrição e a adubação do cafeeiro sob o ponto de vista agroecológico e orgânico se baseia no princípio de realizar a manutenção e melhoria da fertilidade do solo por meio da utilização de recursos naturais, optando por aqueles disponíveis no local, bem como subprodutos orgânicos, promovendo disponibilidade nutricional ampla e diversificada ao cafeeiro.