Zinco reduz severidade de requeima na batata

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Rodrigo Vieira da Silva Engenheiro agrônomo, doutor em Fitopatologia e professor – IF Goiano – Campus Morrinhosrodrigo.silva@ifgoiano.edu.br

Rafaella Alves Rodrigues / Isabeli Barbosa Brito

Graduandas em Agronomia – IF Goiano – Campus Morrinhos

Batata – Crédito: Ana Maria Diniz

A requeima da batata causada pelo oomiceto Phythophthora infestans acarreta sérios prejuízos à cultura, em especial quando as cultivares são suscetíveis, condições climáticas favoráveis ao progresso das doenças e manejo inadequado.

A doença afeta drasticamente folhas, os pecíolos, caules e tubérculos. Em condições favoráveis, ela pode destruir completamente uma lavoura em um curto período de tempo. Os sintomas nas folhas começam pela ocorrência de manchas de tamanho variado, apresentando coloração verde e uma aparência úmida, que fica pardo-escura a negra, irregular.

Na parte abaxial dos folíolos, observam-se estruturas branco-acinzentadas ao redor das lesões, resultante da formação dos esporângios e esporangióforos do patógeno. Quando as lesões crescem, o tecido foliar fica necrótico e apresenta uma forma de queima generalizada.

Nos brotos, a requeima provoca a morte das gemas apicais, limitando o crescimento das plantas. Nas hastes, caules, pecíolos e ráquis, os danos são lesões marrom-escuras, úmidas, contínuas e aneladas, ocorrendo a quebra ou a morte desses órgãos. Em decorrência desses fatores, a requeima é considerada a doença mais relevante e destrutiva da cultura da batata, podendo causar perdas totais da lavoura.

A sarna comum, causada por Streptomyces scabies, provoca diversos danos à batata: lesões superficiais, corticosas, reticuladas, lisas ou profundas no tubérculo, reduzindo sua qualidade, apresentando um aspecto defeituoso. Assim, a batata com incidência da doença é imprópria para o consumo e sem valor no comércio e, consequentemente, haverá perdas econômicas significativas ao produtor.

A sarna pulverulenta, causada por Spongospora subterrânea, afeta também diretamente os tubérculos, causando manchas e feridas na casca da batata, tornando inviável o seu consumo. A incidência da doença pode ser favorecida por fatores como o uso de variedades de batatas suscetíveis, sementes contaminadas e pelo plantio contínuo em solos infestados.

Na literatura não há trabalhos sobre a quantificação dos prejuízos causados pela sarna da batateira no País, porém, os produtores relatam prejuízos que pode atingir até 100% em lavouras atacadas por esses patógenos.

Regiões mais afetadas

No Brasil, a requeima em batatas é mais destrutiva nas regiões sul e sudeste em decorrência do clima mais frio, todavia, existem ocorrências em lugares com o clima mais quente, como na região centro-oeste, norte e nordeste, especialmente quando há incidência de noites frias e alta umidade do ar.

Os locais mais propícios à ocorrência da sarna comum da batata estão em regiões tropicais com alta altitude, de solo mais seco e pH mais alcalino, geralmente acima de 7,0, mais comuns nas regiões do nordeste do Brasil.

Já a sarna pulverulenta desenvolve-se melhor em climas frios e úmidos, temperaturas na faixa de 11 a 18°C e pH do solo entre 4,7 a 7,6, mas sua ocorrência tem sido constatada em praticamente todas as regiões produtoras de batata do mundo.

Estratégias de controle

As medidas de controle da requeima da batata estão relacionadas ao uso de sementes certificadas, plantas de cultivares resistentes, evitar o cultivo em áreas com alta umidade e teor elevado de neblinas, não realizar irrigações excessivas, fazer adubação equilibrada, eliminar restos de culturas e fazer o controle de plantas espontânea.

Entretanto, a principal forma de controle ainda é a aplicação de agroquímicos, com a pulverização preventiva de fungicidas, em especial quando as condições favorecerem a disseminação, infecção e desenvolvimento do patógeno.

Os fungicidas protetores são os preferidos no manejo de doenças da cultura. Os produtos com ação multissítio têm sido promissoras ferramentas para o combate dos patógenos por atuarem em diversos sítios e estruturas da célula do patógeno, com alto nível de mortalidade.

Para o controle da sarna da batata deve ser realizado plantio em locais com solos de pH menor que 6,5 e mais úmidos, o tratamento de sementes, o uso de cultivares resistentes, fazer rotação de cultura de três a quatro anos com gramíneas e realizar aplicação química, além de manter a umidade do solo para desfavorecer o desenvolvimento do patógeno e a adição de matéria orgânica, no intuito de favorecer a multiplicação de microrganismo antagonista no solo.

Algumas medidas de manejo curativas também merecem destaque no combate à sarna pulverulenta. Pode-se destacar a adição de zinco e enxofre no solo com o propósito de reduzir a severidade de doenças.

Mecanismos de ação do zinco

O zinco (Zn) é um elemento que é absorvido pelas raízes das plantas via fluxo de massa na solução do solo. Pesquisas demonstram que o Zn tem a função de cofator enzimático, onde atua como um ativador de diversas enzimas nas plantas.

Participa de várias rotas metabólicas, a exemplo da fotossíntese, formação do grão de pólen, síntese de açúcares, lipídeos, proteínas e hormônios. Além disso, vale destacar que o Zn tem papel importante na integridade das membranas celulares e na resistência da planta a estresses ambientais e a patógenos. Por essas funções metabólicas, o Zn também apresenta efeito positivo na produtividade do tubérculo da batata.

Associando a fatores nutritivos e fitossanitários, o Zn reduzirá o estresse abiótico e a severidade da requeima e das sarnas na batata, por meio da biossíntese do hormônio vegetal ácido indol butírico, uma auxina sintética que atua no crescimento das plantas.

Aplicação do zinco

Na batateira, o Zn é um dos micronutrientes mais absorvidos, na quantidade de 150 a 250 g ha-1. Porém, é válido ressaltar que, quanto maior o pH do solo, menor será a disponibilidade de Zn.

A aplicação deste elemento pode ser feita via solo ou via foliar, no entanto, pesquisas demonstram que o modo mais efetivo é via solo, concentrando-o nos sulcos de plantio.

Resultados de pesquisas mostram que a aplicação de fungicidas contendo Zn proporcionam aumento na produção de tubérculos de batata e maior tolerância e/ou resistência às doenças.

A ausência de Zn na batateira acarreta inúmeros efeitos negativos, como por exemplo: deformações, as folhas ficam menores, deformadas e o crescimento da planta é atrofiado; clorose internerval. Além disso, as folhas mais jovens podem apresentar queimaduras nas pontas e os brotos correm risco de serem atrofiados e encurtamento dos entrenós.

Por outro lado, plantas bem manejadas e com nível adequado de Zn atingem excelente produtividade. Para alcançar uma produtividade acima de 40 toneladas ha-1 de tubérculo, ou seja, rendimento top para a cultura, faz-se necessário a aplicação de cerca de 200 gramas ha-1 de Zn em associação com a aplicação de fungicidas que contêm teores de zinco em sua fórmula, uma vez que promovem um maior aumento na produção de tubérculos de batata.

Exemplos práticos em campo

De acordo com as pesquisas realizadas pelo Centro de Pesquisa de Sanidade Vegetal, (2019), a adição de fontes de cálcio, enxofre e zinco no solo reduz a severidade da sarna e da requeima da batata.

A mistura dos fungicidas BTH + metalaxyl-M + chlorothalonil seguida de metalaxyl-M + chlorothalonil e cymoxanil + maneb + sulfato de zinco, demonstraram os melhores níveis de controle da requeima.

Segundo o artigo “Could the Supply of Boron and Zinc improve resistance of potato to early blight?” as maiores concentrações de Zn foliar na batata foram observadas nos tratamentos em que o micronutriente foi aportado via solo. A concentração de Zn nas folhas de batata foram 154,0 e 118,0 mg kg-1 nos tratamentos fertilizados com Zn e B + Zn, respectivamente.

Foi observada redução no teor de Zn nas folhas de batata em função da adição de boro, fato que pode estar ligado às interações entre nutrientes, visto que o nutriente pode causar sinergia na absorção. Logo, observamos a importância da oferta deste micronutriente no teor adequado, para que seus teores no solo não perturbem as diversas relações de absorção de outros nutrientes.

Principais erros

O fornecimento em excesso às plantas deste micronutriente é tóxico, de modo que aplicado em alta dose, ele se tornará prejudicial. Essa toxicidade trará efeitos negativos, como limitação da capacidade fotossintética da planta,

Realizar a aplicação do Zn de forma e no momento inadequado; em solos alcalinos em decorrência de supercalagem e a não verificação do nível de matéria orgânica do solo também pode influenciar na sua absorção e o seu nível nas plantas.

Para evitar tais erros, primeiramente deve ser feita uma análise de solo para obter um laudo técnico da área, que permite saber como está a condição química do solo, pH, saturação por alumínio e por bases, teor dos nutrientes e a relação entre estes, e que guiará para uma correta avaliação da fertilidade do solo, recomendação de calagem e adubação.

Deve-se corrigir o pH do solo na faixa adequada, uma vez que é fundamental para a disponibilidade de nutrientes às plantas. Não aplicar o mesmo fertilizante e a mesma dose em todas as áreas/talhões da propriedade. A forma recomendada de aplicação do fertilizante está relacionada à aplicação no tratamento do tubérculo, no sulco de plantio e em cobertura via foliar.

Conclui-se que a aplicação do Zn em doses adequadas na cultura da batateira é recomendada, pois melhora a produtividade da cultura, fornece mais proteção a estresses ambientais e proporciona melhor tolerância ao ataque de fitopatógenos. Em função das baixas doses recomendadas deste micronutriente, o custo é baixo e o retorno é garantido.