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quinta-feira, janeiro 20, 2022
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Bokashi e seus resultados em rúcula e repolho

Autores

Glaucio da Cruz Genuncio
Professor de Fruticultura – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
glauciogenuncio@gmail.com
Elisamara Caldeira do Nascimento
Talita de Santana Matos
Doutora em Agronomia- UFRRJ
Giovani de Oliveira Arieira
Professor de Fitopatologia –  UFMT
Rafael Campagnol
Professor de Olericultura – UFMT

Bokashi é uma palavra japonesa que significa “matéria orgânica fermentada”. É também uma técnica de pintura japonesa que significa “diluir” ou “borrar”, adaptada pelos agricultores para a prática de misturar a matéria orgânica à terra da mata, deixando-a fermentar antes de misturá-la à terra dos cultivos.

O bokashi é, portanto, uma mistura balanceada de matérias orgânicas de origem vegetal e/ou animal, submetidas a processo de fermentação controlada. Seu uso é uma técnica muito antiga no Japão, trazida e adaptada ao Brasil no final da década de 80 por imigrantes japoneses.

A fermentação que ocorre na elaboração do bokashi é predominantemente láctica, porém ocorrem, simultaneamente em pequenas proporções, as fermentações acética, alcoólica, propiônica e butírica.

Para o solo

Os nutrientes do bokashi são disponibilizados sob a forma de quelatos orgânicos, ou seja, estão presos às estruturas orgânicas e têm a vantagem de não se perderem facilmente por volatilização ou lixiviação após a aplicação. Esta mistura pode ser considerada como um biofertilizante.

Além de servir como fonte de nutrientes para as plantas, o bokashi introduz microrganismos benéficos no solo, que desencadeiam um processo de fermentação na biomassa disponível, proporcionando rapidamente condições favoráveis à multiplicação e atuação da microbiota benéfica existente no solo, como fungos, bactérias, actinomicetos, micorrizas e fixadores de nitrogênio, que fazem parte do processo complexo da nutrição vegetal equilibrada e da construção da sanidade das plantas e do próprio solo.

O bokashi é essencialmente um revitalizador do solo, sendo recomendado para solos degradados ou que passaram por processos de utilização em excesso de adubos químicos e agrotóxicos. Ele também ajuda a restabelecer o equilíbrio dos organismos do solo e a quebrar os ciclos de algumas doenças e pragas.

Por ter quantidade balanceada de macro e micronutrientes, seu uso favorece a boa nutrição das plantas. Por esse motivo, tem sido usado tanto por produtores convencionais, com o objetivo de recuperar a vitalidade de seus solos, como por agricultores orgânicos e por aqueles que querem fazer a transição agroecológica, pois ocasiona resultados animadores, como o aumento da produção e a melhoria da qualidade dos produtos.

Vantagens

A matéria orgânica do Bokashi favorece a estabilidade da estrutura dos agregados do solo, que são a união de partículas primárias que se juntam por meio da atuação de microrganismos, exsudatos de raízes e pela própria matéria orgânica.

Essas pequenas estruturas são responsáveis pela proteção do carbono do solo e manutenção de uma condição ideal para o desenvolvimento das plantas. Além de reduzir a densidade aparente, aumenta a porosidade e também sua capacidade de retenção e absorção de água.

Além disto, este biofertilizante também aumenta o conteúdo de macro e micronutrientes, e a capacidade de troca catiônica (CTC), além de ajudar a corrigir a acidez do solo ao longo do tempo, melhorando o seu pH. Como resultado, as plantas conseguem absorver os nutrientes e desenvolvem-se melhor.

Outro benefício do Bokashi refere-se ao aumento da quantidade e da diversidade de microrganismos no solo, que recicla a matéria orgânica e disponibiliza nutrientes para as plantas de forma lenta, além de atuar no controle de pragas e doenças. Também favorece a produção de substâncias ativadoras do crescimento, que contribuem para o desenvolvimento das plantas.

Composição

Para a fabricação do bokashi é necessário, além de matéria orgânica balanceada, o uso de fermentos biológicos que podem ser feitos a partir de sua captura em solos de mata, ou por meio de outros fermentos conhecidos para produção de alimentos fermentados, e ainda por produtos comerciais conhecidos como aceleradores de compostagem.

Existem diversos tipos de fermentos ou microrganismos que fazem o tipo de fermentação adequado para a produção do bokashi. Os mais comuns são os microrganismos eficazes (EM), que é uma tecnologia trazida pela Fundação Mokiti Okada na década de 80, ou o Kefir.

Ambos os tipos são uma mistura de microrganismos que possuem diferentes funções no meio.

Tecnologias

Nas duas últimas décadas, a olericultura tem incorporado várias tecnologias, principalmente com o objetivo de incrementar a produtividade das culturas e diminuir a estacionalidade de oferta das hortaliças. Também neste período, cresceu entre os componentes da cadeia produtiva de hortaliças a necessidade de oferecer produtos de melhor qualidade.

Recentemente, aos objetivos anteriormente citados soma-se a preocupação de produzir, reduzindo-se, significativamente, o impacto sobre o ambiente. O aumento no consumo de alimentos orgânicos tem forçado os produtores a investir em tecnologias para a exploração do potencial de algumas hortaliças.

O caso do repolho

O repolho, do ponto de vista econômico, é a hortaliça mais importante da família das brássicas, dada a sua antiguidade, ampla distribuição, facilidade de produção e grande consumo. Além disso, é uma cultura de grande importância social e econômica por envolver a mão de obra familiar para o cultivo.

A produtividade econômica desta cultura depende basicamente do uso de cultivar adaptada às condições de solo e clima. A escolha deve ser baseada no potencial genético para formação de cabeças compactas e de bom tamanho para comercialização local. Estes aspectos são fundamentais para o sucesso do cultivo orgânico e dependem de estudo sobre o comportamento de diversas cultivares comerciais nas condições locais.

A hérnia das crucíferas, causada por Plasmodiophora brassicae W., é um dos principais problemas nas áreas produtoras de brássica em todo o mundo. Os principais sintomas da hérnia das crucíferas na parte aérea são deficiências nutricionais e desenvolvimento retardado.

As plantas atacadas murcham nas horas mais quentes do dia e retomam a turgidez nas horas mais frescas. Em algumas situações, as folhas ficam com uma coloração verde mais pálido ou amarelecem. O sintoma característico é a formação de galhas nas raízes, provenientes da rápida multiplicação e crescimento exagerado das células induzidas pelo patógeno.

Estudos

Em experimentos realizados com dosagens de bokashi, seu incremento influenciou positivamente o desenvolvimento das plantas de repolho, ou seja, com o aumento das dosagens de bokashi houve maior desenvolvimento vegetativo das plantas. A dosagem de 400 g/m2 foi o tratamento que apresentou a menor incidência da hérnia das crucíferas e a menor severidade.

Alguns estudos demonstram inclusive que fontes de infestação podem ser combatidas pelo bokashi.

Dentre as hortaliças cultivadas no Brasil, a rúcula (Eruca sativa Miller) é uma folhosa que vem conquistando espaço no mercado desde a década de 1990. Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo, a quantidade de rúcula comercializada teve um crescimento de 78% nos últimos 10 anos.

Outro aspecto relevante diz respeito ao crescimento da quantidade comercializada e a sua valorização, indicando a rentabilidade que a produção de rúcula pode oferecer.

Tendência do setor

Não existem dados conclusivos sobre a quantidade produzida de hortaliças orgânicas no País, mas é possível afirmar que a demanda tem aumentado para todos os produtos comercializados.

Contudo, observa-se que apenas um grande volume de produção não é satisfatório, mas sim o uso de tecnologias que equilibrem a oferta do produto e a sua qualidade nutricional com a conservação ambiental.

A crescente demanda por hortaliças de alta qualidade ofertadas durante o ano e com produção ambientalmente correta tem contribuído para o investimento em novos sistemas de cultivo que permitem uma produção adaptada em diferentes regiões e condições adversas do ambiente.

O cultivo em ambiente protegido tem apresentado uma série de vantagens no desenvolvimento das plantas, tanto convencionais quanto orgânicas, como aumento de produtividade; melhoria na qualidade dos produtos; diminuição na sazonalidade da oferta, conferindo maior competitividade pela possibilidade de oferecer produtos de qualidade o ano todo, inclusive na entressafra; melhor aproveitamento dos fatores de produção, principalmente adubos, defensivos e água; controle total ou parcial dos fatores climáticos.

Diversos autores avaliando o efeito da adubação nitrogenada de cobertura e do espaçamento entre plantas em rúcula, cultivada dentro e fora de ambiente protegido, constatou que no cultivo de verão as plantas crescidas dentro do ambiente protegido beneficiaram-se de melhores condições, refletindo em maior crescimento, produtividade e qualidade de folhas, enfatizando assim a importância da utilização desse ambiente.

A utilização de telas de sombreamento nos cultivos em locais de temperatura e luminosidade elevadas conduz as hortaliças de folhas dentro de uma variação ótima de luminosidade, reduzindo a intensidade da energia radiante com melhor ajuste na sua distribuição.

Esses benefícios acarretam outros fatores favoráveis à necessidade da planta, principalmente na diminuição da fotorrespiração, o que contribui para melhor desempenho da cultura, podendo ocorrer maior produtividade e qualidade das folhas, em comparação com o cultivo a céu aberto.

A associação de técnicas de cultivo protegido a formas eficientes de adubação orgânica pode aumentar a produtividade e qualidade destas culturas, trazendo maiores ganhos para os produtores.

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