Café orgânico em sistema agroflorestal

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Giulia Fabrin Scussel

Engenheira agrônoma – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

giuliascussel@gmail.com

Crédito Cláudio Pagotto

Quando pensamos numa floresta, ninguém aduba, aplica herbicidas ou irriga. A floresta tem um mecanismo no qual ela mesma se sustenta. A ideia de plantar um sistema agroflorestal (SAF) é justamente trazer esse princípio de autossustentação para dentro dos sistemas produtivos, garantindo produtividade sem grandes entradas de recursos.

Dentre as vantagens que podemos citar no uso de SAFs estão a produção de alimentos sadios, sem o uso de agroquímicos tóxicos (sem contaminação de recursos hídricos e do solo), viabilidade econômica e melhores condições de trabalho, considerando aspectos culturais.

Bom para toda a cadeia

Valorizando o trabalho da agricultura familiar, a cultura agroflorestal promove a recuperação da floresta ao plantar espécies nativas em consórcio com o café, por exemplo, que é um dos produtos mais importantes da história econômica do Brasil e gerou uma relevante fração da riqueza nacional.

Atualmente, segundo dados divulgados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o café brasileiro representa uma rentabilidade de US$ 2 bilhões anuais, o que significa um terço da produção mundial. Com mais produtividade e renda, os agricultores não precisam se envolver em atividades de risco para garantir seu sustento e percebem a floresta como uma aliada.

Sombra e água fresca

Cafeeiros são naturalmente parte de florestas, se concentrando no sub-bosque, ou seja, são habituados a pouca incidência solar. Do ponto de vista de produção, o sombreamento de até 30% não reduz a produção de café, enquanto em cultivos a pleno sol, como acontece na monocultura, as plantas de café podem ser estressadas excessivamente, gerando uma redução de sua capacidade de produção. Além do mais, o sombreamento uniformiza a maturação do café, agregando qualidade ao produto final e viabilizando a produção orgânica.

Muitas vezes o café produzido em SAF é orgânico, ou seja, sem a utilização de agrotóxicos e adubos químicos de alta solubilidade, que são substituídos por subprodutos da compostagem da matéria orgânica (resíduos vegetal e animal de maior abundância na propriedade).

Além dos compostos orgânicos, os insumos normalmente utilizados são os biofertilizantes, as caldas bordalesa, viçosa e sulfocálcica, e ainda e as rochas moídas e/ou parcialmente solubilizadas (fosfato natural reativo), incrementando as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo.

Em SAFs, podem ser realizados consórcios na entrelinha. Esta técnica aumenta a matéria orgânica do solo, favorece a ciclagem de nutrientes, abafa plantas invasoras e ainda reduz a perda de água da entrelinha do café.

Além do mais, o plantio de espécies distintas numa mesma área ajuda a corrigir problemas físicos de solo, já que favorece a agregação e a infiltração de água e oxigênio, possibilitando a vida microbiana do solo. A arborização nas entrelinhas também pode auxiliar em casos de geadas, protegendo os cafeeiros.

Composição

Diversas espécies podem ser utilizadas para compor o cafezal em SAF. Para decidir quais, deve-se atentar à utilidade que se quer para a área. O objetivo é apenas sombrear o café ou vamos explorar a madeira e/ou frutos? É essencial um bom planejamento quanto ao espaçamento, manejo das podas e disposição das árvores, mecanização da área, etc.

Quando bem planejado, o sistema deve possuir pouca intensidade de manejo, baixos custos com insumos e demanda de mão de obra reduzida. Em Minas Gerais, um estudo avaliou a produção do café em SAF.

Os resultados indicaram uma produtividade do café reduzida (14 sacas por hectare), que é compensada pelo bom preço obtido na venda do café orgânico (cerca de 10 vezes mais caro do que o café convencional), além de oferecer alimentos mais saudáveis e contribuir positivamente para o meio ambiente.

Além de sustentável, é rentável

Além da responsabilidade ambiental e social, hoje já é consenso que em SAFs há maior qualidade dos grãos cafeeiros, gerando bebidas mais aromáticas e encorpadas e com especificações sensoriais, os chamados cafés especiais.

Por isso, a produção em SAF garante um café com valor agregado de mercado, principalmente para a exportação, segundo informe do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Quando há certificação orgânica, o ganho é ainda maior.

Quanto aos custos, é importante salientar que a regeneração dos macronutrientes do solo gerados pelo SAF permite eliminar a necessidade de adubação. Quanto aos agrotóxicos, o caso é semelhante: em SAFs é comum não haver pragas e doenças num nível de dano econômico, devido à diversidade de espécies que torna o ambiente equilibrado. Ou seja, é possível reduzir os custos com insumos em até 100%.

O rendimento de qualquer plantação é o resultado do potencial genético da semente e das condições do local (clima, solo e manejo). De modo geral, a cultivar é responsável por 50% da produtividade final.

Erros

O plantio de variedades que não são adaptadas à região é um dos erros mais comuns no SAF cafeeiro, por isso, é importante buscar assistência técnica especializada a fim de encontrar a melhor variedade para o local de plantio. Considerando uma vida útil de 20 anos para o cafezal, é indispensável um planejamento orçamentário. 

Um ponto importante na escolha das variedades utilizadas é o zoneamento agroclimático. Esta técnica consiste em indicar variedades específicas para determinados locais, a fim de que as exigências climáticas sejam adequadas para o desenvolvimento das plantas.

O zoneamento do café arábica considera a temperatura média anual entre 18 e 23°C e a deficiência hídrica anual inferior a 150 mm como áreas aptas ao cultivo de café. Estes dados de clima para cada localidade podem ser encontrados no site do INMET.

Para SAFs orgânicos, é interessante buscar cultivares com resistência à ferrugem e/ou nematoides, uma vez que estes problemas representam uma quantia considerável de prejuízo econômico.

Outro ponto de atenção está relacionado às análises de solo. Normalmente esta é realizada na camada mais superficial, até os 20 cm, às vezes até 40 cm. Para plantas anuais é o suficiente, uma vez que suas raízes não se aprofundam, mas para o cafeeiro, uma planta perene que passa décadas num mesmo local, é importante que as recomendações de adubação sejam realizadas levando em conta as camadas mais profundas.

Portanto, é indicado que se faça análise de solo pelo menos até a camada de 40 a 60 cm, procedimento que pode ser muito importante para a produção e resiliência de sua lavoura de café.

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Não se engane

É possível perceber que não existe uma receita de bolo para o plantio do café em SAFs, uma vez que cada produtor terá um objetivo diferente, cada local tem suas peculiaridades, e tudo isso deve ser levado em conta. Portanto, as recomendações podem mudar. Por isso, é importante reiterar a necessidade de conversar com profissionais habilitados antes de realizar investimentos de tempo e dinheiro.

Apesar de ser apresentada como uma nova tecnologia, os SAFs estão consolidados há centenas de anos, como no sistema de caíva (erva-mate, pinhão e gado), por exemplo. É um método que vale a pena para o produtor interessado em garantir uma produtividade sem aporte externo de insumos, contribuir para a sustentabilidade, e ainda produzir cafés de qualidade, com altos valores de mercado.