Como reduzir perdas de nitrogênio no café?

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Alisson André Vicente Campos
Engenheiro agrônomo e doutorando em Fitotecnia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
alissonavcampos@yahoo.com.br
Laís Sousa Resende
Engenheira agrônoma, mestre e doutoranda em Fitotecnia – ESALQ/USP
sialresende@gmail.com
Otávio José de Figueiredo
Engenheiro agrônomo e mestrando em Fitotecnia/Agronomia – ESAL-UFLA
otaviofigueiredo460@gmail.com 

Créditos Shutterstock

A cafeicultura é uma atividade agrícola com alta demanda por fertilizantes nitrogenados, podendo superar os 450 kg ha-1, conforme as análises de solo e de folhas. Em decorrência dessa quantidade, os fertilizantes são aplicados de forma parcelada, isso quando são fontes convencionais, como ureia, sulfato de amônio, nitrato de amônio, MAP e DAP.

As perdas de alguns fertilizantes, como a ureia, podem chegar até a 30%, sendo necessários alguns critérios para a sua aplicação. As condições climáticas adequadas para a aplicar a ureia são importantes, uma vez que as suas perdas são mais elevadas em condições de solo úmido e altas temperaturas, ocorrendo maior volatilização.

A incorporação dos fertilizantes no solo auxilia as reduções de perdas de nitrogênio. Outra opção é o uso de ureia com revestimento para amenizar a volatilização, sendo que inibidores como o NBPT preenchem o sítio da enzima uréase, interferindo na hidrólise da ureia e reduzindo o potencial de volatilização da amônia.

Particularidades

As fontes de fertilizantes nitrogenados têm suas particularidades, indicando seu uso em função das vantagens e também acendendo um alerta quanto as suas limitações. A ureia é a principal fonte de N utilizada na agricultura mundial, variando de 44 a 46% de N.

Apresenta o menor preço dos fertilizantes nitrogenados, porém, pode ter perdas consideráveis por volatilização. As ureias revestidas de polímeros auxiliam na redução da perda, porém, elevam o preço do fertilizante.

O sulfato de amônio tem a vantagem de não sofrer perdas por volatilização. Além de fornecer N (21%) e S (24%), possibilita economizar aplicação extra que seria realizada para o S. No entanto, por ter menores teores de N do que a ureia, seu custo por kg de N sai mais caro.

O nitrato de amônio possui cerca de 34% de N, não apresenta problemas com volatilização, sendo um fertilizante nitrogenado interessante para aplicação sem limitações quanto à necessidade de precipitação e temperatura, como a ureia.

Nitrato x ureia

Embora mais elevado que a ureia, seu preço pode se igualar, se considerarmos as perdas que a mesma pode apresentar. O nitrato de amônio pode sofrer perdas por lixiviação em condições de alta precipitação, porém, bem menores que as perdas que a ureia apresenta por volatilização.

O DAP apresenta cerca de 17% de N e 46% de P, além de menor índice salino em torno de 34. O MAP, por sua vez, tem 11% de N e 50 a 56% de P, também possui baixo índice salino, em torno de 30. A vantagem destes dois fertilizantes é a possibilidade de fornecer P para as plantas.

Opções

Por fim, uma opção interessante para o cafeicultor é o uso de fertilizantes de eficiência aumentada, como os de liberação lenta, que são produtos obtidos pela condensação da ureia com aldeídos, sendo os mais utilizados UF, ureia metileno, IBDU e CDU.

Os fertilizantes de liberação controlada recebem compostos para o recobrimento do grânulo servindo como uma barreira física, controlando a passagem do N, podendo ser fontes como enxofre elementar, resinas plásticas, oligopolímeros entre outros.

Estratégia

A escolha de cada fonte de fertilizante nitrogenado torna-se uma estratégia para amenizar as perdas, visto que a aplicação em condições climáticas adequadas nem sempre é possível. Alguns fertilizantes não apresentam perdas por volatilização, porém, possuem preço mais elevado. 

De toda forma, a redução de perdas de nutriente devido à volatilização, lixiviação e imobilização permitem ganhos quanto à redução da poluição ambiental, lixiviação do nitrato, menor contaminação de águas e redução dos custos de produção.

O uso de fertilizantes de eficiência aumentada traz benefícios, como a aplicação sem parcelamento, redução das perdas por lixiviação e volatilização e distribuição gradual conforme a demanda da cultura ao longo do seu ciclo fenológico.

Manejo

De forma geral, são aplicados em lavouras cafeeiras em torno de 200 a 500 kg ha-1 por ano de nitrogênio, que varia de acordo com a produtividade esperada, sendo divididos em três ou quatro parcelamentos.

Os parcelamentos e o aumento no número destes são interessantes para reduzir as possíveis perdas e aumentar a eficiência de uso desse nutriente. Outra opção é o uso da fertirrigação que permite a aplicação do nitrogênio ao longo do ciclo da cultura.

Produtividade

O manejo sustentável da adubação nitrogenada no cafeeiro é um pilar importante na produtividade, haja vista a influência desse nutriente no crescimento e desenvolvimento da cultura.

Em um experimento de campo na Universidade Federal de Lavras, no período de 2015 a 2016, comparou-se diferentes fontes de nitrogênio na cultura do café. A produtividade variou entre os fertilizantes nitrogenados avaliados.

A maior média foi obtida pelo tratamento ureia + S0 + polímeros, com 48,3 sacas.ha-1. Em seguida, os demais tratamentos seguiram a ordem decrescente: ureia + NBPT (43,6 sacas.ha-1) = ureia dissolvida (42,2 sacas.ha-1) = ureia + polímero aniônico (41,7 sacas.ha-1) = ureia formaldeído (40,7 sacas.ha-1), que foram superiores aos demais tratamentos: ureia convencional (37,3 sacas.ha-1) = sulfato de amônio (37,1 sacas.ha-1) = ureia + polímero insolúvel em água (36,6 sacas.ha-1) = ureia + resina plástica (35,7 sacas.ha-1) = nitrato de amônio (33,4 sacas.ha-1) = ureia + Cu + B (32,7 sacas ha-1).

Em campo

Um estudo conduzido no campo na cultura do café em Lavras (MG) comparou diferentes fontes de N, sendo elas ureia convencional (45% de N) e ureia revestida por polímeros (39% de N).

Foi aplicada a quantidade total de 450 kg.ha-1 de N e quantificadas as perdas. De acordo com os resultados, a ureia convencional obteve perda de 18,5% do total de N aplicado, o que permite inferir que dos 450 kg.ha-1 de N aplicados na forma de ureia convencional, 83,5 kg.ha-1 foram perdidos por volatilização. 

Já a ureia revestida com polímeros teve perda de 10,46% do total de N aplicado, ou seja, 47,1 kg.ha-1 de N. Logo, o uso de fertilizantes de alta tecnologia é uma alternativa interessante para a redução das perdas de nitrogênio e, consequente, maior aproveitamento desse nutriente no sistema.

Além disso, há também redução do tráfego de maquinários na lavoura devido ao menor número de parcelamentos com o uso desses fertilizantes.

Ação e reação

O nitrogênio, quando aplicado no solo, nas suas diferentes formas, amoniacal, nítrico e amídico, apresenta reações distintas quanto a sua solubilização e disponibilidade no solo e absorção pelas plantas, o que o torna um nutriente extremamente dinâmico. 

Devido a essas características, o nitrogênio fica suscetível a perdas como volatilização, lixiviação e desnitrificação. Dentre essas, a volatilização é a principal forma de perda do nitrogênio, considerando que as perdas por volatilização ocorrem quando a aplicação do nutriente é realizada com forma amídica (ureia) devido à ação da enzima uréase que que atua na quebra da ureia em amônia (NH3), composto nitrogenado volátil.

Para o melhor aproveitamento do nitrogênio oriundo da ureia, é recomendado que os fertilizantes formulados com esta fonte de nitrogênio sejam sempre incorporados ao solo ou então aplicados em solos úmidos e com o pH ligeiramente ácido, para que ocorra a formação de amônio (NH4), composto nitrogenado menos volátil.

A desnitrificação é outro processo em que ocorrem perdas do nitrogênio na forma   nítrica (NO3-), sendo que em condições de baixa concentração de oxigênio (O2) em solos compactados e alagados o nitrato é transformado em formas gasosas de nitrogênio (N2, N2O, NO, NO2), o que provoca sua perda para a atmosfera.

Direto ao ponto

Considerando estas possíveis perdas do nitrogênio no solo, várias são as alternativas de manejo para minimizar os problemas no campo, desde manejos simples, como descompactação do solo, correção e controle de acidez, a tecnologias mais avançadas, como a utilização de fertilizantes protegidos capazes de atenuar condições pouco favoráveis à aplicação dos fertilizantes.

Atualmente, estes manejos, aliados às tecnologias aderidas aos fertilizantes, são constantemente utilizados e apresentam resultados positivos na melhoria da eficiência das aplicações nitrogenadas nas lavouras cafeeiras.

Investimento x retorno

Os custos envolvidos na utilização dos fertilizantes protegidos são bem aceitos pelos produtores, principalmente pela comodidade no uso e segurança para as aplicações. Com a tonelada destes fertilizantes de maior tecnologia custando por volta de R$ 7.000,00 a R$ 10.000,00, o investimento é válido, já que nos últimos anos as condições climáticas estão instáveis, o que pode interferir diretamente nas condições ideais para as aplicações convencionais.            

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