20.6 C
Uberlândia
domingo, junho 23, 2024
- Publicidade -spot_img
InícioNotíciasJuros nas alturas: o novo normal e o poder de compras

Juros nas alturas: o novo normal e o poder de compras

Créditos Pixabay

Texto publicado originalmente no Diário de Uberlândia

Pensando estrategicamente
Por Antônio Carlos de Oliveira, Analista de negócios e professor universitário

O juro pode ser compreendido como uma espécie de “aluguel” de dinheiro. A taxa é uma compensação paga pelo tomador do empréstimo para ter o direito de usar o dinheiro até o dia do pagamento. É geralmente expressa em valor anual, ou taxa porcentual anual (TPA). A quantia real que o mutuário paga é determinada pela quantia do empréstimo, chamada “principal”.

A taxa de juro nominal é a taxa que obrigatoriamente deve ser indicada em todos os contratos de crédito ou nas aplicações e corresponde ao período de um ano. Sendo que, é uma remuneração monetária sujeita aos efeitos da inflação, refere-se a um horizonte de tempo.

A taxa efetiva poderá ser definida como taxa equivalente, desde que, pelo menos uma seja referida ao período de capitalização efetivamente praticado, assim a taxa efetiva anual, num processo de capitalização dos juros, referente aos períodos de tempo em que o tempo global (ano) foi subdividido (mensal, trimestral, semestral, etc.), para efeito de cálculo dos juros. Em finanças, curva a termo ou curva da taxa de juros é a relação entre a taxa de juros (ou custo do empréstimos).

Na prática, essa relação mostra como o mercado apreça o risco: em geral, para emprestar dinheiro por um prazo mais longo, o investidor exige um juro maior, e a curva vai mostrar exatamente isso.

Reflitam comigo: Empreendedores e investidores têm muito em comum. Suas características se cruzam em vários momentos de suas carreiras e, por isso, muitos empreendedores são investidores e vice-versa. Uma coisa pode levar à outra. A diferença básica entre um empreendedor e um investidor é em que lugar cada um atua e quais são suas funções.

Via de regra, empreendedor é aquele que empreende, seja abrindo um negócio, tirando uma ideia do papel, tendo atitudes empreendedoras no ambiente de trabalho ou em casa, persiste e se torna um grande homem de negócios.

O investidor busca maneiras de fazer o seu dinheiro crescer por meio de investimentos e para isso existem várias formas, tudo vai depender do perfil investidor de cada um. Atualmente, além das maneiras mais comuns de investimento, os investidores podem aportar quantias nas startups para impulsionar o crescimento de uma boa ideia que precisa de dinheiro.

A Sigla para “Special Purpose Acquisition Company” (Spacs) são uma maneira de encurtar distâncias entre empreendedores e investidores. Resumidamente, vários investidores se reúnem e injetam (muito) dinheiro em uma Spac. O capital fica, então à espera de uma oportunidade. É uma inversão do processo em que um sujeito (empreendedor), tem uma ideia brilhante e vai procurar quem o financie.     

Nos tempos da liquidez elevada da pandemia, as Spacs dominaram o mercado. Apenas nos Estados Unidos, ocorreram mais de 600 operações só em 2021, que movimentaram 368 bilhões de dólares. Em 2022, porém, boa parte da euforia se dissipou, o volume minguou, caindo para 59,86 bilhões de dólares. E apesar de fazer previsões ser um negócio arriscado, podemos ter um razoável grau de certeza que o número de 2023 será ainda menor.          

Por que as Spacs serão uma das melhores representações da euforia financeira? De um ponto de vista tradicional, não faz sentido captar dinheiro apenas para procurar alguma oportunidade. O capital tem custo de oportunidade e seu uso deve ser definido com critério e cautela. Porém, a abundância de liquidez e os juros perto de zero (ou negativos) em várias economias desenvolvidas subverteram essa lógica. Se o dinheiro é tão abundante que não custa nada, qualquer alternativa faz sentido. Mesmo uma rentabilidade de 0,5 por cento ao ano é melhor do que zero. Então, uma Spac fazia sentido.  

Assim como as Spacs foram a melhor interpretação da euforia, a atuação dos bancos centrais que começou em 2022 e prossegue neste ano é a melhor imagem do fim de uma época. No início de 2022, os juros americanos estavam em zero. No início de 2023, o piso da faixa dos Fed funds (Ff) era de 4,25 por cento ao ano. Na quarta-feira (01/02), o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, elevou os juros em 0,25 ponto percentual. E os investidores se animaram bastante com a perspectiva de que haja “apenas” mais um aumento de 0,25 ponto percentual, em vez do 0,50 ponto percentual previsto no início do ano.

Essa movimentação dos bancos centrais visa conter a inflação. O excesso de dinheiro em circulação, um movimento de “desglobalização” decorrente da pandemia e da ascensão de movimentos nacionalistas e protecionistas – sem falar na guerra da Ucrânia – pressionou os índices de preços aos níveis mais altos em quatro décadas. Isso não ocorreu na primeira década deste século devido aos fortes aumentos de produtividade e ao fato de que o efeito riqueza foi canalizado para ativos financeiros e itens de consumo. Imóveis e obras de arte, sem falar nas empresas, atingiram valores recordes.

Pensando estrategicamente: Agora, os preços saíram de controle e obrigaram os banqueiros centrais a colocar em prática as tarefas desagradáveis do seu dia a dia: elevar os juros e desacelerar a economia, para preservar o valor da moeda no longo prazo – contendo a tendência altista dos índices da inflação.        

Isso deverá mudar a estratégia de investimentos de maneira profunda e estrutural. Há 20 anos a estratégia básica de nove entre dez gestores de recursos era comprar qualquer ativo que parecesse barato. Se as promessas não se confirmassem, bastava apenas esperar um pouco. No fim do processo, quase tudo ia subir de preço e justificar a estratégia (e o bônus por desempenho).  

Antônio Carlos de Oliveira/Reprodução

Esse mundo tranquilo em que qualquer sobressalto no mercado era um ponto de compra acabou. Agora, o capital passou a ser mais escasso, mais caro e mais importante para empresas e investidores. Mesmo boas empresas podem definhar e perecer por escassez de recursos. Agora será preciso mostrar bons resultados, além de boas intenções. Ou, resumidamente: uma apresentação em PowerPoint com belas imagens não terá tanto impacto nas decisões quanto um demonstrativo de dinheiro entrando (fluxo de caixa), fruto das atividades da empresa.

A partir de agora, investir seu dinheiro tornou-se um assunto mais sério e com menos espaço para subjetividade e risco. 

ARTIGOS RELACIONADOS

Produtores aprovam Plano Safra mas questionam taxas

A ORPLANA, que representa as associações de produtores de cana no Brasil, reforça a necessidade da equalização de juros

Impacto da instabilidade política e fiscal na inflação, juros e incertezas sociais

Leia a coluna Pensando Estrategicamente, por Antônio Carlos de Oliveira.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!