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Biológicos no sulco de plantio do milho safrinha

A inserção de biológicos no sulco de plantio do milho safrinha é a promessa de uma aliança natural, onde microorganismos trabalham em sintonia para impulsionar a colheita.

Cláudia Regina Dias-Arieira
Doutora e professora – Universidade Estadual de Maringá (UEM)
crdarieira@uem.br

O produtor deve usar o equipamento adequado para aplicação via jato dirigido
Foto: Orion

Os problemas ocasionados por nematoides da agricultura nacional têm sido crescentes a cada ano. Em 2022, um levantamento realizado pela parceria entre Agroconsult, Syngenta e Sociedade Brasileira de Nematologia, apontou perdas superiores de R$ 60 bilhões nas diferentes culturas cultivadas no Brasil, sendo R$ 27,7 bilhões somente na cultura da soja.
Para o milho, o cenário não é muito diferente, visto que a cultura pode acumular um prejuízo de R$ 110,3 bilhões nos próximos 10 anos se o produtor não adotar o manejo correto.
Este mesmo levantamento apontou que, no Cerrado, os principais nematoides associados ao milho são Pratylenchus spp., presente em 80,67% das áreas amostradas, e Helicotylenchus dihystera, em 42,31%, enquanto no Sul são Pratylenchus spp., presente em 67,74% das lavouras de milho estudadas, seguido de Meloidogyne spp., em 58,77% e H. dihystera, em 49,26%.
Estes números mostram a importância do monitoramento e correto manejo destes organismos.

Monitoramento

Aqui, um ponto relevante a ser considerado antes do manejo consiste no levantamento e monitoramento das populações de nematoides. Tais atividades são de suma importância para entender como as práticas de manejo adotadas estão interferindo nas populações de nematoides.
O levantamento consiste na análise inicial, a fim de conhecer as espécies presentes na área, bem como as populações que prevalecem sobre as outras. É com base no levantamento que o consultor especializado fará o planejamento para o manejo de nematoides.
Após implantar o sistema de manejo, faz-se necessário o monitoramento da área, pois flutuações populacionais das espécies são comuns em áreas infestadas com nematoides, ou seja, o sistema de cultivo adotado pode promover a redução de uma espécie, mas aumentar outra.
O levantamento e o monitoramento de nematoides é feito com base em análises laboratoriais, realizada por equipe especializada no assunto, sendo que todas as etapas: coleta de solo e raiz, armazenamento e transporte deverão ser feitas por pessoas treinadas ou por uma equipe assistida ou instruída para isto.

Pilar do agro

O controle biológico é um dos pilares que sustenta o manejo integrado de nematoides. Para manter as populações de nematoides abaixo do potencial de dano, faz-se necessário integrar as principais práticas de manejo como biológico, genético, químico e cultural.
Destes, sem dúvidas, o controle biológico foi o método que mais cresceu na última década e estima-se que o mercado fique ainda mais aquecido nos próximos anos. Isto se deve aos avanços nas formulações, no número de produtos oriundos de diferentes cepas registradas junto ao MAPA e, principalmente, aos resultados observados no campo em áreas manejadas com bionematicidas.
Os bionematicidas são formulados principalmente à base de fungos, incluindo Paecilomyces lilacinus (=Purpureocillium lilacinum), Pochonia chlamydosporia e Trichoderma spp., e bactérias, com destaque para as inúmeras espécies/cepas de Bacillus.

Para o milho safrinha

Apesar da elevada adoção do controle biológico de nematoides na cultura da soja, o milho segunda safra ainda tem sido negligenciado. No entanto, o controle de nematoides nesta cultura é tão importante quanto a proteção da soja.
Ambas as culturas são suscetíveis a nematoides de alto impacto para a agricultura, como Meloidogyne incognita, M. javanica, Pratylenchus brachyurus e Helicotylenchus dihystera.
Como o manejo de nematoides reduz, mas não elimina a população, os nematoides que sobrevivem ao manejo na soja aumentam de forma substancial na cultura do milho. Desta forma, hoje tem-se a primícia de que todas as plantas suscetíveis a nematoides que entram no sistema de produção devem ser tratadas com nematicidas.
Neste contexto, as pesquisas realizadas para o manejo de nematoides no milho têm indicado reduções de 50 a 75% na população de P. brachyurus nos primeiros 75 dias após a aplicação e de 60 a 85% para os nematoides M. incognita e M. javanica.
Em ambos os casos, nota-se um pico de controle nos primeiros 40 a 45 dias após a semeadura, que tende a reduzir nas análises subsequentes. Vale ressaltar que este comportamento (controle superior nas análises iniciais) é comum e esperado, visto que os organismos nativos de cada solo são altamente adaptados às condições em que vivem e, desta forma, tendem a competir com os organismos introduzidos no controle biológico por espaço, nutrientes, água, oxigênio, entre outros fatores.
Porém, a elevada proteção conferida nos estádios iniciais de desenvolvimento da planta garantem a formação de um sistema radicular vigoroso e que poderá ser o determinante do ganho de produtividade.

Mais que controle

É importante lembrar que os nematicidas biológicos vão além de controlar o parasita, eles podem beneficiar o solo e a planta de diferentes formas, visto que os produtos registrados como bionematicidas podem desempenhar diferentes papeis, participando da decomposição de matéria orgânica, reciclagem de nutrientes, agregação de partículas do solo, entre outros benefícios.
Soma-se a isto o fato de que algumas cepas de microrganismos usados no controle de nematoides são, muitas vezes, indutores de resistência de plantas a diferentes estresses e promotores de crescimento vegetal, além de, em alguns casos, melhorar a absorção de nutrientes como fósforo e potássio.
Não obstante, nota-se que as plantas tratadas com bionematicidas apresentam melhor retenção de cotilédones (quando jovens) e de folhas do baixeiro (no período de senescência) e maior uniformidade de estande.
Ainda, é comum que as plantas tratadas com nematicidas biológicos mostrem tolerância a estresse hídrico e nutricional superior àquelas não tratadas, além de melhor recuperação pós estresses.

Resultados

A máquina aplicando e o produto caindo na semente
Foto: Orion

Como já mencionado, os resultados do controle biológico de nematoides na cultura do milho são excelentes, tanto para a aplicação via sulco de semeadura quanto tratamento de sementes.
Contudo, uma das grandes vantagens de realizar o tratamento em sulco de plantio consiste no fato de não ser necessário retratar a semente na propriedade. Por outro lado, para a adoção desta técnica, faz-se necessário adquirir um equipamento adequado para aplicação via jato dirigido.
O tratamento biológico no sulco de semeadura do milho traz outras vantagens ao sistema produtivo, incluindo a proteção das cultivares. Sabe-se que, até o momento, o mercado não dispõe de cultivares de milho com resistência a nematoides e tem-se trabalhado com os materiais genéticos com menor fator de reprodução.
Ainda assim, é importante estar atento ao fato de que as populações de nematoides vão variar entre si quanto à agressividade e, desta forma, a performance da cultivar ou híbrido de milho será variável no campo quando colocada em diferentes áreas.

Não se engane

É praticamente impossível saber qual será a real resposta do genótipo frente a determinada população de nematoide e, por isso, proteger a cultivar é primordial para garantir o controle das populações mais agressivas.
Neste contexto, o produtor pode optar pela proteção com nematicidas químicos ou biológicos, porém, deve se lembrar que os nematicidas químicos precisam ser registrados para o nematoide alvo e para a cultura, enquanto os biológicos têm como vantagem o fato de serem registrados apenas para o alvo biológico.
Desta forma, um produto com registro para o controle de uma determinada espécie de nematoide na soja poderá também ser usado no milho, desde que o alvo biológico seja o mesmo.

Quanto custa?

Os custos para a aplicação de nematicidas biológicos via sulco de semeadura no milho é bastante variável. No mercado, é possível encontrar valores variando de próximo R$ 60,00 a mais de R$ 200,00 por hectare.
Tais variações se devem a diferentes fatores, incluindo concentração do agente ativo, formulações e doses recomendadas. Aqui, alertamos para alguns cuidados no momento de adquirir e usar o produto para o tratamento via sulco de semeadura, sendo de suma importância optar por produtos com registro no MAPA, respeitar a dose e o volume da calda indicados na bula (mesmo que o técnico ou consultor recomende doses menores ou maiores àquelas registradas), atentar-se aos riscos de incompatibilidade com outros tratamentos e preferir produtos oriundos de empresas que oferecem assistência técnica e acompanhamento da área.

Cuidados

O uso de biológicos via sulco requer alguns cuidados especiais no que tange solo e clima. A textura do solo pode interferir na profundidade de deposição e na redistribuição do produto após a aplicação.
Por isso, é importante a escolha correta de bicos e da pressão utilizada, lembrando que o produto deverá estar depositado bem próximo à semente, para que o agente de biocontrole possa ter vantagem competitiva frente ao nematoide na região da rizosfera logo que as primeiras raízes emergirem.
Além disto, a temperatura e a umidade do solo podem ser fatores cruciais para o estabelecimento destes microrganismos. Alguns bionematicidas são comercializados na forma de esporos de resistência e podem ter vantagens, quando aplicados em solo seco, como a semeadura “no pó”.
Por outro lado, outros organismos são mais sensíveis ao estresse de altas temperaturas e baixa umidade, mesmo que a eficiência agronômica seja incontestável. Desta forma, um dos fatores que pode minimizar as chances do insucesso no controle biológico é a presença de palhada no solo, a qual forma uma camada na superfície, protegendo do aquecimento da camada superficial do solo, bem como da perda excessiva de umidade.
Soma-se a isso o fato de que muitos agentes de controle biológico de nematoides são saprófitas no solo, principalmente os fungos, e beneficiam-se da matéria orgânica ali presente.

Benefícios à sucessão soja-milho

Para concluir, devemos lembrar que o milho segunda safra é uma de suma importância para a economia do país, e que traz inúmeros benefícios ao sistema de sucessão soja-milho, mas apresenta a limitação de ser suscetível a algumas espécies de nematoides importantes para a soja.
Apesar de ser uma cultura muitas vezes considerada tolerante aos nematoides, têm sido observadas perdas crescentes de produtividade em áreas com alta infestação e, não obstante, a cultura promove a manutenção e o aumento nos níveis populacionais destes parasitas, que certamente trarão reflexos negativos na soja cultivada na sequência.
Desta forma, o tratamento do milho segunda safra com nematicidas biológicos deve ser uma realidade para o produtor, sendo a aplicação via sulco uma das formas proteger a cultura, além de melhorar a produtividade da cultura e a biologia do solo.

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