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quinta-feira, abril 18, 2024
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Cancro cítrico asiático é alerta para os pomares brasileiros

O cancro é uma ameaça real aos pomares brasileiros.

Harleson Sidney Almeida Monteiro
harleson.sa.monteiro@unesp.br
Sinara de N. Santana Brito
sinara.santana@unesp.br
Engenheiros agrônomos e mestrandos em Agronomia/Horticultura – UNESP
Antonia B. da Silva Bronze
Doutora em Agronomia e professora – Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)
antonia.silva@ufra.edu.br

Diversas doenças atacam as plantas de espécies frutíferas e seus frutos, do nível baixo ao alto de severidade e danos econômicos, como é o caso do cancro cítrico asiático, conhecido como cancrose A.
Esta é uma das doenças de maior importância no mundo, das que ocorrem em plantas frutíferas cultivadas, como os citros.
É uma doença bacteriana (Gram-negativa), pertencente ao grupo das gama proteobactérias aeróbicas, tendo como agente causal o Xanthomonas citri subsp. Citri (sin. Xanthomonas axonopodis pv. Citri, X. campestres pv. citri). Ocorre em várias regiões do mundo, como: sudoeste da Ásia, África, América do Norte, América do Sul e outras.

Tipos de cancro

A partir de estudos, a literatura registra cinco tipos de cancro cítrico, que se diferenciam pelos sintomas, severidade e patogenicidade em diferentes hospedeiros, listados na Figura 1.

Figura 1. Tipos de cancro cítrico que afetam a cultura dos citros.

Fonte: Adaptado de Zambolim et al., 2022.

Sintomas

Os principais sintomas da doença têm ocorrência em número considerado de espécies, híbridos e variedades de Citrus e gêneros afins. São encontrados na parte adaxial e abaxial das folhas, na superfície dos ramos e frutos, apresentando características similares dos sintomas da doença nas diferentes partes da planta.
Os sintomas aparecem na fase de colonização do patógeno. No geral, todos os órgãos da planta que estão situados na superfície do solo são afetados pelo patógeno, tendo como porta de entrada quaisquer ferimentos (abertura) no tecido da planta (Figura 2), que são advindos de aberturas naturais, a exemplo os estômatos.
Os sintomas ficam visíveis a partir da infecção de duas a cinco semanas.

Figura 2. Processo de infecção e colonização da planta de citros, pelo cancro cítrico.

Fonte: Adaptado de Manual de Fitopatologia, 2016; Fundecritus, 2017; por Monteiro, 2023.

Sintomas

Os sintomas podem ser vistos nas folhas das plantas de citros, que apresentam lesão (erupções), tornando-a ‘ligeiramente saliente nas duas faces, puntiformes e com coloração creme ou parda, que vão se tornando mais pardas com o passar do tempo e o avanço da doença, evoluindo e sendo circundadas por um halo amarelado.
A doença pode atingir, nas folhas, um raio de 10 mm de diâmetro nas variedades e espécies de citros suscetíveis à doença, como mostra o Quadro 1.

Quadro 1. Níveis de resistência e suscetibilidade ao cancro entre os citros.

Fonte: Adaptado de Fundecitrus, 2017.

As lesões (ferimentos) nos ramos normalmente são encontradas em variedades consideradas de alta suscetibilidade à doença, e são menos frequentes à doença nos ramos quando comparadas às outras partes da planta.
Contudo, dependendo o nível de coalescência da lesão no tecido, de formato irregular e de maior área de infecção, ocasionam rachaduras que dificultam o seu desenvolvimento e a morte do ramo.
Os frutos se tornam suscetíveis à doença no intervalo de 60 e 90 dias, a partir da queda das pétalas. Os sintomas da doença nos frutos são semelhantes aos apresentados nas folhas, diferenciando no diâmetro de infecção da doença, que pode ser maior, corticosa, com fissuras e em forma de anéis concêntricos.
Uma vez os frutos afetados, dificilmente eles completam o ciclo de maturação, pois acabam caindo da planta antes de atingirem a fase de maturação.

Ciclo

O ciclo do cancro cítrico é estruturado em quatro etapas/fases, que estão relacionadas com: a chegada da bactéria ao pomar, os danos às plantas e a continuidade da doença na área, como mostra a Figura 3.

Figura 3. Ciclo de disseminação do cancro cítrico na cultura dos citros.

Fonte: Adaptado de Manual de Fitopatologia, 2016; Fundecritus, 2017; por Monteiro, 2023.

Transmissão

O fator mais importante para a disseminação e transmissão da doença entre as plantas é a água. Os ferimentos aumentam a chance da infecção por um período de quatro a seis semanas.
A condição ideal de infecção está na faixa de temperatura entre 25 e 30°C e na presença de lâmina de água na superfície das folhas. É importante ressaltar que a doença, apesar de não ocasionar a morte da planta, as lesões e seu grau de severidade podem levar à morte dos ramos e diminuição da produção das plantas.
Os fatores umidade e temperatura são condições ideais para a disseminação do cancro cítrico. Então, pomares de citros que são cultivados em regiões de clima quente e úmido estão mais vulneráveis à infestação da doença.

Instalação da doença

As regiões de clima tropical e subtropical são de maior adaptação e alta produtividade da cultura dos citros, no entanto, é também ideal para a instalação do cancro cítrico, devido às altas temperaturas e precipitação no mesmo período, que ocorre entre a primavera e o verão.
Tal fato torna, no Brasil, as regiões norte, nordeste, centro-oeste e sudeste as mais propícias a surtos de cancro cítrico, pelas condições climáticas que apresentam. Na Figura 4 é possível observar o nível de suscetibilidade do cultivo de citros em cada região do país ao longo dos meses.

Figura 4. Regiões do Brasil e o nível de suscetibilidade ao cancro cítrico ao longo do ano.

Fonte: Adaptado de Fundecitrus, elaborado por Monteiro, 2023.

Pelo Brasil afora

O Estado de São Paulo é considerado o polo citrícola do Brasil. A região oeste e noroeste do estado são, historicamente, as mais propensas à doença do cancro cítrico, principalmente nos meses de outubro a março, influenciada pelas altas temperaturas e precipitação que se acumulam na região nesse período, que aumentam as condições de infecção das plantas pela doença.
Os Estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina apresentam condições adversas ao ciclo de desenvolvimento da doença, devido principalmente às baixas temperaturas ao longo do ano, contribuindo para um pequeno raio de extensão de plantas infectadas.
A partir do ano de 2022, a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) intensificou em seu território medidas e ações de fiscalização para evitar a entrada do cancro cítrico, que é uma praga quarentenária no estado.


O Pará é detentor do Status Sanitário de Área Livre do Cancro Cítrico. E conta com um importante parque citrícola distribuído em dois Polos, frutos do Decreto Estadual nº 1943 DE 21/12/2017, que estão situados nas regiões nordeste e oeste do estado do Pará, que são polos de produção focados em atender tanto ao mercado interno quanto externo e produtos para exportação, sendo uma realidade da produção local.
Outra importante ação de contenção à doença que também tem ocorrido desde o ano de 2022, pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), são as ações de vigilância fitossanitária na região do Vale do Ribeira, com o intuito do reconhecimento como Área Livre de Praga (ALP) – Cancro Cítrico, que trará a possibilidade de ampliação do mercado para os frutos citros que são produzidos na região.

Alerta

O cancro cítrico é considerado uma doença de elevado risco econômico para o mercado e a indústria citrícola, devido a impor restrições no trânsito de frutos, limitar o comércio e materiais propagativos, que servem para produzir novas plantas e aumentar a produção.
Por ser uma doença de patologia de difícil controle, as consequências econômicas à indústria citrícola são inúmeras, como eliminação de plantas, redução drástica da produção de frutos, além de limitar o uso dos cultivares altamente suscetíveis à doença, como as variedades precoces.

Diagnóstico

Existem diversas metodologias para diagnóstico visando identificar o cancro cítrico, de acordo com o Fundecitrus. Em campo, a doença pode ser confirmada em material de amostras de folhas, ramos e frutos, pelo reconhecimento dos sintomas atípicos por meio da comparação.
Não sendo possível essa identificação, aplica-se o teste sorológico, que ocorre com a utilização de bolsa plástica, solução tampão e fita específica para detecção da bactéria, tendo o resultado em poucos minutos.
Esse material pode ser utilizado em campo e no laboratório, pois não exige infraestrutura e treinamento, permitindo que o produtor ou responsável pelo pomar identifique a infecção do cancro cítrico nas plantas da área.

Controle

Diversas ações e medidas de prevenção para controlar o cancro cítrico são desenvolvidas, com base nas recomendações feitas pelo Fundecitrus.

Figura 5. Medidas e estratégias de prevenção e controle do cancro cítrico em pomares de plantas de citros.

Fonte: Adaptado de Fundecitrus; Zambolim et al., 2002; Manual de Fitopatologia, 2016; Elaborado por Monteiro, 2023.

1 – Uma das medias de prevenção é a obtenção de mudas sadias, pois estas são um meio muito rápido e eficiente de disseminação do cancro cítrico. É recomendada a compra de mudas de citros certificadas, produzidas em viveiros registrados, como a primeira medida de controle para a formação de um pomar de citros saudável.
2 – A utilização de variedades e espécies de plantas de citros resistentes ou menos suscetíveis à doença é a medida de prevenção e controle com menor custo e de maior eficiência. Vale ressaltar que todas as espécies e variedades comerciais podem ser afetadas pelo cancro cítrico, o que faz a diferença é o grau de suscetibilidade entre os citros para a doença.
3 – É uma medida essencial em pomares que produzem fruta para mesa. Quando a fruta é destinada à produção de suco, o uso de quebra-ventos tem maior importância em pomares de variedades mais suscetíveis ao cancro cítrico.
4 – A aplicação de cobre não previne a entrada da bactéria no pomar. Esta medida ajuda a reduzir a quantidade de sintomas nas plantas e a queda de frutos. As aplicações podem ser realizadas utilizando 40 a 50 mg de cobre metálico/m3 de copa até atingir 1,0 kg de cobre metálico/ha.
O volume de calda pode variar de 40 a 70 mL/m3 de copa. Em pomares jovens, que ainda não estão em produção, as aplicações devem ser realizadas durante a primavera e verão sempre que houver brotações, ou a cada 21 dias. Em pomares em produção, as aplicações devem ser realizadas a cada 21 dias durante 120 dias a partir da floração, até os frutos atingirem 50 mm de diâmetro, aproximadamente.
5 – O minador dos citros (Phyllocnistis citrella) é um inseto que provoca ferimentos na planta, principalmente nas brotações, e abre entradas para a penetração da bactéria do cancro cítrico. O controle deste inseto deve ser feito preventivamente, com inseticidas à base de abamectina, quando as plantas apresentam brotações. Inseticidas neonicotinoides, normalmente utilizados para o controle de Diaphorina citri, em plantas de até três anos, também promovem o controle de adultos do minador.
6 – Os ingredientes ativos mais estudados, com ação comprovada como indutores de resistência sistêmica adquirida para o controle do cancro cítrico, e com registro comercial para a cultura de citros no Brasil, são os neonicotinoides imidacloprido e tiametoxam.
Plantas tratadas com indutores se tornam mais resistentes e dificultam a colonização da bactéria causadora do cancro cítrico e a formação de lesões da doença.
Faz-se necessário, como estratégia para prevenção da doença, o controle do acesso de pessoas e veículos nos pomares. Instalação de ‘bins’, desinfestação de equipamentos e máquinas e inspeções dos pomares continuam sendo importantes. Em alguns pomares, a doença poderá levar anos para chegar, ou não ser disseminada naturalmente com facilidade.

Controle curativo

Como medida de caráter curativo, podem ser adotadas duas ações, como:

  1. A erradicação de plantas (e aquelas vizinhas), com remoção e queima, como é feito no estado de São Paulo e na Flórida/EUA;
  2. Tratamento químico com pulverização de plantas infectadas, com produtos à base de cobre, principalmente na época do surto de crescimento primaveril, como ocorre na Argentina e no Brasil.
    Essa atenção ao controle da doença do cancro cítrico na cultura dos citros é devido à citricultura ser uma atividade de grande importância socioeconômica em todas as regiões de cultivo.
    De maneira geral e enfática, a única medida de controle é a inspeção constante e a eliminação de plantas contaminadas e daquelas consideradas suspeitas dentro de um determinado raio de plantas infectadas.
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