Melhoramento genético do cedro australiano

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Cedro australiano e melhoramento genético: confira no artigo qual o motivo da escassez do cedo australiano, a evolução da árvore, a variabilidade genética e outras informações.

Por Lucas Rodrigues Rosado

Engenheiro florestal e doutor em Genética e Melhoramento de Plantas – Universidade Federal de Lavras (UFLA)

lucasrosado@yahoo.com.br

Cedro / Créditos: Lucas Rosado

Quando se observa uma mobília ou uma estrutura decorativa de interior de residências e lojas, construídos em mogno (Swietenia macrophylla) ou em cedro (Cedrela fissilis), o que se vê é uma excelente qualidade da grã e um acabamento que realça a beleza destes, pela exibição das belas cores da madeira e da união harmônica dos seus diferentes componentes de montagem.

Muitas pessoas sabem o preço e qual é a origem dessas madeiras, mas poucos sabem o motivo de sua escassez, ou por que o mogno e o cedro não são reflorestados com o objetivo de exploração comercial de suas madeiras, que no mercado assume valores inacessíveis à maioria da população. 

A resposta

Essas espécies de meliáceas, com ocorrência predominante na América do Sul e Central, apresentam altas taxa de crescimento. Mas, infelizmente, elas são fortemente atacadas pela lagarta Hypsipyla grandella (Lepidoptera: Pyralideae) que, em condições de monocultivo, constrói galerias no interior dos ramos, principalmente no ápice.

Esse dano promove uma redução na taxa de crescimento da árvore e a perda da dominância apical do tronco, fazendo com que ele se ramifique intensamente e tenha o seu valor comercial drasticamente reduzido.

Situações semelhantes têm sido registradas para o cedro australiano (Toona ciliata), que quando cultivado na sua região de origem sofre recorrentes ataques da lagarta Hypsipyla robusta. A mencionada preferência por hospedeiros distintos é, portanto, a maior diferença entre H. grandela e H. robusta.

Evolução do mogno e cedro

A partir desse fenômeno, na década de 70 estabeleceu-se a hipótese de que uma inversão na procedência de propágulos, para condução de monocultivos dessas espécies, poderia produzir árvores livres do ataque desses lepidópteros.

Assim, espécies de mogno e cedro poderiam ser cultivadas fora das Américas e livres dos ataques da H. grandela e, por outro lado, o cedro australiano poderia ser cultivado nas Américas livre dos ataques da H. robusta.

Com isso, as evidências para o sucesso de cultivo da T. ciliata nas Américas em substituição aos cultivos de mogno e cedro foram realçadas. No Brasil, principalmente na região sudeste, o crescimento e desenvolvimento do cedro australiano em plantios puros e equiâneos tornou-se promissor, por alcançar uma produtividade que viabiliza os empreendimentos florestais com a referida espécie.

Para o contexto anteriormente apresentado, o programa de melhoramento genético do cedro australiano, conduzido pela Bela Vista Florestal em Campo Belo (MG), envolveu a seleção de genótipos superiores feita em testes genéticos de procedências/progênies e clonais, instalados em condições ecológicas do sudeste brasileiro.

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Variabilidade genética

Para garantir uma amostragem que resgate a maior variabilidade genética possível, as procedências e progênies foram constituídas a partir de sementes de polinização livre e devidamente colhidas na origem, priorizando árvores matrizes localizadas nos Estados Australianos de Queesland e New South Wales e selecionadas pelo Australian Tree Seed Centre.

Assim, o referido programa de melhoramento genético teve o objetivo de obter materiais genéticos de qualidade, que possam produzir árvores produtivas e de qualidade, para viabilizar o cultivo de cedro australiano em condições brasileiras.

Execução e condução dos testes genéticos

Nos programas de melhoramento florestal, em suas fases iniciais, é fundamental a redução do tempo para se alcançar os ganhos genéticos nas plantações comerciais. Esses ganhos, mesmo que alcançados em períodos de tempo relativamente curto, necessitam ser em magnitudes suficientes para que os empreendedores possam ser atendidos em suas expectativas de retorno econômico.

No contexto da redução de tempo, para atingir o grau de melhoramento pretendido, a Bela Vista Florestal, localizada em Campo Belo, fundamentou o seu programa de melhoramento genético do cedro australiano em três ações distintas, conduzidas a partir de 2006.

A primeira ação, já concluída, foi a busca de sementes em origens australianas, localizadas nos estados de Queensland (QLD) e New South Wales (NSW). Nessa ação amostrou-se 16 populações distintas com amplitude de ocorrência natural nas latitudes compreendidas entre 12º33’ S (origem de Pascoe River – QLD) e 34º38’ S (origem de Kangaroo Valley – NSW), sendo que, no Brasil, a primeira e segunda latitudes correspondem às da Chapada Diamantina (Ba) e Chuí (RS), respectivamente.

Tal magnitude de variação geográfica visou a abrangência de importantes variações clonais e ecotípicas para instalar, em condições brasileiras, a primeira população base ex-situ e o primeiro teste de procedências/progênies/indivíduos.

Após a conclusão dessa primeira ação, iniciou-se a segunda ação, conforme representação da rota 1 na figura 1. Essa rota, já concluída, refere-se ao melhoramento de curto prazo, que propiciou a seleção de 60 indivíduos superiores (ortetes) em termos de forma do fuste apropriada para serraria, fitossanidade, dimensões fenotípicas de DAP e de seus valores genotípicos totais.

Registros

Após a seleção, em testes clonais desses indivíduos, procederam-se os registros e proteções de seis cultivares junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

O registro dessas cultivares estão identificados com os números 31617, 31618, 31616, 31615, 31614, 31613 e são comercializados com os códigos BV1110; BV1120; BV1121; BV1151; BV1210; BV1321 para a formação de plantações comerciais melhoradas.

Na rota 2 (figura 1) ainda em execução, espera-se que dessas 60 ortetes selecionadas se possa obter pelo menos 40 clones para serem incorporados aos futuros testes clonais a serem instalados em pelo menos cinco regiões bioclimáticas brasileiras distintas.

As 60 ortetes selecionadas, representação de uma delas na figura 2, foram abatidas para proceder a coleta de suas brotações de copa e condução de enxertias e a coleta de brotações de cepas para produção de clones. As plantas enxertadas constituirão os pomares de polinização controlada para a produção de híbridos intraespecíficos (entre origens australianas) e gerações avançadas de melhoramento genético. A figura 3 mostra um jardim clonal constituídos de mini cepas produzidas por mini estaquia.

Tanto os híbridos quanto os clones gerados pelas brotações de cepa serão testados em diferentes condições brasileiras para, assim, obter a primeira geração de progênies de irmãos completos e a segunda geração de clones comerciais.