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Raiz rosada na cebola: estratégias para identificação e manejo

Crédito: Hortas Biológicas

Orlando Gonçalves Brito
Engenheiro agrônomo, doutor em Produção Vegetal, especialista em Produção e Melhoramento de hortaliças e pesquisador – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
orlandocefet@yahoo.com.br

A cebola (Allium cepa) é uma das principais hortaliças tuberosas cultivadas no Brasil, sendo utilizada principalmente na forma condimentar. Diversas doenças afetam a cultura, destacando-se aquelas doenças de origem fúngica.

Conforme a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), somente no Brasil já foram identificadas mais de 25 doenças ocasionadas por fungos na cebola. Dentre estas, a raiz rosada é uma das mais relevantes, causada pelo fungo mitospórico Setophoma terrestris.

A doença ocorre em todas as regiões do Brasil, todavia, é mais frequente nas regiões mais quentes do País. No caso da região sul, a doença ocorre durante os períodos mais quentes. Apesar de ser identificada em todos os estádios de desenvolvimento da cultura da cebola, os sintomas são mais graves em plantas adultas próximas de serem colhidas.

Identificação do fungo

Os sintomas da doença são similares às deficiências de nutrientes, estresse hídrico ou mesmo ocorrência de outras doenças foliares. Isto ocorre especialmente pelos danos que ocorrem nas raízes, que consequentemente reduzem a absorção de água e nutrientes.

Outro problema comum durante a diagnose da doença é que os agricultores e técnicos confundem os sintomas com o ataque de Fusarium spp., cujos sintomas são similares, porém, com manejo e controle distintos.

Crédito Embrapa

Assim, a identificação da raiz rosada, muitas das vezes, é complicada, o que exige técnicas mais apuradas para o diagnóstico da doença. Este diagnóstico deve ser feito em plantas fisiologicamente ativas, em pleno crescimento e desenvolvimento.

Principais sintomas

De acordo com a Embrapa, o primeiro ponto a ser observado é a coloração rosada das raízes, visualizadas especialmente em plantas com sintomas inicias de senescência ou murcha precoce.

Posteriormente, essa coloração evolui para púrpura, parda e preta, dependendo da severidade da doença e da época de infecção. Sob condições de solos ácidos, é possível que as raízes fiquem amareladas.

À medida que os sintomas evoluem, as raízes tornam-se enrugadas e acabam desintegrando-se devido ao apodrecimento. Com isso, as plantas atacadas tornam-se atrofiadas, com folhas menores e em menor quantidade.

Entretanto, o fungo coloniza apenas os tecidos das raízes. Como resultado, os bulbos destas plantas apresentam significativa redução de tamanho e peso, levando à perda de raízes e comprometimento da absorção de nutrientes e água. 

Geralmente estes sintomas são observados em reboleiras nas áreas de cultivo, onde plantas severamente atacadas são facilmente arrancadas do solo. Estes danos reduzem a qualidade comercial dos bulbos, o que reflete em perda de receita para o produtor.

Prejuízos

A qualidade dos bulbos também pode ser afetada por podridões. Devido ao fungo Setophoma terrestris não atacar diretamente o bulbo e a parte área da planta, estas podridões decorrem principalmente do ataque de microrganismos oportunistas.

Estes microrganismos colonizam as raízes afetadas pela podridão rosada, necrosando a região da coroa e base das escamas. Com isso, há perdas de produtividade e redução do tempo de conservação pós-colheita. Em condições de ataques mais severos, especialmente em cultivares muito suscetíveis, a planta pode morrer devido à perda de todas as raízes.

Condições favoráveis ao patógeno

O agente causal da raiz rosada em cebola também ataca outras aliáceas, como alho, alho-poró e cebolinha verde. Todavia, apesar de pouco comum, o fungo também pode ocasionar doenças em outras culturas, como milho, sorgo, soja, etc.

Apesar dos danos da doença nestas culturas serem leves, os cereais são ótimos hospedeiros para o patógeno, o que pode aumentar a quantidade de propágulos do fungo em cultivos rotacionados com cebola.

O fungo é difícil erradicação, podendo sobreviver no solo em profundidade de até 45 cm, seja por corpos de frutificação ou mesmo estruturas de resistência. Além disso, os restos culturais presentes nas áreas facilitam sua sobrevivência.

Condições de elevada humidade do solo e altas temperaturas (24 a 28ºC) favorecem o patógeno e a ocorrência da doença. Solos pobres em matéria orgânica beneficiam o fungo, uma vez que há menor competição microbiana.

O pH próximo a 7,0 e condições edafoclimáticas estressantes (déficit hídrico, deficiência ou toxidez de nutrientes, ataques de pragas, doenças, etc.) também podem favorecer o patógeno.

Outro fator importante que pode favorecer epidemias de raízes rosadas são os cultivos contínuos de cebolas em uma mesma área. Nestas situações, ocorrem maiores intensidades de infecção, pois há aumento na quantidade de inóculos.

Estratégias de manejo e controle

O fugo causador da doença não é transmitido pela semente, por este motivo, o tratamento de sementes é pouco eficaz. Já o controle do fungo no solo, além de ineficaz, é inviável.

É importante destacar que não existem produtos registrados para a doença no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Além disso, diversas pesquisas experimentais têm demostrado que o controle químico é ineficiente.

Todavia, alguns trabalhos têm mostrado que o uso de determinados produtos biológicos pode reduzir a ação do patógeno. Por estes motivos, a principal estratégia é o controle preventivo e a convivência com o patógeno. A seguir estão enumeradas as principais medidas que devem ser adotadas nestas áreas:

a) Realizar rotação prologada de culturas (quatro a seis anos) com culturas de famílias tolerantes à doença. Isso quebra o ciclo do patógeno e reduz a quantidade de inóculos;

b) Não realizar cultivos sucessivos com aliáceas;

c) Manter elevados os teores de matéria orgânica;

d) Evitar condições estressantes à planta;

e) Manter o pH entre 5,5 e 6,0 em áreas potencialmente favoráveis à ocorrência da doença;

f) Evitar o compartilhamento de equipamentos entre áreas saudáveis e contaminadas;

g) Não utilizar mudas (se for o caso) de áreas contaminadas.

Alternativas

O uso de solarização em pré-plantio também pode ser indicado. O método tem mostrado redução superior a 70% na severidade da doença, inclusive associada à fumigação com produtos químicos (em condições experimentais).

Todavia, esta estratégia de manejo só pode ser utilizada em pequenas áreas, devido ao seu custo elevado. Diante disto, antes de adotá-la deve-se analisar a viabilidade econômica da técnica para cada produtor.

Por fim, cita-se o uso de cultivares resistentes, umas das principais táticas utilizadas no manejo preventivo de doenças em plantas. Existem cultivares resistentes à raiz rosada, porém, as cultivares mais plantadas no Brasil são suscetíveis.

Esta resistência também varia conforme a região de cultivo, resultado da grande variabilidade genética do patógeno.

Assim, cabe ao produtor realizar o diagnóstico preventivo e adequado da doença em sua propriedade. A partir disso, é possível traçar as estratégias de manejo da doença que sejam mais eficazes e viáveis para o seu nível tecnológico de produção, reduzindo perdas de produtividade e maximizando seus lucros.

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