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Recuperação de cafezais é uma necessidade

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Autor

Marcelo de Melo Linhares
Engenheiro agrônomo e consultor da Sagra
marcelo.de.linhares@terra.com.br

O Brasil é o maior produtor mundial de café há décadas e com isso as lavouras podem estar ficando velhas, desgastadas e/ou depauperadas. Por um motivo ou outro, algumas propriedades não acompanharam as inovações tecnológicas, seja por falta de capital para investir em reformas, por problemas de administração, por longos períodos de seca, por ocorrências de diversos problemas técnicos, ou às vezes por não suportar as crises do setor, que podem ser uma situação cíclica igual a qualquer outra cultura ou empreendimento.

Nesses casos, ocorre a degradação das propriedades, levando a prejuízos anuais e à depauperação das lavouras. A falta de renovação ou um manejo adequado de podas, nutrição deficiente, falta de controle de pragas, doenças e plantas invasoras e a utilização de espaçamentos ineficientes, além da falta de plantio de novas variedades resistentes são problemas comuns nesse tipo de propriedade que resultam em baixas produtividades.

Geralmente, a primeira característica que indica que a lavoura necessita ser reformada é a baixa produtividade por hectare. A lavoura começa a produzir pouco, com uma safra média e outra muito baixa, não conseguindo mais alcançar uma média anual nem ao menos alta produção.

A lavoura começa a ficar cada vez mais depauperada, com seca de ramos acentuada e não respondendo mais aos tratamentos nutricionais e fitossanitários fornecidos. Diante desta situação, é necessário fazer um estudo técnico econômico para definir a reforma, sempre verificando fatores essenciais, como o solo, a planta e o ambiente.

Análise dos talhões

Cada talhão deve ser analisado separadamente, pois fatores importantes a serem observados podem mudar e ser decisivos na tomada de decisão. A idade da lavoura, variedade e espaçamento utilizado, condição e qualidade dos ramos, estado do solo, presença de nematoides, histórico de produtividade, se a lavoura já foi esqueletada, recepada anteriormente, etc. Todos estes detalhes são de grande importância para verificação e tomada de decisão.

Daí em diante, a tomada de decisão técnica, juntamente com estudo da situação financeira e capacidade de investimento de cada produtor, dará um norte das opções por uma reforma mais drástica, que seria o arranquio e replantio, ou mesmo somente uma reforma mais leve, a exemplo de um desponte, esqueletamento ou mesmo uma recepa.

Manejo de reforma

A poda, embora pareça uma prática simples, deve ter alguns fatores estudados e analisados para se tomar a decisão pelo uso, podendo-se destacar:

– Idade da lavoura: plantas velhas não respondem bem, devido a estarem muito desgastadas;

– Tipo de cultivar: há cultivares com maior vigor vegetativo que outras, a exemplo da variedade Mundo Novo, que tem repostas mais imediatas. Portanto, a poda em cultivares menos vigorosas deve ser realizada com muito critério;

– Presença de pragas no sistema radicular: Nematoides, cigarras, cochonilhas da raiz e berne da raiz prejudicam a recuperação das plantas;

– Baixa população de plantas: lavouras muito falhadas ou com espaçamentos muito largos indicam necessidade de reforma. Atualmente, nos novos plantios o estande passa de 5.000 plantas/ha, enquanto as lavouras antigas têm 3.000 plantas, um fator que dificulta alcançar grandes produtividades por hectare.

Tipos de podas mais utilizadas

 Existem vários tipos de podas para o manejo do cafeeiro e a escolha de cada uma depende da situação de cada lavoura, como detalhado a seguir:

† Poda de formação ou desbrota: consiste na remoção de todos os ramos ladrões que surgem no tronco do cafeeiro. O objetivo é manter a planta, desde seus primeiros anos, com boa estrutura para suporte dos ramos de produção.

† Recepa: é uma poda drástica, realizada a aproximadamente 30 cm do solo (poda baixa) ou 60 cm do solo (poda alta), que praticamente elimina a parte aérea. Recomenda-se para casos extremos, como o fechamento intenso, para lavouras que perderam parte dos ramos plagiotrópicos nas posições mais baixas e para lavouras atingidas por geadas, com queima inclusive do tronco. É a poda que exige maior tempo de recuperação do cafeeiro, em termos de produção e, também, a mais onerosa, pela necessidade de várias desbrotas para condução de ramos.

† Decote: é uma poda alta, que elimina a parte superior da copa do cafeeiro a uma determinada altura, variável com o manejo desejado da lavoura. Tem como objetivos recuperar a parte superior, quando houver deformação, e reduzir a altura, para facilitar os tratos culturais e a colheita. A altura tem grande influência na produção, uma vez que cortes devem ser feitos entre 2,0 m e 2,20 m.

† Esqueletamento: é realizado com o corte dos ramos laterais do cafeeiro, deixando-os com tamanhos entre 30 cm e 40 cm. Deixa-se um esqueleto central constituído do tronco e dos ramos de produção. Desses ramos brotarão novos ramos plagiotrópicos, recompondo toda a estrutura produtiva da planta. Normalmente, essa poda lateral é seguida de um decote, com a finalidade de renovar os ponteiros e diminuir a dominância apical, o que favorece a brotação dos ramos de produção. O corte dos ramos deve ficar um pouco inclinado em relação ao tronco, com a parte inferior mais distante, na forma de cone, para evitar autossombreamento.

† Desponte: é também uma poda lateral, semelhante ao esqueletamento, com a diferença de que é realizada mais distante do tronco, em torno de 60 a 70 cm. Serve para estimular a emissão de ramos produtivos secundários e terciários, graças ao aumento da área produtiva da planta.

Época das podas

A época mais indicada é logo após a colheita, de preferência entre julho e agosto, pois quanto mais cedo for realizada a reforma, maior será a primeira produção após o manejo. Em regiões com riscos de geadas, devem ser realizadas após o período de maior ocorrência desse fenômeno. Além disso, a poda deve ser realizada após o ano de safra alta, quando a perspectiva é de baixa produção no ano seguinte.

Novos plantios

Na formação e renovação do cafezal, o produtor deve investir em mudas de alta qualidade genética e sanitária, pois o sucesso da lavoura se inicia na escolha de uma boa muda.

Para formação de um novo cafezal, vários aspectos terão que ser avaliados com muito critério, tais como: clima favorável ao desenvolvimento produtivo do cafeeiro e também para qualidade da bebida, solo com boa drenagem e profundidade para o bom desenvolvimento do sistema radicular.

Para renovação do cafezal por meio da realização de um novo plantio na mesma área, antes plantada com café, temos algumas regras básicas para o manejo:

Œ Não se controla nematoides com apenas uma prática isolada. Para uma melhor convivência com esta praga é necessário o somatório de várias práticas de controle.

 Iniciar a implantação de manejo de cobertura. Sugestões: crotalária, brachiária, milheto, entre outros, eliminando plantas hospedeiras de nematoides no meio das ruas, melhorando o sistema radicular e a estrutura do solo.

Ž Não plantar café novo logo após arranquio da lavoura velha. Deixar no mínimo 11 meses sem planta hospedeira de nematoides na área. A recomendação é arrancar após a colheita, fazer o pousio ou rotação de culturas com leguminosas de baixa suscetibilidade aos nematoides: Meloidogyne incognita, M. paranaensis e M. exígua.

 Utilizar variedades tolerantes aos nematoides, como IAC 125RN, IPR 100.

 Opção de fazer e trabalhar com a prática de porta-enxerto no Apoatã, pois também temos resultados bons em volume de radicelas das áreas enxertadas.

‘ Utilizar controle químico aliado ao biológico. Em áreas mais complicadas, aplicar o químico com nematicidas e após 60 a 90 dias aplicar o biológico. Em áreas com menos nematoides temos a opção de fazer somente o manejo com biológico.

’ Cuidado com contaminação de novas áreas devido transito de máquina, recomendação importante de lavar as máquinas principalmente na época chuvas, onde o barro poderá carregar nematoides de uma área para outra disseminando a praga para áreas limpas.

Sempre adotar espaçamento de plantio adequado às estruturas da propriedade e ao nível do produtor rural e adquirir mudas de qualidade, provenientes de viveiros idôneos. Somente a muda de boa qualidade é capaz de expressar todo o potencial genético que influenciará diretamente na formação ou desenvolvimento da estrutura do sistema radicular e da parte aérea da planta.

Pesquisas

No Cerrado, atualmente os resultados de pesquisas mostram que o melhor espaçamento, ou seja, aquele que está sendo comprovado com maior produtividade por hectare é de 3,6 x 0,5, com 5.555 plantas por hectare. Este bom número de plantas resultará em uma lavoura com resultados expressivos em aumento de produtividade, e o estande de plantas será essencial e definidor para altas produções.

As novas variedades que estão se destacando para novos plantios, de acordo com pesquisas, são: Acauã, Acauã Novo, IAC 125RN, Topázio, Arara, os Catigua, Sachimor, entre outros.

É importante mencionar que a utilização de irrigação, principalmente fertirrigação, está contribuindo muito para alcançar altas produções, que chegam próximo de 100 sacas por hectare em áreas fertirrigadas com sistema de Ferti kit bem manejado.

Além de todos os fatores citados anteriormente, recomenda-se sempre uma análise química de solo para corrigir quimicamente a fertilidade do solo, efetuando-se um bom preparo, correção e fertilização, ou adubação do mesmo.

Fitossanidade

O cuidado fitossanitário também é muito importante. Estudos científicos comprovam um aumento de produtividade em torno de 10% na produção quando a lavoura tem um cuidado com a fitossanidade.

A utilização de novas moléculas, a exemplo das estrobilurinas e carboxamidas, evidencia esse aumento de produção, pois, além de proteger as plantas, elas também proporcionam efeitos fisiológicos positivos, contribuindo para o melhor desenvolvimento das plantas.

Todas as recomendações citadas determinarão o vigor e a produtividade que a planta pode demonstrar no campo. É importante que no momento de escolha de área para o plantio de café, o produtor procure um engenheiro agrônomo de confiança, pois a cafeicultura é uma atividade que exige muito investimento inicial, com retorno financeiro a médio e longo prazos.

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