Sigatoka negra: O terror da bananicultura

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Autora

Deniete Soares Magalhães Engenheira agrônoma, mestra, doutora e PhD em Fitotecnia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)denieteagro@yahoo.com.br

Folha da bananeira – Crédito: Crédito: Valmir Duarte

A sigatoka-negra é causada por um fungo chamado Mycosphaerella fijiensis, a mais grave e temida doença da bananeira no mundo, implicando em aumento significativo de perdas, que podem chegar a 100% da produção em poucas semanas em locais onde o controle não é realizado. Ataca severamente as variedades tipo Prata e as variedades do sub grupo Cavendish (Nanica, Nanicão e Grande Naine).

Os sintomas da sigatoka-negra aparecem inicialmente na forma de pequenas descolorações ou pontuações despigmentadas, menores que 1 mm, visíveis na página inferior da folha.

Essas lesões tomam a forma de estrias de coloração marrom-clara, com 2,0 a 3,0 mm de comprimento, que se alongam e já podem ser visualizadas em ambas as faces da folha. Com a evolução dos sintomas se observam manchas ovais de cor marrom escura na face inferior, e negra na face superior da folha.

Essas manchas negras apresentam um pequeno halo amarelo e centro de coloração branco acinzentado e deprimido. Essas manchas coalescem em períodos favoráveis ao desenvolvimento do fungo.

Os primeiros sintomas ocorrem nas folhas mais novas. Apesar de possuir similaridade com a sigatoka-amarela, a sigatoka-negra causa danos muito maiores, devido a sua maior agressividade, justificada pela esporulação precoce e em maior quantidade a partir de lesões na fase de estrias.

Havendo maior quantidade de esporos, haverá maior quantidade de lesões e, por consequência, mais danos, ou seja, morte precoce das folhas. Embora o ataque ocorra apenas nas folhas, o avanço da doença é acelerado e faz com que em pouco tempo após os primeiros sintomas ocorra a morte e desfolha de boa parte da planta.

Essa rápida destruição da área foliar reduz a capacidade fotossintética da planta, impedindo o enchimento dos frutos e, consequentemente, reduzindo a sua capacidade produtiva, tornando os pomares improdutivos.

Condições favoráveis para a doença

O desenvolvimento de lesões de sigatoka e a sua disseminação são fortemente influenciados por fatores ambientais como umidade, temperatura e vento. No verão, quando a temperatura e umidade são mais elevadas, a doença é mais severa, devendo intensificar as aplicações de fungicidas nesse período. No inverno é possível ter um intervalo maior entre as aplicações. O vento é a principal forma de disseminação da doença.

Em áreas onde a doença ainda não está presente, deve-se realizar o monitoramento das áreas de produção. Além disso, deve-se ter cuidado na aquisição de mudas oriundas de outras regiões.

Manejo

Em pomares onde a doença já está presente, as variedades resistentes são as mais importantes ferramentas para se conviver de forma sustentável com essa doença, porém, carecem de aceitação comercial, por parte do consumidor, que prefere variedades do subgrupo Cavendish e do tipo Prata e Maçã, consideradas altamente suscetíveis.

Em se tratando dessas variedades, as aplicações foliares de fungicidas sistêmicos e protetores tornam-se inevitáveis, para garantir a produção de frutos. O uso dos fungicidas deve ser feito de forma racional, com a adoção de alternância de grupos químicos, aliado ao monitoramento semanal da severidade da doença, à erradicação dos bananais abandonados (inóculo primário); à desfolha sanitária, seguido de amontoa e aplicação de ureia a 10% (inóculo secundário). Estas são as principais medidas de controle que, uma vez integradas, podem manter o número de aplicações em níveis baixos.

Além do uso de variedades resistentes, provenientes do melhoramento genético, que tem sido a melhor forma de evitar a doença, existem alguns produtos no mercado com grande sucesso no combate à sigatoka-negra.

Fungicidas sistêmicos aplicados na axila da segunda folha apresentaram resultados excelentes no controle da doença. No entanto, é bom ressaltar que o manejo nutricional torna-se imprescindível para o sucesso dos fungicidas contra a ação da doença.

Dentre os erros mais frequentes, cita-se a aquisição de mudas sem procedência conhecida, falta de monitoramento frequente do bananal, o uso de fungicidas sem a alternância dos grupos químicos e o manejo inadequado das folhas mortas contaminadas.

Sem errar

O conhecimento sobre a doença e seu modo de transmissão e disseminação são os primeiros passos para evitar cometer erros que podem comprometer a produção no pomar. A alternância dos grupos químicos de fungicidas deve ser realizado para evitar a indução do aparecimento de população de fungos resistentes ao fungicida.

O manejo nutricional deve ser realizado para promover a manutenção da resistência das plantas. O esporo do fungo pode sobreviver até 60 dias aderido aos frutos, além de se manter viável nas folhas contaminadas por até 20 semanas. Dessa forma, após a desfolha sanitária deve-se amontoar as folhas com a parte de cima virada para baixo, numa altura de até 60 cm e aplicar algum produto para a acelerar a decomposição, e assim matar o fungo.

No Brasil, são realizadas cerca de oito a 12 aplicações de fungicida por ano para combater a doença. Na Costa Rica e Equador as aplicações por ciclo de produção podem chegar a cerca de uma centena, e ainda assim, só aliado ao manejo os produtores conseguem viabilizar a produção.

No entanto, em um bananal que recebe o controle inadequado a produção se torna inviável, dizimando toda a população de plantas. A prevenção, portanto, torna-se a prática mais viável contra a doença.