Silício é a solução antiestresse para a lavoura?

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Autores

Alisson da Silva Santana
Engenheiro agrônomo, mestre em Agricultura e Biodiversidade e doutorando em Proteção de Plantas – UNESP/FCA
alisson.0910.silva@gmail.com
Ana Paula Santana Lima
Engenheira agrônoma e mestranda em Agricultura e Biodiversidade – Universidade Federal de Sergipe (PPGAGRI/UFS)
ana.lima9a@gmail.com
Roque de Carvalho Dias
Engenheiro agrônomo, mestre em Proteção de Plantas e doutorando em Agronomia – UNESP/FCA
roquediasagro@gmail.com
Crédito: Shutterstock

Ao longo do ciclo de desenvolvimento, as plantas estão sujeitas a diversos fatores de estresse que limitam a produtividade. A utilização de plantas resistentes a estes fatores é um ponto-chave para o sucesso da produção agrícola.

O silício proporciona maior rigidez estrutural, menor transpiração, maior tolerância a doenças e pragas, além de maior resistência ao encharcamento, veranicos e geadas. Nesse contexto, este elemento pode ser utilizado como indutor de resistência em plantas, garantindo a produção agrícola sob condições de estresse.

Solução antiestresse

O silício (Si) é o segundo elemento mais abundante na crosta terrestre e é encontrado em quantidades significativas no solo. Este elemento não é essencial às plantas, do ponto de vista fisiológico, mas é muito importante e benéfico para muitas culturas. Nos citros, o fornecimento adequado deste elemento pode promover incrementos significativos na produtividade.

Além do aspecto nutritivo, o interesse pelo silício está relacionado aos inúmeros benefícios que este elemento traz às plantas, entre os quais pode-se destacar: redução da ocorrência de pragas; diminuição da ocorrência de fitopatógenos (fungos e bactérias); aumento da resistência ao estresse hídrico; redução da toxidez de metais pesados e micronutrientes em excesso; aumento da capacidade de sobrevivência de plantas em condições de salinidade; incremento na eficiência no uso da água.

Estas características justificam a importância do silício como uma solução antiestresse para a lavoura dos citros.

Manejo

Como o silício não é um elemento fisiologicamente essencial, não existe, até o presente momento, recomendações exatas para a aplicação deste elemento junto ao manejo de adubação convencional via solo.

O incremento deste elemento em pomares cítricos pode ser obtido por meio de pulverizações suplementares de silício natural em pó (cerca de 95% de SiO2). A calda deve ser preparada na proporção de 1,0 kg do produto para 2.000 litros de água. Este volume de calda é suficiente para cobrir entre 250 e 300 árvores.

Recomendam-se quatro pulverizações anuais direcionadas às folhas jovens, flores e frutos. Adicionalmente, o produto pode ser misturado com micronutrientes, inseticidas e outros produtos fitossanitários no processo de aplicação.

Resultados

O silício responde por diversos efeitos positivos relacionados à proteção de plantas contra estresses, entre eles:

• Reduz os efeitos de estresses abióticos, incluindo estresses físicos (p. ex.: seca, radiação UV, altas temperaturas, congelamento) e químicos (p. ex.: salinidade de solos, toxicidade de metais, desequilíbrio de nutrientes);

• Pode aumentar a tolerância à salinidade, pois estimula o sistema antioxidante das plantas, reduzindo a absorção de sal e aumentando a captação de potássio no solo;

• Promove maior retenção de água, dilui sais e, consequentemente, protege os tecidos da seca fisiológica;

• Nas raízes, o silício reduz os locais de ligação de metais, resultando em menor captação e translocação de sais e metais tóxicos das raízes para a parte aérea;

• A presença de silício reduz a transpiração e melhora o balanço hídrico, resultando em economia de água e consequente aumento na tolerância à seca em localidades onde a irrigação é limitada;

• Confere rigidez ao caule e ereção às folhas e, assim, reduz os riscos de tombamento em fases iniciais e incrementa a absorção da luz solar no processo de fotossíntese;

• Auxilia no manejo fitossanitário de pragas, pois este elemento forma uma dupla camada espessa de sílica que dificulta o ataque de insetos sugadores (p. ex.: cochonilhas, mosca-negra-dos-citros, pulgões e cigarrinhas) e mastigadores (p. ex.: broca da laranjeira, mosca-das-frutas e bicho furão);

• Induz a resistência a doenças por desempenhar papel mecânico como barreira contra patógenos, reduzindo a taxa de progresso da doença ou restringindo o tamanho da lesão e a produção de esporos que podem infectar outras plantas e induzi a resistência do hospedeiro, aumentando os níveis de substâncias inibidoras.

Custo-benefício

Os prejuízos causados por pragas no Brasil atingem cerca de R$ 55 bilhões. Somente na cultura da laranja, estes prejuízos alcançam R$ 1,5 bilhão, com dois milhões de toneladas perdidas anualmente.

Além das perdas diretas, as medidas tomadas para controlar esses organismos também podem causar danos econômicos indiretos relacionados à compra e aplicação de inseticidas. No Brasil, gastam-se aproximadamente 170 mil toneladas de inseticidas sintéticos anualmente, uma despesa de mais de R$ 9 bilhões. Em pomares de laranja, o consumo de inseticidas atinge aproximadamente 10 mil toneladas, que representam um gasto de R$ 260 milhões.

A ocorrência de doenças também diminui a produção e aumenta os custos de produção da cultura dos citros. Como exemplo, o greening (huanglongbing/HLB), principal doença da citricultura mundial, provoca incremento de 85% dos custos da produção devido à queda de produtividade dos pomares e aos custos com o manejo.

Os prejuízos resultantes do estresse em citros ainda são subestimados, pois as perdas relacionadas aos fatores abióticos ainda não foram determinadas. Frente a este cenário, faz-se necessário, portanto, buscar estratégias viáveis para superar os problemas causados por fatores de estresse na cultura dos citros.

Papel do silício

Nesse contexto, a melhoria da nutrição mineral das plantas pode torná-las mais resistentes a estes fatores e, portanto, mostra-se como uma alternativa viável para a produção agrícola em situações de estresse. Assim, a combinação de adubação silicatada e pulverizações de silício mostram-se uma perspectiva. Para isso, faz-se necessário avaliar as fontes brasileiras de silicatos disponíveis e o efeito potencial dessas fontes quanto às exigências mínimas estabelecidas em legislação. As características desejáveis das fontes de Si para uso na agricultura são alta solubilidade, alta disponibilidade de Si, boas propriedades físicas, teores mínimos de contaminantes (p. ex.: elementos pesados) e relação custo/benefício favorável ao produtor