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Soja: importância do manejo de potássio

Fotos: Shutterstock

Ana Paula Preczenhak
Doutora, pós-doutoranda (ESALQ-USP) e professora – Faculdade de Ensino Superior Santa Bárbara (FAESB)
prof.anapaula@faesb.edu.br
Edson Pereira Mota
Doutor em Solos e Nutrição de Plantas, especialista em Agronegócios e professor – FAESB
prof.edson.mota@faesb.com
Bruna Orsi
Engenheira agrônoma e doutoranda em Fisiologia e Bioquímica de Plantas – ESALQ-USP
bruna.orsi@usp.br

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) mostram que o Brasil é o maior produtor do grão, atingindo valores superiores aos 135 milhões de toneladas na safra 2020/21, sendo este valor obtido nos 39,2 milhões de hectares cultivados.

No ciclo 2021/22, espera-se fechar em torno de 124 mi/t, com queda devido às condições climáticas desfavoráveis, principalmente no Sul do País (CONAB, 2022). Embora os números possam impressionar, é necessário considerar que as produtividades médias brasileiras, hoje girando em torno de 3,5 t/ha (aproximadamente 58 sacas/ha), estão muito abaixo do potencial produtivo, já que não é raro encontrar produtores com produtividade média de 4,5 a 5,0 t/ha (aproximadamente 75 a 85 sacas/ha), ou seja, valores 43% superiores às médias nacionais.

Tetos produtivos

O potencial para elevação de produtividade existe, porém, o manejo necessário para obtenção de altos rendimentos requer atenção a todos os fatores de produção, tais como água, solo, genética, adequação ambiental e aspectos fitossanitários, sendo que problemas encontrados em cada fator diminuem as estimativas de produtividade traçadas.

Entre os fatores de produção, um dos que mais impacta no rendimento do cultivo de soja é o solo e sua fertilidade, o que reflete diretamente na nutrição da planta. Lembrando que os solos brasileiros foram formados sobre condições tropicais, e por isso dois pontos precisam ser ressaltados:

1) Nossos solos são naturalmente pobres quanto a sua fertilidade, possuindo características restritivas ao desenvolvimento vegetal, como alta acidez, presença de alumínio tóxico às plantas e baixos teores de nutrientes e;

2) A planta de soja é caracterizada como um cultivo intensivo e requer alta quantidade de nutrientes para seu desenvolvimento.

Nutrição das plantas

Considerando que os solos brasileiros não possuem capacidade de suprir as necessidades nutricionais no cultivo da soja, a adubação é fundamental para este sistema de produção.

Ao considerar os elementos minerais com maiores quantidades absorvidas, pode ser destacado o potássio (K), em que encontramos valores de até 40 kg requeridas para cada tonelada de grão produzida.

No início do desenvolvimento da soja, ainda na fase de plântula, a demanda por K não é alta, mas isso muda durante o período de alto crescimento vegetativo, quando a taxa de tomada de K pelas plantas aumenta consideravelmente, de modo a suprir o crescimento das folhas e ramos.

É por isso que o ideal seria o parcelamento da aplicação; aplicar parte do K nos sulcos de plantio durante a semeadura e depois em cobertura. Com o decorrer do desenvolvimento da planta, o K presente na parte vegetativa é transportado para os grãos, e assim, ao final do ciclo, a semente madura de soja contém cerca de 60% de todo o potássio da planta, que é exportado da área com a colheita dos grãos.

Foto: Shutterstock

Atuação do potássio

O K possui uma série de funções nas plantas de soja, podendo ser citados: a regulação osmótica e a eficiência no uso da água, com a turgidez das células e o controle na abertura e fechamento de estômatos; a ativação enzimática de mais de 50 enzimas importantes no metabolismo da planta e; os aspectos de qualidade do produto gerado, uma vez que o K está envolvido na síntese de proteínas.

Isso interfere na relação entre nitrogênio na forma de aminoácidos e na forma proteica (Naa/Nprot), bem como em um fundamental parâmetro de qualidade da soja, o teor proteico, que irá refletir nas aplicações destinadas ao produto, principalmente na formulação de rações para agropecuária.

Além disso, o K também é um dos principais responsáveis por transportar para diferentes partes da planta os carboidratos que são produzidos durante a fotossíntese, também chamados de fotoassimilados.

Isso porque o K auxilia o carregamento de fotoassimilados para dentro de vasos condutores que conectam diferentes órgãos da planta, sendo desta forma transportados para outras folhas, raízes, flores e sementes. É justamente por este papel no transporte de carboidratos que o K contribui importantemente para o enchimento de grãos de soja.

Importância do K

Neste sentido, a conclusão é clara, o cultivo da soja é muito dependente do manejo do K e este deve estar disponível às plantas para que os potenciais produtivos se elevem. Entretanto, ao analisar a situação brasileira e estratégica de obtenção do potássio o que encontramos?

O Brasil possui alta dependência do potássio estrangeiro para a agricultura, que é evidenciado pela importação de mais de 92% de todo potássio aplicado no campo. Levantamentos realizados, como os da GlobalFert, trazem que as origens de compra do K são do Canadá (32%), Rússia (26%), Bielorrússia (18%) e Israel (11%).

Ao observar estes países, fica clara a fragilidade estratégica brasileira, uma vez que o agravamento dos conflitos, como os atuais envolvendo Rússia e Ucrânia, poderiam afetar o fornecimento de mais de 40% do K necessário à agricultura brasileira.

Portanto, o uso eficiente do K é importante e erros de manejo não podem se tornar rotina no sistema de produção. A aplicação do produto deve ser feita com atenção e planejamento, evitando erros que comumente podem ser encontrados durante seu manejo em soja.

Cuidados

Alguns cuidados com o manejo de K devem ser considerados no cultivo:

1) Não considerar o tipo de solo (solos arenosos); ou 2) Não observar os dados climáticos associados ao solo e doses.

A principal forma de perda de K no solo é por meio da lixiviação. A lixiviação pode ser favorecida em determinados tipos de solo, em que solos pouco argilosos ou arenosos têm menor capacidade de reter os cátions de K+, tendo menor reserva posterior, sendo o parcelamento da aplicação recomendado.

Chuvas intensas causam escoamento do K+ das camadas superiores do solo, reduzindo seus teores nas regiões de maior absorção pelas raízes (0 – 10 cm). Assim, a dosagem deve ser corrigida considerando as porcentagens de perda.

3) Salinidade do solo; e 4) Doses incorretas na adubação e parcelamento do K: cuidados com a aplicação devem ser tomados em condições de superdosagem, por exemplo, aplicações acima de 50 kg/ha acabam afetando negativamente o desenvolvimento das plantas.

Estas altas dosagens de K criam uma condição salina na solução do solo, aumentando muito o pH naquele momento, o que causa a chamada queima das raízes, ou mesmo reduz a germinação da semente. Neste caso, o parcelamento da aplicação é a ação mais assertiva. Além disso, altas doses de K reduzem a absorção de outros nutrientes, como veremos a seguir.

Os níveis de K podem ser afetados por competição de absorção quando níveis muito altos de NH4+ estão presentes no solo. Nesta situação, a planta tende a absorver mais NH4+ que K+. Porém, o contrário não ocorre, altas doses de K+ não inibem a absorção de NH4+.

5) Desequilíbrio entre Ca:Mg:K (inibição competitiva): neste caso, pode limitar a produtividade, pois em solos com alto teor de K (aplicação em superdosagem), mesmo que seja corrigido o teor de Mg, essa inibição faz com que a planta não absorva Mg2+, apesar do mineral estar presente no solo.

Por que isso ocorre? O K tem elevada mobilidade no solo, pois é menos atraído pelas cargas negativas dos coloides, por isso, está sempre mais disponível para absorção pelas plantas. Da mesma forma, altas concentrações de Ca2+ ocasionam deficiência de Mg nas plantas, pois o Ca influencia a seletividade de absorção das raízes, favorecendo a entrada de K na planta.

Fotossíntese

Foto: Shutterstock

A manutenção dos níveis de Mg na planta é fundamental, pois este elemento é o átomo central da estrutura das clorofilas, as quais realizam fotossíntese, sem a qual não há desenvolvimento e crescimento da planta. Importante frisar que, do solo a planta adquire os minerais e a água, mas é pela fotossíntese que ela assimila carbono, que é a matéria seca (peso) do grão e da planta como um todo. O Mg também faz parte da ativação das enzimas do processo respiratório nas plantas.

Uma das formas mais eficazes de verificar os teores dos minerais que a planta realmente absorveu da solução do solo é por meio da análise dos tecidos das folhas. Quando aliado à análise de solo, isto ajudará o produtor a formar uma estratégia de adubação para a próxima safra.

Desta forma, sendo o K um nutriente tão dinâmico no solo, sua aplicação é recomendada de acordo com o sistema de produção aplicado na propriedade, como um balanço entre a entrada e saída de nutrientes no sistema solo-planta, ajustando a adubação de acordo com a real necessidade de adição do nutriente no solo, e não por uma formulação fixa para a cultura.

Alerta

Nesta adubação de sistemas entra a importância de conhecer o solo da propriedade por meio de análises de solo regulares, pois ao aplicar apenas a quantidade necessária para suprir as demandas das plantas durante a safra (adubação mineral), vai sendo formado um déficit de K no solo (saída do nutriente nos grãos), ciclo após ciclo de cultura.

Caso não haja entrada do nutriente no solo, em poucas safras as plantas podem começar a apresentar os sintomas de falta de K em reboleiras, como o amarelecimento mais acentuado do terço superior da planta. Também, um sintoma primário é a redução do crescimento das plantas, chamado de “fome oculta”, em que, pela falta do nutriente a planta se desenvolve menos, logo, produz menos.

Em uma visão mais ampla, a expressão do máximo potencial produtivo do genótipo é devido aos vários fatores edafoclimáticos. A relação solo-planta é afetada por todos, assim como o organismo de qualquer outro ser vivo – se a sua nutrição estiver desequilibrada, seu metabolismo é comprometido, sendo este ainda um dos poucos fatores que podemos tentar controlar durante o cultivo. 

O manejo correto do K evita seu esgotamento no solo, minimiza suas perdas e ajuda na melhora da produtividade de soja.

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