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sexta-feira, julho 1, 2022
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Adubação de plantio a lanço com fertilizante protegido na soja

Autores

Regina Maria Quintão Lana
Professora de Fertilidade e Nutrição de Plantas – Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
Reginaldo de Camargo
Professor de Gestão Ambiental na Agricultura – UFU
Mara Lúcia Martins Magela
Doutoranda em Agronomia – UFU

A soja (Glycine max L.) é uma das culturas mais produzidas no Brasil, representando a principal commodity agrícola do País. Dentre as práticas de manejo da cultura, a fertilidade e a nutrição de plantas destacam-se como uma das principais ações responsáveis pelo sucesso da lavoura.

Neste contexto, a prática de distribuição e tecnologia dos fertilizantes interfere diretamente na disponibilização dos nutrientes para as plantas, pois, de acordo com a forma de aplicação e características do insumo, pode ocorrer alterações na velocidade de mineralização e na capacidade de reação dos elementos, influenciando no desenvolvimento das plantas, na produtividade e, consequentemente, nos custos de produção final da lavoura.

Existem no mercado diversos tipos de fertilizantes destinados a grandes culturas, como os fertilizantes solúveis ou parcialmente solúveis, em que a disponibilização de nutrientes é rápida para as plantas; os de liberação lenta, que apresentam a característica de atrasar a disponibilização para absorção, sendo dependentes de fatores edafoclimáticos; e os de liberação controlada, que são revestidos ou encapsulados (inorgânicos, orgânicos e sintéticos) com polímeros, liberando gradativamente o nutriente no solo em um intervalo de tempo conhecido.

Esses insumos podem ainda ter origem em fontes orgânicas ou sintéticas na forma líquida ou seca (pó, granulado, pelelizado e farelado.

Recomendações

Na soja, os modos de aplicação de fertilizantes mais utilizados são na semeadura em sulco de plantio, sendo depositados no solo pouco abaixo das sementes; e a lanço, realizada antes da semeadura ou em cobertura. Pode ser também por irrigação por meio dos sistemas de fornecimento de água e por pulverização, em que o adubo é diluído em água para posterior aplicação.

Especificamente para a aplicação de fertilizantes na forma a lanço antecipada, nota-se que essa prática tem se apresentado uma opção muito interessante devido aos diversos benefícios que podem ser alcançados com o seu uso, como a possibilidade de parcelamento das doses, facilidade e agilidade nas atividades de adubação, diminuindo as paradas para abastecimento e redução no número de conjuntos de implementos, o que reduz custos operacionais de semeadura, promovendo aumento na receita líquida do produtor (Guareschi et al., 2008).

Para fontes de potássio aplicadas de forma “tradicional”, como no sulco de plantio, o KCl, adubo mineral, promove a concentração de K em um pequeno volume de solo, promovendo baixa CTC e alta salinidade, enquanto que a adubação a lanço possibilita ampliar o acesso do potássio às cargas do solo e diminui a salinização.

Devido a essas considerações, a adubação a lanço deste nutriente tem sido recomendada no cultivo da soja, principalmente em solos com textura superior a 20% de argila e onde há baixa CTC, evitando perdas por processos de lixiviação (Sousa; Lobato, 1996).

Por outro lado, a aplicação de fertilizantes minerais a lanço encontra alguns entraves em relação ao fósforo, pois o manejo mais comum ainda é a adubação no sulco de semeadura de fontes solúveis. Para este nutriente, existem complicadores que têm dificultado seu uso eficiente na aplicação a lanço devido à baixa mobilidade do P no solo, principalmente nos mais argilosos e ácidos (NUNES et al., 2011).

O caso do fósforo

O fósforo a lanço adicionado na superfície, em solos com baixa fertilidade e ácidos, limita a disponibilização do P devido a sua pouca distribuição no perfil do solo e alto efeito residual, acarretando problemas de manejo, principalmente a longo prazo (Soja Brasil, 2016).

De acordo com Santos et al. (2008), a aplicação de fertilizantes em superfície satura os sítios de maior afinidade por fósforo. Hinsinger (2001) relatam que o movimento do P no solo é lento devido a sua elevada reatividade e geralmente apresenta-se em teor abaixo do necessário para a sua disponibilização para a cultura. Dessa forma, o que se observa, é que o uso de fosfatos naturais a lanço e incorporados no plantio não é uma prática que atenda à alta demanda inicial de fósforo pela planta.

Paludo (2015) ressalta que concentração de P na superfície do solo aumenta a possibilidade de contato com o calcário, o que tornaria o fósforo ainda mais indisponível, além do P em superfície ser mais facilmente carregado por escorrimento superficial, podendo contaminar corpos d’água e potencializando processos de eutrofização.

Entretanto, a intensidade de aproveitamento do P pelas plantas é dependente de uma série de fatores, que incluem aspectos da espécie, textura e acidez do solo, além do tipo e granulometria da fonte de fertilizante utilizada.

Esses entraves de disponibilização limitada de P quando da aplicação a lanço podem ser minimizados com o uso de fontes de fertilizantes protegidos de liberação lenta e/ou controlada, como os polimerizados, orgânicos e os fertilizantes organominerais.

Solução

Especificamente para fertilizantes organominerais, a aplicação a lanço tem se mostrado viável e eficiente, pois a matriz orgânica presente nesses fertilizantes promove um efeito de proteção dos mesmos. Para o fósforo, a composição orgânica impede o contato direto do P com os pontos de fixação e adsorção do solo, liberando gradativamente o nutriente e tornando-o mais disponível para as plantas (Chaves et al., 2009; Marchi et al., 2008).

Assim, o uso de fertilizante organomineral na soja tem sido bem-sucedido, tanto aplicado no sulco de plantio quanto a lanço, em função dos benefícios que esses insumos têm agregado ao solo nas suas propriedades químicas, físicas e microbiológicas.

Na fertilidade do solo os fertilizantes organominerais aumentam a taxa de mineralização dos macro e micronutrientes, quelatizam alguns elementos e liberam os cátions adsorvidos, aumentando a superfície de contato e mobilidade desses no solo, complexam substâncias tóxicas e promovem o tamponamento do solo.

Quanto às características físicas, observa-se que os organominerais têm potencial para aumentar a estabilidade dos agregados e reduzir a densidade do solo, melhorando sua estrutura e capacidade de retenção de água. Também podem favorecer a microbiota do solo, aumentando a população de microrganismos benéficos ao solo, a CTC na rizosfera, a atividade biológica e as taxas de decomposição e mineralização, além de atuarem sobre o metabolismo da planta, promovendo a ativação de enzimas, estimulando o enraizamento e a maior assimilação de nutrientes.

Pesquisas

O fertilizante organomineral tem a característica de ser um “veículo” eficiente no fornecimento de matéria orgânica, de substâncias húmicas (ácido húmico e fúlvico) e aminoácidos às plantas a médio e longo prazo.

Diversos trabalhos científicos com organomineral tem comprovado os benefícios dessa adubação sobre a produtividade da soja, como a pesquisa de Alane (2015), que teve como objetivo avaliar a eficiência de doses (40, 60, 80 e 100%) do fertilizante organomineral 03-15-15, aplicado no plantio, em relação à recomendação mineral (400 kg ha-1 do formulado 4-20-20).

Concluiu-se que a produtividade da soja nos tratamentos que receberam organomineral 03-15-15 foi até 17% superior à do tratamento mineral. Além disso, a aplicação de 40% (200 kg ha-1) da dose com organomineral resultou na mesma produtividade alcançada pelo uso de 100% da recomendação (400 kg ha-1) com a fonte mineral, equivalente a 43,9 sacas ha-1 de soja.

Nunes e Corrêa (2015), avaliando um fertilizante organomineral na forma sólida, fluida e um fertilizante mineral, todos na formulação 02-10-06 e nas dosagens de 0, 750, 1.000 e 1.250 kg ou L ha-1, em sulco de plantio em soja e milho, observaram que, de maneira geral, em condições de restrições hídricas os dois fertilizantes organominerais, nas distintas doses estudadas, apresentaram melhores resultados de produtividade em relação ao mineral.

Resultados como esses demonstram que em situações de estresse, como restrição de água, fontes de fertilizante que contenham matéria orgânica, proporcionam às plantas melhores condições de desenvolvimento devido à maior estruturação dos agregados do solo e, consequentemente, maior armazenamento e disponibilização de água para a cultura ao longo do seu ciclo de crescimento.

Carvalho e Reis (2018), comparando formulações de fertilizante organomineral VigorFert 05-25-00 e mineral 11-52-00 em soja, verificou que 60% da dose de recomendação com a fonte organomineral (300 kg ha-1) proporcionou aproximadamente seis sacas a mais que o mineral.

Resultados semelhantes foram encontrados comparando a aplicação de 67% da dose de recomendação com o fertilizante organomineral 05-25-00 em relação a 100% da recomendação com a formulação mineral 05-57-00, quando se obteve 10 sacas a mais com o uso do fertilizante organomineral (Tabela 1).

Tabela 1: Produtividade de soja com a aplicação de fertilizante mineral e organomineral no sulco de plantio, ano 2018. Guarda-Mor (MG)

Formulação Mineral Organomineral Mineral Organomineral
  11-52-00 05-25-00 05-37-00 05-25-00
Dosagem 240 300 250 250
Kg P2O5 125 75 93 63
% de redução P2O5 100% 40% 100% 33%
Produtividade (Sc ha-1) 78.6 84.9 89.4 99.7

Carvalho e Reis (2018).

Para adubação a lanço com fertilizante organomineral, trabalhos para avaliar a redução de doses demostraram resultados positivos na cultura da soja quando se comparou formulações minerais em relação a formulações organominerais.

Na tabela 2, observa-se que a aplicação a lanço de 48% da dose de recomendação com a formulação organomineral 03-12-18 promoveu 12 sacas por hectare a mais que a obtida com a aplicação de 100% da dose do fertilizante mineral.

Tabela 2: Produtividade de soja com a aplicação de fertilizante mineral e organomineral a lanço no plantio, ano 2018. Uberlândia (MG) e Araguari (MG)

Formulação Mineral Organomineral Mineral Organomineral
  05-25-25 03-12-18 05-25-25 03-14-20
Dosagem 350 350 400 400
Kg P2O5: 87.5 42 125 48
% de redução P2O5 100% 52% 100% 62%
Produtividade (Sc ha-1) 54 66 51 51

Carvalho e Reis (2018)

Em se tratando de adubação a lanço sem incorporação, Paludo (2015) afirma  que esta tem sido uma prática muito usada como manutenção associada às outras práticas de manejo, como rotação de cultura e consórcios, promovendo reciclagem dos nutrientes lixiviados em profundidade e fazendo com que o fósforo seja melhor redistribuído no perfil do solo por meio das raízes.

Resultados como estes demostram que formulações organominerais possibilitam aplicações a lanço de forma eficiente na soja, mesmo em se tratando de fornecimento de fósforo. Além disso, possibilita o uso de doses reduzidas com a obtenção de produtividades semelhantes e até mesmo superiores às obtidas por fontes minerais.

Importante saber

Destaca-se que é fundamental a escolha das fontes orgânicas e minerais, levando em consideração as características físicas e químicas do solo, condições climáticas do local de plantio, exigência da cultura, bem como o manejo adotado pelo produtor.

Novas tecnologias surgem a cada safra, agregando valor aos insumos e ampliando as possibilidades para que técnicos e produtores obtenham maior eficiência produtiva. Todavia, está evidenciado que para cada condição específica, no caso dos fertilizantes, é preciso levar em consideração inúmeros fatores para se atingir a máxima produtividade economicamente viável e ambientalmente desejada.

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