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Alerta – Clima favorável para ferrugem asiática da soja

Autor

José Luis da Silva Nunes
Engenheiro agrônomo, doutor em Fitotecnia, grupo técnico do BADESUL Desenvolvimento – Agência de fomento do Estado do Rio Grande do Sul
silva.nunes@ufrgs.br

A cultura da soja (Glycine Max) é considerada uma das fontes proteicas e de óleo vegetal mais importantes a nível mundial. Os Estados Unidos e o Brasil são os maiores produtores, seguidos de Argentina e China. A produção esperada para a safra 2018/19 no Brasil é de 112 milhões de toneladas, sendo que os maiores produtores do País são Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul.

Dentre as doenças que afetam a cultura da soja, encontram-se as denominadas “ferrugens da soja”, causadas por duas espécies de fungo do gênero Phakopsora:

– Phakopsora meibomiae: causadora da ferrugem “americana”, que ocorre naturalmente no Continente Americano, desde Porto Rico (Caribe) ao Sul do Paraná (Ponta Grossa). É considerada pouco agressiva à soja;

– Phakopsora pachyrhizi: causadora da ferrugem “asiática”, presente na maioria dos países produtores de soja.

A primeira foi relatada pela primeira vez no Brasil em 1979, no Estado de Minas Gerais no ano de 2000. Apresenta menor importância econômica para a cultura da soja.

Já a ferrugem asiática é considerada uma das doenças mais destrutivas e a que causa maiores danos em várias espécies na soja, tendo havido relatos de ocorrência de 100% de perdas na cultura em áreas de cultivo safrinha no País.

A ferrugem asiática

No Brasil, a doença foi encontrada no final da safra de 2000/01, no Estado do Paraná, e é, atualmente, um dos maiores problemas da cultura na região dos Cerrados brasileiros, especialmente em Mato Grosso, onde têm sido necessárias excessivas pulverizações de fungicidas para controlar a doença.

Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com exceção de Roraima, todos os Estados que possuem cultivo de soja já foram atingidos pela doença, envolvendo uma área de 22 milhões de hectares. No Sul do Brasil, epidemias severas têm sido esporádicas, porém, vem sendo detectada cada vez mais cedo durante a safra.

Danos

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Essa doença tem sido estudada no continente Asiático há mais de 30 anos. Danos na produtividade na ordem de 30 a 80% já foram relatados, porém, o volume dos danos depende de quando a doença se inicia e o quão rápido ela progride. Em Taiwan, onde já causou sérios problemas para a cultura da soja, verificou-se que a ferrugem asiática pode reduzir a produção em 18 a 91%.

A severidade da doença está em função das variações nas condições do ambiente, de ano para ano, estação para estação e de local para local. A concentração inicial de inóculo não se reflete na severidade da doença.

Cultivares resistentes ou tolerantes sofrem quedas de produção bem menores do que as suscetíveis, porém, a resistência genética pode ser perdida com o tempo. Além disso, as cultivares resistentes não são, necessariamente, as mais produtivas.

O patógeno da ferrugem asiática encontrou condições climáticas favoráveis de desenvolvimento no Brasil, o que justifica a rápida disseminação nas regiões produtoras de soja e a severidade com que a ferrugem vem ocorrendo em todo o País.

Epidemiologia

O processo infeccioso se inicia quando os uredósporos germinam e produzem um tubo germinativo que cresce através da superfície da folha até que se formar um apressório. A penetração ocorre diretamente através da epiderme, ao contrário das outras ferrugens que penetram através dos estômatos.

Urédias podem se desenvolver de cinco a 10 dias após a infecção e os esporos do fungo podem ser produzidos por até três semanas. A temperatura para a germinação dos uredósporos pode variar entre 8ºC a 30ºC e a temperatura ótima é próxima de 20ºC, porém, sob alta umidade relativa do ar, a temperatura ideal para a infecção situa-se ao redor de 18ºC a 21ºC.

Nesta faixa de temperatura, a infecção ocorre em 6h30 após a penetração, mas são necessárias 16 horas de umidade relativa elevada para que a infecção se realize plenamente. Por isso, temperaturas noturnas amenas e presença de água na superfície das folhas, tanto na forma de orvalho como precipitações bem distribuídas ao longo da safra, favorecem o desenvolvimento da doença.

O vento é a principal forma de disseminação deste patógeno, que só sobrevive e se multiplica em plantas vivas, para lavouras próximas ou a longas distâncias. Desta forma, outro fator que agrava ainda mais o seu estabelecimento no Brasil é a existência de outras plantas hospedeiras, constituídas por diversos gêneros e espécies da família Fabaceae.

Ciclo da ferrugem asiática

De uma infecção inicial, estima-se que uma primeira geração de pústulas pode manter a esporulação por até 15 semanas, mesmo sob condições de baixa umidade. Se as condições para reinfecção são esporádicas durante a estação, pode haver potencial de inóculo suficiente para restabelecer a epidemia.

Chuvas abundantes e frequentes durante o desenvolvimento da doença têm sido associadas a epidemias mais severas. Após a infecção, as primeiras pústulas com uredósporos maduros surgem em sete a oito dias e este curto ciclo de vida da doença significa que, sob condições favoráveis, epidemias de ferrugem asiática podem progredir de baixos níveis de detecção para desfolhações dentro de um mês.

Sintomatologia

Os sintomas causados pela ferrugem asiática, no seu estado inicial, são facilmente confundidos com outras doenças, como pústula bacteriana (Xanthomonas axonopodes pv. glycines), crestamento bacteriano (Pseudomonas savastanoi pv. glycinea) e mancha parda (Septoria glycines).

Os sintomas desta doença iniciam-se nas folhas inferiores da planta e são caracterizados por minúsculos pontos (1,0 a 2,0 mm de diâmetro), provenientes da fase inicial da infecção. Estas lesões correspondem à formação de protuberância, chamadas urédias (estruturas de reprodução do fungo), que se apresentam como pequenas saliências mais escuras do que o tecido sadio da folha, com coloração esverdeada a cinza-esverdeado ou marrom-avermelhado, com uma ou várias urédias globosas, principalmente na parte abaxial da folha.

As frutificações não são muito evidentes, de modo que a, olho nu, se consegue distinguir lesões ferruginosas, que conferem o nome comum a esse grupo de doenças, caracterizado pela necrose do tecido foliar e cada lesão pode apresentar várias pústulas.

Os sintomas podem aparecer em qualquer estádio de desenvolvimento e em diferentes partes da planta, como cotilédones, folhas e hastes, sendo os sintomas foliares os mais característicos. Esporadicamente, as urédias podem aparecer na parte superior das mesmas.

A manifestação inicial da doença é observada como áreas foliares cloróticas de forma poligonal, por causa da delimitação imposta pelas nervuras. As primeiras lesões, em geral, são encontradas nas folhas baixeiras próximas ao solo quando as plantas se encontram no estádio fenológico próximo ou após o florescimento.

O estádio final da epidemia da ferrugem da soja numa lavoura caracteriza-se por amarelecimento geral da folhagem com intensa desfolha, chegando até a queda completa das folhas.

Plantas infectadas apresentam desfolha precoce, comprometendo a formação, o enchimento de vagens e reduzindo o peso final dos grãos. Em casos de ataques severos, as plantas ficam semelhantes a lavouras dessecadas com herbicidas, sofrendo abortamento de flores e vagens e deficiência na granação. Quanto mais cedo ocorrer a desfolha, menor será o tamanho dos grãos e, consequentemente, maior a redução do rendimento e da qualidade.

Hospedeiros

O agente causal da ferrugem é um organismo biotrófico, o qual sobrevive em soja verde e em outros hospedeiros. O fungo P. pachyrhizi pode naturalmente infectar uma vasta gama de espécies vegetais, incluindo 41 espécies em 17 gêneros da família Fabaceae.

Manejo da doença

Atualmente, várias táticas de controle da ferrugem asiática da soja estão disponíveis. Entretanto, a maior parte das pesquisas envolve o uso de fungicidas e a resistência da planta hospedeira.

A existência de raças dificulta o controle por meio da resistência vertical. Os fungicidas dos grupos dos triazóis e estrobilurinas têm se mostrado mais eficientes para o controle da doença, com diferença na eficiência entre princípios ativos dentro de cada grupo.

A presença de plantas voluntárias ainda presentes no início da safra favorece a manutenção do inóculo (esporos) no campo, e as mesmas devem ser dessecadas.

A evolução da doença e a severidade final nas cultivares variam em função da época de semeadura. Quando a semeadura é realizada em novembro, a infecção tende a iniciar no estádio da formação da semente (R5), ocorrendo maior severidade no final do ciclo das cultivares. Com semeadura em dezembro, a doença inicia no estádio de início da formação da vagem (R3) e a severidade é maior na formação da semente (R5).

A quantificação de danos é o ponto chave na definição de qualquer estratégia de controle. Estudos nesse sentido estão sendo desenvolvidos na safra e entressafra, associados com o monitoramento de uredósporos da ferrugem no ar. A proposta é a de quantificar os danos causados pela doença e estudar a influência da densidade de esporos no ar, sua relação com as variáveis climáticas, incidência e severidade da ferrugem asiática da soja em uma região onde a doença ocorre de forma epidêmica.

A disseminação da ferrugem ocorre unicamente por meio da dispersão dos uredósporos pelo vento. Os uredósporos seguem a direção do vento, podendo se deslocar até 96 km por semana. O alastramento da doença dentro da lavoura pode chegar a 3,0 metros por dia. Portanto, variáveis como densidade de plantio, época de plantio, estádio fenológico, espaçamento, variedade, quantidade de inóculo residual, devem ser considerados no manejo da doença.

Clima é a peça-chave

O clima é considerado o fator chave na epidemiologia da ferrugem asiática da soja. Variáveis ambientais são influenciadas pelo macro, meso ou microclima, as quais afetam diferentes processos do ciclo da doença e também influenciam na taxa de progresso e a severidade das epidemias.

No campo, a chuva parece ser o fator chave que influencia na severidade da doença em escala regional, sendo que a doença aparece mais tarde e sua dispersão é mais lenta sob condições de seca por período prolongado.

Considerando a gravidade da doença, diversos estados adotaram o “vazio sanitário”, período de 60 a 90 dias sem plantas de soja no campo, como uma estratégia para reduzir a quantidade de inóculo na entressafra, retardando o aparecimento da doença durante a safra de verão.

Outra medida de manejo que pode ser adotada é o escalonamento de semeadura, em relação ao ciclo da cultura. As plantas precoces passam menos tempo no campo, são colhidas mais cedo e, desse modo, podem “escapar” da doença ou serem menos atingidas.

Como na maioria das regiões não se tem soja no inverno, nas primeiras semeaduras o fungo iniciaria sua multiplicação, e a tendência é que o inóculo aumente com o evoluir da safra. Desse modo, as semeaduras mais cedo também apresentam um mecanismo de escape quanto à concentração de inóculo.

Outras medidas que podem resultar na melhoria da eficiência do controle são:

† Utilizar cultivares mais precoces semeadas no início da época recomendada para cada região, e assim, evitar o prolongamento do período de semeadura para escapar da maior concentração do inóculo;

† Monitoramento das lavouras;

† Observar as condições de temperatura (15ºC a 28ºC) e período de molhamento acima de 6 horas que são favoráveis à infecção.

Genética

A forma ideal de controle da ferrugem é por meio da resistência genética, porém, até o momento, não há cultivares disponíveis comercialmente. Quando a doença já está ocorrendo, o controle químico com fungicida é, até o momento, a principal medida de controle.

A estratégia que tem sido usada com maior frequência é o monitoramento da doença associado ao controle químico. A decisão sobre o momento de aplicação (na constatação dos sintomas iniciais ou de forma preventiva) deve ser técnica, levando em conta os fatores necessários para o aparecimento da ferrugem (presença do fungo na região, idade das plantas e condição climática favorável), a logística de aplicação (disponibilidade de equipamentos e tamanho da propriedade), a presença de outras doenças e o custo do controle.

O atraso na aplicação, depois de constatados os sintomas iniciais, pode acarretar em redução de produtividade, caso as condições climáticas favoreçam o progresso da doença. O número e a necessidade de reaplicações vão ser determinados pelo estádio em que for identificada a doença na lavoura e pelo período residual dos produtos.

Alerta

O surgimento da ferrugem asiática da soja no Brasil poderia ter levado o País a um colapso financeiro significativo, não fosse o nível tecnológico atual, tanto em termos de informações, insumos e facilidades de troca de comunicação, que possibilitam a pronta intervenção nas lavouras. Desta forma, a informação e a tecnologia, associados ao manejo adequado, podem mitigar a agressividade desta doença e diminuir os prejuízos à cultura.

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