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segunda-feira, julho 4, 2022
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Aminoácidos – A defesa natural do cafezal

Autores

Elisamara Caldeira do Nascimento
Pós-doutoranda – PPG Agricultura Tropical – Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT)
Talita de Santana Matos
Pós-doutoranda – PPG Ciência do Solo – UFRural RJ
Glaucio da Cruz Genuncio
Professor do departamento de Fitotecnia – UFMT
glauciogenuncio@gmail.com

Os aminoácidos são moléculas de características estruturais em comum, formados por um carbono central, quase sempre assimétrico, ligado a um grupamento carboxila (COOH), um grupamento amino (NH2) e um átomo de hidrogênio. Além destas três estruturas, os aminoácidos apresentam um radical chamado genericamente de “R”, que diferencia os mesmos.

Esses elementos primários utilizados para sua síntese são obtidos pelas plantas, sendo que carbono e oxigênio vêm a partir do ar, o hidrogênio da água do solo, formando hidratos de carbono por meio da fotossíntese e combinados com o nitrogênio que as plantas obtêm a partir do solo e do ar.

O papel dos aminoácidos

A planta exige uma grande quantidade de energia para sintetizar este processo. Assim sendo, o uso de aminoácidos comerciais na agricultura tem sido praticado por várias décadas, no Brasil e no mundo, em diversas culturas.

Eles apresentam como funções principais a síntese de proteínas, compostos intermediários dos hormônios vegetais endógenos, efeitos quelantes em nutrientes e outros agroquímicos, maior resistência ao estresse hídrico e de altas temperaturas e maior resistência ao ataque de doenças e pragas.

São enquadrados por alguns pesquisadores como moléculas anti-estresse ou bioestimulante, compostos capazes de agir em processos morfofisiológicos do vegetal, como precursores de hormônios endógenos ou como ativadores de enzimas e na disponibilização de compostos capazes de promover tolerância a estresse.

Esses compostos são descritos como produtos que podem reduzir o uso de fertilizantes e aumentar a produção e resistência a altas temperaturas e déficit hídrico. Apresentam grande permeabilidade na cutícula via pulverização foliar, e dessa forma aumentam sua eficiência. Além disto, também apesentam interação com a nutrição das plantas, aumentando a eficiência na absorção, transporte e assimilação dos nutrientes.

A quelatização de minerais com aminoácidos favorece a maior penetração e maior velocidade através da cutícula do que a esperada pela difusão simples, por gerarem moléculas sem cargas, reduzindo o efeito das forças de atração e repulsão da cutícula da folha.

Benefícios para o cafeeiro

Como os aminoácidos são moléculas naturais que fazem parte da composição da estrutura celular das plantas, todas as espécies botânicas são beneficiadas pelo uso exógeno de aminoácidos, incluindo as plantas de café.

Desde a germinação, os aminoácidos participam dos ciclos metabólicos que são necessários para a diferenciação de tecidos.

Quando surgem as primeiras folhas, estando as mudas de café ainda no viveiro os aminoácidos garantem o vigor vegetativo. Atuam por meio de sua participação como moléculas em rotas metabólicas específicas, ou como unidades estruturantes de proteínas e enzimas, lembrando que as enzimas nada mais são do que proteínas especializadas em catalisar reações bioquímicas.

O potencial genético das espécies de café (Coffea arábica e Coffea canephora) se expressará conforme o manejo adotado. Para tanto, os aminoácidos serão os catalizadores, melhorando a efetividade dos tratamentos adotados durante o ciclo produtivo.

Manejo

Os aminoácidos têm como objetivo ativar o metabolismo fisiológico das plantas e não simplesmente suprir a quantidade para a síntese proteica. Aplicando aminoácidos nas plantas estamos economizando a energia que ela precisaria para sua síntese e ainda disponibilizando-o para ser usado em outros inúmeros processos bioquímicos que visam aumentar a produção.

Estes podem ser aplicados de forma isolada ou associada a outros produtos, como fertilizantes foliares, micronutrientes, fertilizantes sólidos (via solo). Contudo, as melhores respostas dos aminoácidos têm sido em situações de estresses bióticos, como aqueles relacionados ao ataque de pragas e doenças, e abióticos, como desordens nutricionais, climáticas, deficiências hídricas ou estresses relacionados à aplicação de defensivos.

Sendo assim, o uso de quelatos formados por cátions + aminoácidos aumenta a capacidade de circulação de nutrientes pelas membranas, culminando em um importante componente da nutrição das plantas, a translocação de nutrientes pouco móveis pelos vasos do floema, como o caso do cálcio.

O aumento da capacidade de circulação de nutrientes promove melhor adaptação aos estresses abióticos, aumento da resistência de pragas e doenças, o que ocasiona menores transtornos na condução das culturas, favorecendo, assim, a maior produtividade e qualidade dos frutos.

Dicas importantes

Os aminoácidos podem ser aplicados desde a semente, na inicialização pós- dormência, formação de mudas, na fase de formação de flor e diferenciação de botão, até o pleno desenvolvimento da cultura, chegando ao amadurecimento.

É preciso ressaltar que as condições de estresses ambientais, como deficiências nutricionais, desequilíbrios hídricos, seca, baixa temperatura, geada, granizo, herbicidas de pós-emergência, transplantio ou enxerto, doenças ou pragas, são onde se observam os melhores resultados de sua aplicação.

As possibilidades de uso de produtos que apresentem aminoácidos nas formulações são variadas. É importante considerar a composição, a origem dos produtos, o objetivo da aplicação e a limitação fisiológica das lavouras em cada fase fenológica de se desenvolvimento.

Produtividade

Por favorecerem a absorção de nutrientes, aumentarem a resistência e tolerância a condições de estresses bióticos e abióticos, promoverem e padronizarem a maturação dos frutos, os aminoácidos fornecem ganhos significativos em produção e produtividade.

Uma importante característica dos aminoácidos está relacionada ao transporte de minerais através da planta. Em especial, podemos citar o caso do enxofre, mineral determinante em produtividade de um cafezal. Este é transportado na forma de metionina ou cisteína, dois aminoácidos sulfurados. O cobre, por sua vez, é transportado complexado com aminoácidos e proteínas.

Do mesmo modo que os casos anteriores, o nitrogênio também é transportado sob a forma de compostos orgânicos, e mais uma vez os aminoácidos são um desses veículos. Nesse caso, o amônio absorvido pela planta ou convertido após a absorção de nitrato é assimilado à glutamina ou glutamato.

A própria bebida do café deve seu sabor e aroma característicos em virtude de compostos fenólicos, os quais são derivados de aminoácidos aromáticos – a cafeína é um exemplo.

No campo

As pesquisas ainda são recentes sobre as ações e a eficiência da aplicação de aminoácidos. Entretanto, alguns produtores confidenciam a redução do estresse na planta com aplicação de complexos de aminoácidos antes e após a ocorrência de geada, com redução dos danos em até 50%, aproximadamente.

Seja Coffea arabica ou Coffea canephora (café arábica ou conilon, respectivamente), em suas diversas cultivares, o efeito da adoção desse tipo de fertilizante apenas será observado quando o cafezal estiver adequadamente manejado. Os aminoácidos não corrigem erros relacionados ao manejo inadequado da adubação, e também não minimizam os efeitos de calagens inadequadas.

Diversos estudos mencionam que em lavouras que utilizam adubações com aminoácidos há um menor risco de fitotoxicidade proveniente de erros em adubações foliares nitrogenadas, por exemplo, uma vez que a presença de glutamina e glutamato no tecido ativará mais rapidamente a imobilização do nitrogênio por esses aminoácidos, contudo, isto não deve ser uma atividade recorrente na lavoura.

Erros

Independentemente da espécie e de suas cultivares, o potencial genético será expresso de acordo com o manejo dado à cultura, portanto, o resultado da aplicação de aminoácidos apenas será observado quando o cafezal estiver adequadamente manejado.

Para tal, estes não corrigem erros relacionados ao manejo inadequado da adubação e calagem.

Portanto, a preparação, implantação e condução de uma lavoura deve ser realizada sob orientação técnica de um engenheiro agrônomo, assessorado por análises de solos e observando as exigências nutricionais de cada espécie e/ou cultivar, buscando alternativas inovadoras para aumentar a produtividade ou reduzir impactos de fatores adversos.

Inovações

A colocação de novos produtos no mercado, representando o desenvolvimento e a difusão de tecnologias cafeeiras disponíveis, deve ser precedida de uma avaliação pela experimentação no local de aplicação, de forma a caracterizar, adequadamente, seus efeitos, com vistas à sua aplicação adequada nas lavouras de café e ao seu uso apropriado pelos produtores.

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