Batata-doce: que método escolher?

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Natalia Oliveira Silva

Engenheira agrônoma, doutora em Produção Vegetal e professora – Centro de Ensino Superior de São Gotardo (CESG)

nataliasilva.13@hotmail.com

Orlando Gonçalves Brito

Engenheiro agrônomo e pós-doutorando – Universidade Federal de Lavras (UFLA)

orlandocefet@yahoo.com.br

A batata-doce (Ipomoea batatas) é uma cultura tropical que se destaca na importância para a segurança alimentar no mundo. A cultura é considerada rústica e pode ser plantada com custo de produção relativamente baixo e boa margem de lucro em todo o País.

A rusticidade da cultura refere-se especialmente à resistência às principais pragas, desenvolvimento satisfatório em solos de baixa fertilidade ou até degradados, além de tolerância ao déficit hídrico.

Todavia, o fato de a cultura ser considerada rústica pode resultar em interpretações errôneas, pois ela é muita responsiva ao aumento do nível tecnológico nos cultivos, especialmente ao uso de adubação e irrigação. Este último fator é de grande relevância, pois em condições severas de restrição hídrica, processos fisiológicos como a fotossíntese e absorção de nutrientes podem ser afetados, resultando em perdas na produtividade e piora na qualidade final das raízes, pela redução dos carboidratos produzidos.

Critérios importantes

Apesar dos bons incrementos resultantes do uso da irrigação, diversas perguntas permeiam o assunto: Qual o melhor período para irrigação? Qual quantidade de água deve ser fornecida? Qual o melhor método a ser usado? Dentre outras dúvidas.

Muitas destas perguntas possuem respostas ainda vagas, já que poucas pesquisas têm sido realizadas sobre o uso da irrigação na batata-doce. Logo, boa parte das inferências relacionadas à irrigação da cultura é baseada em resultados práticos de campo reportados por produtores rurais ou em poucas pesquisas científicas realizadas.

Além disso, a irrigação é uma prática muito influenciada por fatores ambientais e edáficos (relativos ao solo), não sendo exclusivamente relacionada à cultura que se deseja irrigar.

No caso do Brasil, um país continental, há uma multiplicidade de climas, solos e cultivares de batata-doce, o que torna ainda mais complexo realizar a irrigação da cultura. Assim, não há uma “receita de bolo” para a elaboração de um programa de irrigação no cultivo da batata-doce.

Desta forma, é importante que o produtor conheça de forma detalhada as condições ambientais locais, o tipo de solo, a variedade utilizada e os coeficientes técnicos da cultura para um manejo adequado da irrigação. Realizar um manejo de irrigação correto evitará o desperdício de água, processos erosivos do solo e contaminação de mananciais de água com resíduos de adubos e defensivos agrícolas.

Período ideal para a irrigação

É fundamental que o produtor entenda como ocorre o desenvolvimento da cultura e quais as principais exigências fisiológicas nos diferentes períodos fenológicos. O ciclo da cultura é dividido basicamente em três fases, considerando um ciclo entre 90 e 150 dias. Este ciclo irá variar em função da cultivar plantada e também das condições ambientais locais.

Considerando que o primeiro mês é fundamental para o estabelecimento e desenvolvimento da cultura, neste período é necessário que as plantas não sejam submetidas à condição de estresse, especialmente o hídrico. Isto irá aumentar o índice de pegamento das estacas plantadas e, consequentemente, a manutenção do estande planejado inicialmente.

Assim, o produtor deve estar atento ao fornecimento de água nesta fase, considerando as exigências da cultura.

Figura 1: Fases de desenvolvimento da batata-doce.

Fonte: adaptado de Van de Fliert; Braun (1999).

É importante destacar que, apesar da maior exigência no estádio de estabelecimento, as demais etapas fenológicas da cultura também irão exigir que as necessidades hídricas básicas sejam atendidas de forma adequada.

O fornecimento correto de água nestas etapas resultará em melhorias na produtividade e qualidade de raízes. Durante o estágio intermediário, até aproximadamente a 7º semana, 80% das raízes já estarão formadas.

Logo, o período crítico de exigência hídrica concentra-se especialmente entre os 40 a 55 dias após o plantio, pois a partir daí a planta irá iniciar de forma mais intensa a translocação de fotoassimilados para enchimento das raízes tuberosas. Durante a terceira etapa, condições mínimas de umidade serão importantes, inclusive, para melhorias na qualidade das raízes.

Manejo

O manejo adequado da irrigação é fundamental para o desenvolvimento da cultura, uma vez que a restrição hídrica pode comprometer o desenvolvimento da planta e o excesso de água reduz a produção de raízes em detrimento da parte aérea.

De acordo com Embrapa, a cultura da batata-doce exige entre 300 e 800 mm, a depender da cultivar e condições edafoclimáticas. Considerando isso, o ideal seria a aplicação de uma lâmina média diária entre 2,5 a 9,0 mm para a maioria das cultivares (ciclo entre 90 e 120 dias).

Todavia, utilizar estas lâminas como um valor fixo para a determinação do tempo de irrigação não é adequado, já que a cultura apresenta diferentes consumos de água nas diferentes fases de desenvolvimento.

Além disso, o local e a época de plantio podem influenciar na demanda hídrica da cultura, ou seja, a mesma cultivar poderá demandar mais ou menos água durante o ciclo de produção e, ainda, algumas cultivares podem ser mais eficientes no uso da água que outras.

No caso da batata-doce, o período crítico para a sobrevivência das mudas implantadas por meio de estacas não-enraizadas é na primeira semana após o plantio. Nesse período, o solo deverá permanecer úmido, com irrigações leves e frequentes, para evitar a desidratação das estacas até o enraizamento. Por outro lado, pesquisas indicam que o máximo consumo de água da batata-doce ocorre aproximadamente 15 dias após a máxima cobertura do solo.

Na estimativa da lâmina adequada de água a ser aplicada, pode-se usar dados agroclimáticos para estimativa da evapotranspiração da cultura (ETc) baseado em valores de coeficientes de cultura (Kc). Isto permitirá um manejo mais técnico da lâmina a ser aplicada, sendo que para a batata-doce pode-se adotar para o estádio inicial o Kc de 0,50, nos estádios vegetativo e de floração Kc de 1,05 e na maturação/produção Kc de 0,65.

Em relação à determinação da lâmina aplicada, resultados práticos têm mostrado que recompor ao menos 40% da água evaporada no tanque classe A em turno de rega de 21 dias pode proporcionar incremento de 35% na produtividade em comparação ao cultivo não irrigado.

Alguns pesquisadores recomendam que esta recomposição ideal seja de pelo menos 70%. É válido destacar que existem métodos mais complexos e precisos que permitem maior precisão no manejo da cultura, todavia, o uso do tanque classe A pode ser usado com maior facilidade e promover ganhos satisfatórios de produtividade.

Recomendações

Durante a fase de estabelecimento das ramas, a Embrapa recomenda realizar irrigações quando a tensão de água no solo estiver entre 15 kPa e 25 kPa, o que pode ser monitorado por meio de tensiômetros. Quando já houver o pegamento, sugere-se que para um bom desenvolvimento vegetativo sejam realizadas irrigações pelo menos até os 40 dias após o plantio, mantendo a tensão de água no solo entre 25 kPa e 40 kPa. Estas irrigações deverão ser estendidas conforme a necessidade observada pelo produtor.

O aumento no turno de rega é possível pela cultura possuir um sistema radicular profundo (75 a 90 cm) e ramificado, o que lhe possibilita explorar maior volume de solo e absorver água em camadas mais profundas, sendo possível espaçar as irrigações.

Todavia, de forma generalizada, recomenda-se que para o manejo da irrigação da cultura seja considerado 30 cm como a profundidade efetiva do sistema radicular. De maneira prática, a Embrapa recomenda que, após o início das brotações, as irrigações sejam espaçadas, irrigando-se duas vezes por semana, até os 20 dias; uma vez por semana, entre 20 a 40 dias; e a cada duas semanas, após os 40 dias até a colheita. Nestes casos, a lâmina aplicada deverá levar em conta a manutenção da capacidade de campo do solo.

Vale ressaltar que batata-doce não é tolerante ao encharcamento do solo, principalmente durante as fases de formação das raízes e colheita. Caso ocorra encharcamento nestas fases, poderá ocorrer o apodrecimento das raízes por doenças de solo, especialmente as bacterianas. Assim, nessas fases é recomendado irrigar repondo até 70% da capacidade de retenção de água no solo e suspender a irrigação alguns dias antes da colheita das raízes.

Métodos

O melhor método de irrigação a ser utilizado irá depender de diversos fatores, como o nível tecnológico do produtor, o custo de aquisição e a adequação à área de cultivo. Em áreas menores, o uso de sistemas por aspersão convencional tem sido o mais comum, especialmente pelo custo e fácil adequação à pequenas áreas.

O uso de gotejamento também tem sido adotado neste tipo de área. Todavia, conforme a Embrapa Hortaliças, o uso de pivô central no cultivo de batata-doce vem crescendo significativamente em grandes áreas, com produtividades superiores a 50 ton/ha.