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Bokashi no manejo de nematoides em alface

Crédito: Embrapa Hortaliças

Laura Carine Candido Diniz Cruz
la.carine@hotmail.com
Beatriz Calixto da Silva
beatrizcalixtodasilva01@gmail.com
Engenheiras agrônomas e mestrandas em Fitotecnia – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Carlos Antônio dos Santos
Engenheiro agrônomo e doutor em Fitotecnia – UFRRJ
carlosantoniods@ufrrj.br
Margarida Goréte Ferreira do Carmo
Engenheira-agrônoma,
Doutora em Fitopatologia e professora – UFRRJ
gorete@ufrrj.br

Os nematoides são importantes agentes fitopatogênicos causadores de doenças em diversas culturas agrícolas e que podem provocar perdas expressivas na produção. O grupo conhecido como nematoides das galhas, Meloidogyne spp., em especial as espécies M. incognita e M. javanica, têm sido frequentemente relatados e associados a expressivas perdas na cultura da alface e de outras hortaliças.

Infecção

Este grupo de nematoides infecta e coloniza as raízes das plantas hospedeiras e nestas formam galhas, sintoma típico da doença. A infecção e colonização das raízes afetam negativamente a absorção de água e de nutrientes e, consequentemente, o desenvolvimento das plantas.

Plantas severamente infectadas apresentam-se subdesenvolvidas, murchas nos horários mais quentes do dia e com folhas amareladas.

A população de Meloidogyne no solo tende a aumentar com cultivos sucessivos de espécies hospedeiras. Este fato é agravado em sistemas de produção de alface, por ser uma cultura de ciclo curto e ser comum o cultivo de vários ciclos por ano na mesma área e por serem os dois nematoides em questão, M. incognita e M. javanica, polífagos, ou seja, capazes de infectar e colonizar plantas de diferentes culturas de interesse agrícola.

As perdas causadas por Meloidogyne spp. são variáveis, de acordo com a densidade populacional do patógeno no solo, suscetibilidade da espécie e cultivar plantada e das condições do ambiente – solo e clima. A doença pode levar a perdas parciais, como a diminuição da produção e da qualidade do produto final, ou a perda total das lavouras.

Controle

O manejo das culturas e do solo visando o controle das doenças causadas por Meloidogyne spp. deve ser visto sob uma concepção preventiva e integrada. Estratégias preventivas que visem evitar a introdução do patógeno, como utilização de mudas de qualidade e sadias e atenção com a limpeza de máquinas e implementos, e/ou que visem a redução da população do patógeno em áreas já contaminadas, como rotação com espécies não hospedeiras e espécies antagonistas e o pousio ou alqueive, e a correção da acidez do solo devem ser adotadas.

Em áreas com relato de ocorrência do patógeno, medidas que levem à redução das perdas pela doença, como o uso de cultivares resistentes, quando disponíveis, e o adequado manejo da fertilidade do solo, são essenciais.

Outro conjunto de estratégias que pode ser preconizado envolve práticas que levem à promoção do controle biológico natural, pelo fomento à atividade microbiana do solo, ou pelo controle biológico clássico. A utilização coordenada destas estratégias pode levar a resultados satisfatórios, com redução substancial das perdas causadas pela doença.

Crédito: Lara Guimarães

O bokashi

Dentre as formas de promover ou aumentar o controle biológico natural, estão aquelas que podem fomentar a atividade microbiana, como a elevação do pH do solo e o enriquecimento do solo com matéria orgânica.

A utilização de compostos orgânicos é uma das estratégias para estimular a microbiota benéfica do solo. Dentre os principais compostos orgânicos utilizados na produção de hortaliças estão os compostos orgânicos fermentados, conhecidos como “bokashi”.

Esses compostos são relatados como excelentes condicionadores de solo por contribuírem para melhorias das condições físicas, químicas e biológicas do solo. Além de aportar nutrientes e matéria orgânica, estes compostos fermentados favorecem a atividade microbiana benéfica do solo, o que pode contribuir para reduzir as perdas causadas pelos nematoides.

Podem ser utilizados tanto na agricultura orgânica como na convencional e, em ambos os sistemas, poderão contribuir para um adequado fornecimento de matéria orgânica e de microrganismos benéficos ao solo.

Composição

O bokashi é um composto orgânico obtido pela mistura de materiais orgânicos e de microrganismos eficientes, seguido de um período de cerca de três semanas de fermentação. O produtor pode adquirir o bokashi diretamente em mercados especializados, em formulações fareladas ou líquidas, ou pode preparar o seu próprio composto.

Existem diferentes formulações ou receitas de bokashi disponíveis na literatura, desenvolvidas seguindo critérios diversos, como a disponibilidade dos resíduos na unidade de produção ou em regiões próximas.

No entanto, alguns princípios devem ser observados quanto à natureza e composição do resíduo. Dentre os resíduos mais frequentemente utilizados estão os farelos de trigo, soja ou arroz e as tortas, como a torta de mamona, como fontes de carbono e nitrogênio, respectivamente.

Outros itens são também citados, como farinha de ossos e pós de rochas, como o calcário, mas em pequenas proporções. Os resíduos devem ser homogeneizados, inoculados com microrganismos benéficos (EM – comerciais ou capturados na mata), seguido de acondicionamento em vasilhames fechados por cerca de 21 dias, durante os quais ocorrerá o processo de fermentação.

Contra os nematoides

Crédito: Shutterstock

A aplicação do bokashi pode levar a melhorias nas condições químicas, físicas e biológicas do solo, e com isso favorecer o desenvolvimento das plantas. Ao fomentar a atividade microbiana do solo, pode também contribuir para o aumento de processos supressivos a alguns fitopatógenos.

Este efeito deve-se ao crescimento de microrganismos e microambiente adequado para a multiplicação da microbiota benéfica no solo. Dentre os mecanismos relacionados à redução dos danos causados por patógenos de solo está a indução de resistência nas plantas, liberação de substâncias tóxicas aos patógenos e a ocorrência de competição, parasitismo e antibiose pela ação da microbiota benéfica.

Além disso, por serem boas fontes de nutrientes, a adubação de hortaliças com bokashi leva ao aumento do acúmulo de biomassa pelas plantas, tanto das raízes como da parte aérea das plantas. No caso da alface, pode-se observar aumento do número de folhas e tamanho das cabeças produzidas.

Resultados

Resultados de pesquisa demonstram respostas positivas da adubação com bokashi no crescimento das plantas de alface e redução das perdas causadas por nematoides. Ferreira et al. (2017) verificaram que a adição de 14 g de bokashi por planta aumentou o crescimento de plantas de alface e reduziu a incidência de galhas radiculares causadas por M. javanica.

Ferreira & Dias-Arieira (2015) observaram que adição de bokashi proporcionou ganhos em produtividade na alface e redução de 62,8% a 77,7% do número de ovos de M. javanica. Resultados semelhantes também foram encontrados por Dias-Arieira (2015), que verificaram que a adição de bokashi reduziu o número de galhas e de ovos de M. javanica, além de aumentar o desenvolvimento vegetativo das plantas de alface.

Manejo

A quantidade de bokashi a ser aplicada dependerá da composição do material, que pode ser variável de acordo com a formulação ou materiais utilizados em seu preparo, histórico de uso da área e resultado da análise do solo.

No geral, as doses de bokashi aplicadas no transplantio variam de 200 a 400 g por metro quadrado de canteiro. Esta aplicação deve ser feita com pelo menos 10 dias de antecedência ao plantio e o composto deve ser bem incorporado ao solo.

Logo após a aplicação do bokashi, há um aumento substancial da atividade microbiana que pode levar à elevação da temperatura do solo e indisponibilidade temporária de nutrientes, especialmente N. Estes efeitos podem prejudicar o pegamento e desenvolvimento inicial das mudas.

A incorporação do bokashi também é importante para se otimizar os seus efeitos na supressão dos nematoides.

Custo-benefício do bokashi

A utilização de bokashi na produção de alface e demais hortaliças folhosas é uma boa estratégia, tanto pelo aporte de matéria orgânica e de nutrientes como pela adição de microrganismos benéficos e fomento à atividade microbiana do solo.

Para atingir uma maior relação custo-benefício, é importante buscar fontes locais de resíduos e misturas e proporções adequadas deles.

O bokashi deve ser usado em associação com uma série de práticas sustentáveis de manejo do solo e das culturas, incluindo as medidas preventivas quanto à introdução e dispersão de patógenos de solo na área.

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