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quinta-feira, agosto 11, 2022
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Cenário brasileiro sobre as doenças do algodoeiro

Autor

Letícia Ane Sizuki Nociti Dezem
Doutora em Produção Vegetal e professora da FEB e FAFRAM
leticianociti@gmail.com

Crédito: Ademir Torchetti

A murcha de fusarium, ou fusariose, tem como agente causal o fungo Fusarium oxysporum f. sp. vasinfectum. Esta doença foi constatada pela primeira vez na região nordeste, ocorrendo com maior ou menor incidência na maioria dos Estados desta região. Atualmente, sua ocorrência se constitui em uma ameaça a todas as regiões produtoras de algodão do Brasil.

Esse fungo pode ser transportado tanto internamente como externamente pela semente, e a sua transmissibilidade via sementes é da ordem de 0,6%. O patógeno localizado no sistema vascular da planta atinge a casca do caule, indo até o pedúnculo da maçã, penetrando no seu interior e infectando as sementes.

Essa doença, além de causar queda acentuada na produção, pode afetar a qualidade ou características tecnológicas da fibra, como comprimento, uniformidade, finura, resistência, além do peso de 100 sementes e do capulho.

Sintomas

Os sintomas se manifestam em qualquer idade da planta e variam de acordo com a cultivar plantada, que pode apresentar diferentes graus de resistência ou suscetibilidade à doença e com as condições climáticas predominantes. Em plântulas de cultivares suscetíveis, primeiramente observa-se o amarelecimento e escurecimento das folhas cotiledonares a partir das bordas.

Estas folhas secam e morrem, causando a murcha propriamente dita e a morte da plântula. As folhas das plantas adultas afetadas apresentam, inicialmente, clorose em áreas irregulares da superfície foliar e, posteriormente, necrose, murchamento e queda das folhas, principalmente do baixeiro, causando, consequentemente, a redução do porte da planta ou a sua morte.

Em geral, as plantas infectadas com a murcha-de-fusarium apresentam um desenvolvimento mais lento, ficando com a altura reduzida, as folhas menores e os capulhos apresentando menor tamanho e peso.

O diagnóstico da murcha-de-fusarium é realizado por meio do sintoma mais característico desta doença, e que pode ser observado em cortes transversais do caule ou da raiz, os quais apresentam um escurecimento dos feixes vasculares decorrente da oxidação e polimerização de compostos fenólicos.

Dentre as condições que favorecem o desenvolvimento da doença, podem ser citados os solos arenosos, úmidos, com acidez elevada e baixo teor de potássio. A severidade tende a ser maior quando o fungo ocorre associado a nematoides, principalmente dos gêneros Meloidogyne, Pratylenchus e Rotylenchulus. Os nematoides, além de facilitarem a penetração do fungo através da abertura de ferimentos nas raízes, debilitam a planta, tornando-a predisposta ao desenvolvimento da doença.

Controle

A principal medida de controle a ser adotada para essa doença é o uso de cultivares resistentes. Os produtores devem se preocupar, também, com a utilização de sementes livres do patógeno, sobretudo em áreas onde a doença ainda não ocorre, bem como onde são plantadas cultivares suscetíveis à doença.

Não devem ser utilizadas para o plantio sementes provenientes de campos de produção afetados com a doença. Na compra de um lote de sementes, os produtores devem solicitar o teste de sanidade, pois somente assim é possível se certificar se estas encontram-se livres de infecção pelo agente causal da fusariose.

É fundamental que as sementes sejam tratadas com fungicidas, e este tratamento deve ser realizado com produtos registrados no Ministério da Agricultura, evitando, dessa maneira, a introdução do patógeno em áreas livres. Aconselha-se a utilização de práticas culturais, como a rotação de culturas em áreas onde já foi constatada a presença de F. oxysporum f. sp. vasinfectum e nematoides, pois, nessas condições, até mesmo aquelas variedades consideradas mais resistentes poderiam ser afetadas e, consequentemente, ocorrer perdas econômicas.

É de extrema importância que a cultivar utilizada na rotação de culturas não seja tolerante aos nematoides patogênicos à cultura do algodoeiro, para evitar a multiplicação destes na lavoura. É importante, ainda, a realização de uma adubação potássica equilibrada, pois esta medida pode reduzir a quantidade de inóculo do fungo no solo.

Deve-se evitar o trânsito de máquinas, implementos ou qualquer dispersor de partículas de solo, de áreas infestadas para as áreas livres. A desinfestação de qualquer equipamento deverá ser feita após a sua utilização nessas áreas.

Ramulose

A ramulose, causada pelo fungo Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides, encontra-se disseminada pelas principais regiões onde se cultiva o algodoeiro. O fungo pode ser transportado e transmitido pelas sementes, sendo estas a principal via de disseminação do patógeno a longas distâncias.

No campo, o patógeno pode sobreviver em restos culturais, e a disseminação dos esporos do fungo a curtas distâncias ocorre por meio de respingos da água das chuvas ou irrigação. As condições climáticas favoráveis à ocorrência da ramulose são umidade relativa do ar elevada, geralmente acima de 80%, alta pluviosidade e temperaturas entre 25 e 30ºC.

Sintomas

Os sintomas da doença manifestam-se em plantas de qualquer idade, preferencialmente em tecidos jovens. Inicialmente, os sintomas caracterizam-se pelo aparecimento de pequenas manchas arredondadas nas folhas jovens, na forma de lesões necróticas.

O crescimento desigual do limbo foliar provoca o enrugamento da folha e o rompimento das lesões necróticas, formando fissuras denominadas manchas estreladas. O fungo se instala no meristema apical da planta, causando a sua morte, o que favorece as brotações de ramos laterais, dando início ao superbrotamento ou ramulose.

Consequentemente ocorre o encurtamento dos internódios e a redução no porte da planta. A ramulose tardia, que ocorre geralmente a partir da fase de florescimento, apresenta sintomas semelhantes de superbrotamento, porém, na maioria das vezes, não afeta as estruturas reprodutivas e, consequentemente, a produção.

Medidas de controle

As principais medidas que devem ser adotadas para o controle efetivo dessa doença são: a utilização de cultivares resistentes, a utilização de sementes livres do patógeno e tratadas com fungicidas; a rotação de culturas; a destruição dos restos culturais; o uso de adubação equilibrada, pois a alta fertilidade do solo favorece o desenvolvimento da doença (Cia; Salgado, 1997); e o monitoramento adequado da lavoura, para que o controle químico com fungicidas possa ser realizado após o aparecimento dos primeiros sintomas.

Mela

A mela foliar do algodoeiro, causada pelo fungo Rhizoctonia solani, está presente em todo Brasil, com ocorrência significativa principalmente na fase inicial de desenvolvimento da cultura. As doenças ocasionadas por este patógeno causam redução da população de plantas e, às vezes, se faz necessária a ressemeadura, consequentemente ocasionando perdas econômicas, uma vez que a mela foliar e o tombamento representam 6,44% do custo de produção.

O tempo úmido (acima de 80% de umidade relativa) e quente, com temperaturas variando entre 25 e 30ºC são ideais para o desenvolvimento da mela foliar, a qual tem a disseminação ocasionada por restos culturais, por solo contaminado e pelo contato folha a folha ou planta a planta, em razão das chuvas.

Sintomas

Os sintomas característicos da mela são lesões de aspecto oleoso que adquirem a característica de escaldadura, ou podridão mole. Em condições de baixa umidade as lesões ficam restritas a manchas necróticas.

Há de se ressaltar que a R. solani AG4 já é patógeno na cultura do algodoeiro, causando a doença conhecida como “tombamento”, caracterizada pela formação de lesões no colo e nas raízes das plântulas de algodão, sintomas bem distintos das lesões cotiledonares observadas na mela.

Medidas de controle

O manejo desta doença começa no tratamento de sementes com fungicidas para proteção inicial da semente contra fungos de solo, o que, segundo pesquisas, proporcionou maior porcentagem de germinação da semente no campo e, consequentemente, um estande mais uniforme.

Melhores emergências de plântulas e menor percentagem de tombamento e de mela se deram com a utilização de misturas de fungicidas. A rotação de culturas também se mostra eficaz para inibição da atividade patógênica na área de plantio (supressividade), dando sempre preferência a gramíneas que proporcionem redução da população da R. Solani nos solos, como, por exemplo, pastagens.

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