Composto orgânico proporciona mais qualidade para o solo?

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Autores

Regina Maria Quintão Lana
Professora de Fertilidade e Nutrição de Plantas – Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
Miguel Henrique Rosa Franco
Doutor em Agronomia – UFU
Mara Lúcia Martins Magela
maralumm@hotmail.com
Danyela Cristina Marques Pires
Doutorandas em Agronomia – UFU
Fotos: Shutterstock

O composto orgânico é um fertilizante obtido pela mistura de resíduos orgânicos de origem vegetal, animal, industrial ou urbano e que passam por um processo bioquímico natural ou controlado, ou seja, um período de compostagem assistida.

Compostagem é um processo biológico de transformação parcialmente controlada da matéria orgânica crua em substâncias húmicas, estabilizadas, higienizadas, com propriedades e características diferentes do material que lhe deu origem. Trata-se do aproveitamento de matéria-prima que contém relação carbono/nitrogênio (C/N) favorável ao metabolismo dos microrganismos que irão efetuar sua biodigestão (Torres; Tarifa, 2012).

A compostagem é uma alternativa viável e econômica para recuperar a matéria orgânica e que atende a critérios mínimos de qualidade biológica, química e física para utilização na agricultura (Spadotto; Ribeiro, 2006).

É uma tecnologia capaz de transformar as características dos resíduos sólidos orgânicos em um produto com características de condicionador de solo e/ou fertilizante para ser usado de forma segura, com grande potencial na agricultura (Matias, 2019).

Cuidados

Para que a compostagem ocorra de maneira adequada e com qualidade, é necessário atentar-se ao local de montagem das pilhas de matéria-prima, que deve ser limpo; ligeiramente inclinado, para facilitar escoamento de líquidos; e com espaço suficiente, que permita revolvimento e circulação de maquinários.

Outro aspecto importante é a qualidade dos resíduos em relação ao conteúdo de nitrogênio e carbono. Os materiais podem ser divididos em duas classes: materiais ricos em carbono, como cascas de árvores, palhas e fenos; e materiais ricos em nitrogênio, que incluem os restos de vegetais (hortaliças e leguminosas), bem como dejetos animais (Cerri et al., 2008).

Na construção das pilhas de compostagem é possível utilizar misturas de materiais ricos em carbono com outros ricos em nitrogênio. Os materiais ricos em carbono são responsáveis por fornecer a matéria orgânica e a energia para a compostagem.  Os materiais nitrogenados aceleram o processo de compostagem, pois o nitrogênio é necessário para o crescimento dos microrganismos (Cerri et al., 2008).

Uma relação C/N considerada adequada apresenta limites de 26/1 e 35/1 devido o potencial de promover uma compostagem de forma rápida e eficiente (Spadotto; Ribeiro, 2006). O tamanho das partículas e a umidade também precisam ser observados, pois partículas muito finas podem levar à compactação, enquanto que resíduos maiores retardam o processo de decomposição.

Para a umidade, o adequado é estar entre 40 e 60%, pois nessa faixa garante-se que haja atividade microbiana sem comprometimento da aeração da massa. O oxigênio é fundamental para a oxigenação biológica e o controle da temperatura deve ser monitorado constantemente, pois o processo fermentativo gera calor (Torres; Tarifa, 2012).

Origem da compostagem

A compostagem é desenvolvida pela ação de uma população diversificada de microrganismos, efetuada em duas fases: na primeira ocorrem as reações bioquímicas mais intensas, predominantemente termofílica, enquanto que a segunda fase se caracteriza pelo processo de humificação (Cerri et al., 2008). Em geral, é necessário um período de 90 a 120 dias para obtenção do composto orgânico bioestabilizado.

Segundo Torres e Tarifa (2012), um composto estabilizado caracteriza-se por apresentar temperatura igual à ambiente, sendo que quando seco apresenta-se quebradiço e quando molhado é possível moldá-lo. Além disso, não apresenta cheiro desagradável, não atrai insetos, não possui substâncias tóxicas e a relação C/N é inferior a 25.

Compostos orgânicos bioestabilizados fornecem substâncias húmicas (ácido húmico e fúlvico) e substâncias não húmicas, como lipídios, carboidratos, proteínas, pigmentos, ácidos orgânicos de baixo peso molecular, aminoácidos (aproximadamente 20 tipos) e hormônios vegetais (auxina, giberelina e citocinina).

Além disso, apresentam quantidades relevantes de vários nutrientes (Ca, Mg, S, Si, B, Se, Ni, Cu, Mn, Co, Mo, Fe, Zn e Cl), alto teor de carbono estável e ausência de contaminantes químicos (metais pesados).

Outro aspecto importante dos compostos orgânicos é a biodiversidade de microrganismos benéficos. Cerri et al. (2008) comentam que a ação combinada de macro e mesofauna, bem como de diferentes comunidades de microrganismos, predomina em diferentes fases da compostagem e por isso há abundância de microrganismos que metabolizam nutrientes.

Além de fornecer nutrientes e substâncias húmicas, os microrganismos presentes nos compostos orgânicos também auxiliam no controle de pragas, como os nematoides (Trani et al., 2013).

Devido às diferentes origens dos compostos orgânicos, é importante atentar para a relação C/N, carbono/fósforo (C/P) e carbono/enxofre (C/S). Recomenda-se que a relação C/N seja menor que 25 e a relação C/P e C/S menor que 200, para que não ocorram perdas desses nutrientes por imobilização (Trani et al., (2013).

Tendência

O uso de compostos orgânicos pode ser uma alternativa promissora para aumento de produtividade de hortaliças e frutíferas, considerando que a comercialização vem crescendo no Brasil em ritmo acelerado nos últimos anos (Santos et al., 2001).

Esse aumento se deve ao fato de que o composto orgânico é um excelente condicionador de solo, pois melhora a agregação, o que influencia positivamente na infiltração e capacidade de retenção de água, bem como na drenagem, aeração, temperatura e penetração de raízes (Oliveira et al., 2009).

Santos e Mendonça (2000) relataram outros benefícios dos compostos orgânicos, como redução da densidade do solo, liberação de ácidos orgânicos, como o ácido húmico e fúlvico, ácido tânico, aminas, dentre outros.

Mais pesquisas

Muitas pesquisas também vêm demonstrando os efeitos dos compostos orgânicos sobre a produção de diversas culturas. Damatto Júnior et al. (2005), avaliando a adubação orgânica em maracujazeiro-doce, comentam que a aplicação melhorou os atributos químicos do solo quanto à sua capacidade de retenção de bases, e como consequência, maior balanço nutricional, o que aumentou a qualidade e número de frutos por planta.

Leonel e Tecchio (2009), em pesquisa com composto orgânico, também observaram aumento de produção e número de frutos na cultura da figueira.

  Bruno et al. (2007) estudaram a eficiência da adubação verde, do composto orgânico e do biofertilizante na produção da cenoura e na qualidade das sementes, comparados à adubação convencional. Os autores verificaram maior produção e menor incidência de nematoides nas áreas cultivadas com adição de compostos orgânicos em relação ao fertilizante mineral.

 Carvalho et al. (2017), avaliando o desenvolvimento e a produtividade da cebola submetida a diferentes doses de composto orgânico e níveis de adubação NPK, demonstraram que houve produtividade máxima de bulbos comercializáveis quando aplicado 50% da adubação NPK com composto orgânico.

Alerta

Para obter esses benefícios, deve-se evitar fertilizantes orgânicos mal decompostos ou de origem não controlada, que podem introduzir ou aumentar o número de microrganismos nocivos às plantas, introduzir sementes de plantas daninhas, metais pesados e microrganismos patogênicos ao homem.

Nesse contexto, salienta-se que a aquisição de compostos orgânicos pelo produtor deve ser monitorada levando em conta a qualidade do material de origem, tipo de compostagem realizada, relação C/N, C/P e C/S, concentração e balanceamento de nutrientes, teor de carbono orgânico e umidade.

Os compostos orgânicos podem ser farelados, granulados ou peletizados e ainda podem ser enriquecidos com as fontes minerais de macro e micronutrientes, resultando nos fertilizantes organominerais.

Esses fertilizantes podem ser advindos de misturas de grânulos ou podem conter macro e micronutrientes no mesmo grânulo ou pellet e suas formulações podem conter concentrações de nutrientes ajustadas de acordo com a demanda da cultura, o que permite maiores produções e também atende os aspectos econômicos, sociais e ambientais.