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Desmatamento aumenta 86% no Cerrado

Estiagem prolongada facilita a derrubada de vegetação nativa que atinge 109 mil hectares em outubro; acumulado de 2023 já é de 851 mil, área sete vezes maior do que a cidade do Rio de Janeiro.

O desmatamento no Cerrado cresceu 86% em outubro de 2023 em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo 109 mil hectares. Esse é o pior resultado para o mês de outubro nos últimos três anos e terceiro pior mês de 2023. Dados foram detectados pelo SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado). O desmatamento acumulado de 2023 até o mês de novembro chega a 851 mil hectares, área sete vezes maior do que a cidade do Rio de Janeiro.

O aumento das taxas em outubro foi novamente liderado por estados do Matopiba – fronteira agrícola composta por partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – e intensificado pela forte seca que atinge o bioma. Pesquisadoras do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) apontam que a tendência de diminuição na abertura de novas áreas, esperada para o mês de outubro, pode ter sido revertida por conta da falta das chuvas.

Um estudo liderado por pesquisadores da UnB (Universidade de Brasília) aponta que a conversão de áreas nativas do Cerrado para pastagens e agricultura já tornou o clima na região quase 1°C mais quente e 10% mais seco. Os resultados apontam um calor severo e períodos ainda mais secos até meados do século, se o desmatamento continuar no ritmo atual. O aumento de temperatura foi de 0,7°C no pior cenário e de 0,3°C no cenário intermediário.
 

O SAD Cerrado é um sistema de monitoramento desenvolvido por pesquisadores do IPAM que fornece alertas de desmatamento de vegetação nativa em todo o bioma. O projeto faz uso de imagens do satélite Sentinel-2 (com 10 metros de resolução), da Agência Espacial Europeia, e técnicas avançadas de processamento de imagem.
 

Fronteira agrícola

Seguindo o padrão observado nos últimos meses, o Matopiba registrou aumento significativo no desmatamento em outubro. Durante o mês, a região desmatou 81,5 mil hectares de Cerrado, cerca de 74,6% de tudo o que foi derrubado no bioma.

No Maranhão, foram desmatados 42,5 mil hectares de vegetação nativa, um aumento de 148% em relação a outubro do ano passado. No Tocantins, o segundo estado que mais desmatou em outubro de 2023, o aumento foi de 185%, chegando a 23,5 mil hectares. O Cerrado baiano, por sua vez, perdeu 10,6 mil hectares em outubro, 148% a mais do que em 2022. O Piauí registrou 10,9 mil hectares desmatados, aumentando 80% do seu desmatamento em relação ao mesmo período do ano passado.

Com os dados de outubro, o total de 2023 já chega a 851 mil hectares, 26% maior do que todo o desmatamento de 2022 e 47% a mais do que em 2021. Desse total, 75% ocorreu nos remanescentes de vegetação nativa do Matopiba.

Municípios
 

A lista de municípios que mais desmataram o Cerrado também está dominada por regiões do Matopiba. Em outubro, ninguém desmatou mais do que Cocos, na Bahia, que perdeu 3,4 mil hectares, seguido por Mateiros, no Tocantins, que derrubou 2,7 mil. Na lista dos dez municípios que mais abriram áreas do bioma em outubro, seis estão no Maranhão, três na Bahia e um no Tocantins.

No norte do Maranhão, outro caso merece destaque: o município de Aldeias Altas, que ainda não havia figurado na lista dos que mais desmataram, alcançou a sexta posição no ranking. Em outubro, o município foi responsável pela perda de cerca de 2 mil hectares, sendo 1,1 mil em apenas um alerta.

“A pressão sobre os últimos remanescentes de vegetação nativa no Matopiba tem contribuído para a perda de biodiversidade e impactos negativos no equilíbrio ambiental da região. Além disso, observa-se um avanço significativo do desmatamento em direção aos municípios onde ainda há extensas áreas de vegetação nativa, como o município de Aldeias Altas no Maranhão, aumentando a urgência de ações efetivas para a conservação e manejo sustentável desses ecossistemas antes que sejam irremediavelmente comprometidos”, destaca Tarsila Andrade, pesquisadora do IPAM.

Novo perfil

Outubro apresentou mudanças em seu padrão de desmatamento. No último mês, 12% dos alertas foram referentes a áreas enquadradas como vazios fundiários – terras públicas sem destinação definida sem informações – que representam 9% dos alertas em setembro. A categoria com mais alertas, no entanto, ainda foi a de áreas privadas, com mais de 75% da área derrubada.

O perfil da vegetação desmatada também passou por mudanças. Embora as savanas do Cerrado ainda sejam as mais afetadas, houve um aumento da supressão de vegetação nativa da formação campestre do bioma em outubro: de 26% em setembro, foram para 32% de toda a vegetação nativa perdida no mês passado.

“A concentração do desmatamento em áreas campestres e savânicas, apontada pelos dados do SAD Cerrado, é um indicativo de que a abordagem global para perdas de florestas vem falhando ao não considerar a importância da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos prestados por formações não florestais, como as presentes na maior parte do Cerrado. Por isso, é urgente agir contra a destruição desse bioma e coordenar esforços para protegê-lo diante da crise climática. A revisão do PPCerrado oferece uma oportunidade crucial para intensificar o compromisso na implementação de medidas de proteção e reverter a destruição em andamento”, ressalta Fernanda Ribeiro, pesquisadora do IPAM.

Segundo pesquisadores, os esforços internacionais para conter o desmatamento em florestas, como na Amazônia, podem deixar outros tipos de vegetação nativa, como os campos do Cerrado, vulneráveis. Por isso, no início do mês, mais de 40 pesquisadores brasileiros assinaram uma carta publicada na revista Nature Ecology & Evolution em defesa “da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos prestados por biomas não florestais.”

Apesar de representar cerca de um quarto de todo o território nacional, apenas 8% do bioma Cerrado é protegido por UCs federais de proteção integral ou uso sustentável, segundo o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Em 2022, mais da metade da área do bioma já havia sido convertida para uso agropecuário, como apontado pelo MapBiomas.

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