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Desmatamento aumenta o custo das mudanças climáticas para o agronegócio

Desmatamento em Rondônia, 2021 – Crédito: André Dib/WWF-Brasil

O desmatamento, um dos principais causadores das alterações climáticas locais, aliado às mudanças do clima global, traz impactos significativos ao agronegócio brasileiro. Entre 1985 e 2012, o desmatamento causou uma redução média de 12% na produtividade do cultivo da soja na Amazônia e 6% no Cerrado, com decréscimo de mais de 20% em algumas regiões dos dois biomas.

Estes são alguns dos destaques da mais recente nota técnica do WWF-Brasil, que compila estudos relevantes sobre o tema. Eles reafirmam a íntima relação do desmatamento, mudanças climáticas e produtividade agrícola. O levantamento aponta que as altas taxas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado resultam em queda de produtividade e rentabilidade para o agronegócio brasileiro.

Outro dado da nota técnica mostra que a queda de receita bruta referente a diminuição da regulação de temperaturas extremas após o desmatamento foi de, em média, US$ 158,50 anualmente para cada hectare de soja produzida na Amazônia, tendo o valor do dólar em 2005 como referência. No caso do Cerrado, foram registrados aumentos mensais entre 2,2 e 4,0oC nas temperaturas máximas e 2,4 e 2,8oC nas temperaturas mínimas entre 1961 e 2019.

“Impacto para a produtividade agrícola significa menos comida na mesa, maior inflação e impacto nas exportações. As mudanças climáticas afetam diretamente a oferta e o custo dos alimentos. Esse movimento já está acontecendo, mas tende a se agravar se não pararmos o desmatamento agora e desenvolver ações de mitigação e restauração dos ecossistemas naturais”, afirma Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil.

Foram levantadas, ainda, estimativas de perdas futuras de produtividade de soja e pastagem na Amazônia Legal, considerando diferentes cenários de gestão territorial. Essas perdas poderiam atingir 26% para soja e 32% para pastagem até a metade deste século. Caso não haja adaptação por parte dos produtores, 20% a mais de área desmatada na Amazônia e no Cerrado até 2050 podem levar a perdas adicionais de produtividade entre 6% e 10% no Matopiba e 20% em Mato Grosso, principais regiões produtoras de grãos do país, além das perdas causadas pelas mudanças climáticas globais.

Outro estudo mostra que, além das perdas de renda bruta causadas pelas mudanças climáticas globais, o Mato Grosso poderá perder adicionalmente US$ 1,8 bilhão relacionado ao desmatamento até 2050.

Em relação ao milho cultivado após a colheita da soja (milho segunda safra), estudos indicam que o desmatamento levaria a uma queda de até 8% de produtividade. Caso seja necessário adiar as datas de plantio das culturas para se adaptar a um cenário em que a estação chuvosa comece mais tarde e dure menos tempo, essa queda passaria para aproximadamente 30%. O estudo sugere que, com a persistência do desmatamento até o meio do século, a adaptação de datas de plantio e adoção de cultivares de ciclo mais curto não serão suficientes para manter os níveis de produtividade atuais em sistemas de dupla safra (soja e milho). Essas alterações estariam ligadas ao encurtamento da estação chuvosa e aos impactos decorrentes em cultivo de sequeiro (sem irrigação).

Uma das avaliações indica perdas de renda bruta no cultivo de soja na Amazônia em diferentes cenários de governança até 2050, levando em consideração as relações empíricas estabelecidas com dados observados de chuva e área desmatada. Os autores mostram que um cenário de gestão fraca pode levar à perda de 56% da área de floresta até 2050, o que causaria perda de renda bruta do cultivo de soja de cerca de R$ 1 bilhão anualmente.

Prejuízos em toda a cadeia

Além do agro, as perdas afetam também outros setores. Um relatório baseado em estimativas das próprias matrizes de risco de empresas brasileiras aponta perdas de até R$ 24 bilhões por não apresentarem ações contra o desmatamento em suas cadeias de valor. O valor resulta de prejuízos com dano reputacional, fuga de consumidores, dificuldades em acessar mercados internacionais e alterações na dinâmica dos ecossistemas.

O WWF-Brasil observou também os dados da Plataforma Desmatamento e Chuva que traz informações sobre a perda de receita bruta na produção de soja e carne bovina devido ao desmatamento e consequente alteração climática.

Os dados apontaram que, quanto maior é o nível de desmatamento (variando de 10% a 40%), maior é a perda de receita bruta para soja, independente da data de plantio, e para a produção de carne bovina. A plataforma é baseada em um estudo que avalia a variação espacial do valor do serviço ecossistêmico de regulação climática para a produção agrícola na Amazônia a partir de cenários de desmatamento progressivo da floresta e simulações com modelos agrometeorológicos.

Importante salientar que desde 1961, os efeitos da crise climática provocada pelo homem reduziram em 21% a produtividade agrícola global. Essa porcentagem é maior (entre 26% e 34%) nas regiões mais quentes, como América Latina, África e Caribe.

Adaptação para diminuir perdas

Estudos existentes abordam estimativas da perda de produtividade para diferentes cenários de uso do solo e mudanças climáticas, mas com poucas informações baseadas em observações de campo. Mesmo com esta limitação, os dados disponíveis já são preocupantes. Por isso, além de apontar o desmatamento zero como o principal caminho de mitigação de perdas, o levantamento ressalta algumas práticas sustentáveis que estão em funcionamento e devem ser fortalecidas: melhoramento genético de cultivares de plantas e de raças de animais, plantio direto na palha, fixação biológica de nitrogênio, sensores digitais para avaliação de solo e planta, zoneamento agrícola de risco climático, zoneamento agroecológico e outras iniciativas que são imprescindíveis para a permanência do país no topo da produção agropecuária, aponta a conclusão de um documento do WRI Brasil.

Os dados da nota técnica são unânimes ao apontar que há urgência na aplicação de soluções sustentáveis para a manutenção das florestas e mitigação da crise climática. “Muitas ferramentas já existem, mas carecem de implantação pelo poder público e engajamento por parte de outros atores, como empresas e setor produtivo, por exemplo. A ciência está a nosso favor, com dados e perspectivas, cabe a nós priorizar ações que garantam um futuro equilibrado para as próximas gerações”, alerta Mariana Napolitano gerente de Ciências do WWF-Brasil.

Algumas tecnologias estão previstas em políticas públicas do país, como Plano de Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) e a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), que são, segundo o estudo, instrumentos fundamentais para potencializar a adaptação na agropecuária, sobretudo porque garantem a conservação da biodiversidade e protegem os polinizadores; mantêm a oferta e a qualidade da água; atenuam extremos climáticos, como secas e ondas de calor, principais responsáveis por quebras de produção; reduzem a ocorrência de desastres naturais, especialmente riscos de inundação e erosão do solo; mantêm o equilíbrio de ciclos biogeoquímicos; sequestram carbono no solo; proporcionam diversidade de produção e de renda para o produtor rural; e contribuem para maior resiliência dos sistemas produtivos às mudanças climáticas.

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