Expansão da cafeicultura em Rondônia

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Foto: Abraão Carlos

Alisson André Vicente Campos
Engenheiro agrônomo e doutorando em Agronomia/Fitotecnia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)
alissonavcampos@yahoo.com.br
Mauro Magalhães Leite Faria
Engenheiro agrônomo, mestre e doutorando em Agronomia/Fitotecnia – UFLA, e consultor em cafeicultura
mauro.faria@ufla.br
Túlio Pires
Técnico em Cafeicultura – IF Sul de Minas e graduando em Agronomia – UFLA
tuliopiresagro@gmail.com

Rondônia é o quinto maior produtor de café do País, segundo da espécie canéfora e responsável por 97% de todo o grão produzido na Amazônia. Nos últimos anos, as lavouras do Estado vêm passando por uma contínua expansão de área e evolução tecnológica, tornando-se mais produtivas, sustentáveis e com aprimoramento da qualidade dos grãos.

Rondônia é o segundo maior produtor de café canéfora do Brasil, apresentando em 2022 uma produção de 2,64 milhões de sacas, correspondendo a 14,9% do total e área de 71.744 ha.

A região de indicação geográfica Matas de Rondônia é composta por 15 municípios, concentrando 83% da produção do Estado, com mais de 10 mil proprietários de lavouras de café.

Origem e evolução

A cafeicultura começou na região por meados da década de 1970, com produtividades muito baixas, inferiores a 13 sacas por hectares em 2013 e chegando às atuais 37 sacas de média.

 Algumas regiões mais tecnificadas, como o município de Nova Basilândia d’Oeste, têm produzido até 70 sacas por hectare com a utilização de mudas clonais e irrigação. As baixas produtividades do passado eram associadas à não realização de alguns tratos culturais importantes, como desbrotas, podas, adubações, manejos fitossanitários e atividades de pós-colheita. 

Atualmente, há um forte trabalho de pesquisa da Embrapa Rondônia e extensão para auxílio aos cafeicultores.

Genética

Os materiais genéticos utilizados na região geram preocupação quanto ao estreitamento genético, decorrente do pouco uso de clones com características que os produtores já estão mais familiarizados. 

A Embrapa Rondônia também tem realizado um trabalho essencial na região na obtenção de novos materiais genéticos e sua divulgação. Embora na região os cafés sejam referidos como canéfora, estes são de dois grupos botânicos, “Conilon” e “Robusta”, além do híbrido natural do seu cruzamento.       

Características de Rondônia

A produção de café em Rondônia iniciou-se com empreendedores pioneiros dos Estados tradicionalmente produtores do grão, como São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Espírito Santo.

A espécie de café canéfora se adaptou melhor à região em decorrência das condições edafoclimáticas do Estado. Além disso, o café canéfora é mais rústico e produtivo do que o arábica.

Para implantação de lavoura cafeeira, é importante que os solos apresentem boa fertilidade natural, saturação por bases e alumínio, textura e que não apresentem impedimentos físicos que prejudiquem o sistema radicular.

Embora a diversidade de solos encontrados no Estado de Rondônia, há uma predominância nas classes Latossolos (31,6%) e Argissolos (45,2%), que são adequados à cafeicultura.

A temperatura do ar é a variável climática mais importante para estabelecer a aptidão cafeeira de uma região, compreendendo uma faixa de 22 a 26ºC e umidade relativa do ar de 70 a 80%. Já as exigências pluviométricas ficam na faixa de 1.500 a 1.900 mm.

Pluviosidade

O Estado de Rondônia apresenta média pluviométrica de 1.340 a 2.340 mm, concentrado no período de outubro a abril e as temperaturas médias anuais são de 23,2 a 26,0ºC.

A espécie de café canéfora também é mais tolerante aos déficits hídricos intensos na região, que ocorrem no período de maio a setembro, podendo suportar até 200 mm por ano. A predominância do Estado (94%) possui altitudes de 100 a 600 m, sendo adequado à produção de canéforas, normalmente plantados em regiões com altitudes inferiores a 500 m.

Áreas mais planas são mais interessantes para a atividade, principalmente do ponto de vista da mecanização. O ciclo médio de maturação do café canéfora é mais longo, permitindo que a colheita não coincida com períodos chuvosos, além do processamento dos frutos.

Expansão da cultura

Rondônia se encontra em local privilegiado para o escoamento da produção por meio do oceano Pacífico, principalmente para o mercado asiático, que se encontra em franca expansão e possui grande potencial para o consumo da bebida. Com base nesses fatores, a Secretaria de Agricultura do Estado (SEAGRI) tem realizado diversos investimentos e desenvolvido planos de incentivo à produção de café.

O Estado possui condições edafoclimáticas muito favoráveis à cultura do café robusta, se assemelhando às de origem desta espécie. Possui, também, grandes áreas agricultáveis que podem ser adicionadas à cafeicultura sem que haja a necessidade de desmatamento.

Os agricultores rondonienses que já têm tradição na produção de cafés sustentáveis, orgânicos e arborizados encontram assim condições favoráveis para a expansão de suas lavouras.

Modernização

A agricultura rondoniense tem passado por intensa modernização, o que tem trazido grandes melhorias no desempenho produtivo, incorporando áreas degradadas com inserção de novas tecnologias, contribuindo assim para a melhoria da produção, aumento das produtividades e diminuição dos custos, além de reduzir a pressão sobre as florestas nativas, gerando sustentabilidade econômica, ambiental e social, trazendo assim investimentos para a região e crescimento da atividade agrícola, em especial a cafeicultura.

Os “robustas amazônicos”, que têm como principal produtor o Estado de Rondônia, vêm ganhando cada vez mais destaque no mercado nacional e internacional. Isso acontece devido, principalmente, a sua sustentabilidade e qualidade sensorial, chamando cada vez mais a atenção dos consumidores, agregando valor e melhorando o retorno financeiro aos produtores, o que faz com que estes invistam cada vez na cafeicultura e na expansão de seus cultivos.

Em destaque

A cafeicultura em Rondônia é relativamente jovem, se comparada aos outros Estados produtores no País, porém, se encontra em local de destaque, sendo hoje o quinto maior produtor nacional de cafés. Em se tratando da espécie Coffea canéfora, é o segundo maior, ficando atrás apenas do Espírito Santo.

Minas Gerais é, de longe, o Estado que produz mais café no Brasil, quase 50% de todo o café nacional, sendo o café arábica quase a totalidade deste montante. Em segundo lugar geral vem o Estado do Espírito Santo, com 30% do total nacional sendo, destes, pouco mais de 12 milhões de sacas de Conilon e 4,5 milhões de arábica.

Em 3º vem São Paulo, com 4,4 milhões de sacas de café sendo somente arábica. O Estado da Bahia ocupa a 4º colocação, com 3,7 milhões de sacas, sendo 2/3 do total de café da espécie Coffea canephora, e em quinto vem o Estado de Rondônia, com 2,6 milhões de sacas, produzindo praticamente apenas café robusta.

Rondônia, apesar de produzir café há menos tempo que os demais Estados que aparecem na lista, tem aumentado muito sua produção nos últimos anos, conseguindo assim ultrapassar e figurar entre os principais produtores da bebida no Brasil.

O Estado do Paraná, que outrora foi o maior produtor nacional de café, produzindo cerca de 70% do total do país, hoje se encontra em 6º lugar, atrás justamente de Rondônia. Rio de Janeiro também foi um dos principais produtores de café do País e hoje tem pouca relevância para a cultura.

Tendência

Todas as projeções indicam que a tendência é a cultura de café em Rondônia ganhar cada vez mais espaço e destaque nacional, podendo até, a médio prazo, alcançar posições mais altas do que a que ocupa hoje entre os maiores produtores de café do país.

O uso de tecnologias no processamento conta com uma nova gama de possibilidades na produção de cafés canéforas com qualidade. O trabalho da Embrapa Rondônia tem sido o de motivar e subsidiar as boas práticas no campo.

A colheita semimecanizada do conilon e robusta consiste, basicamente, no emprego de máquinas recolhedoras e trilhadoras do café baseadas no sistema de podas e renovação anual e/ou periódica das lavouras.

Assim, os ramos provenientes das podas, ainda contendo os frutos, formam leiras que são trilhadas mecanicamente ou podem simplesmente alimentar as máquinas de forma manual. Essa forma de colheita semimecanizada utiliza máquinas mais compactas e de menor custo, além de não exigir a obrigatoriedade da adequação espacial das lavouras de café.

No pós-colheita, os processos de secagem são lentos e cuidadosos. Os secadores solares também foram validados e recomendados para a melhoria da qualidade dos frutos em temperatura ideal (35 a 45°C) e de forma sustentável. Estes métodos são adequados para a produção de microlotes ou em pequenas áreas, como acontece no Estado.

Técnicas mais elaboradas de processamento dos frutos são constantemente desenvolvidas e validadas nos campos experimentais da Embrapa ou áreas de produtores.

Os processos de fermentações controladas, ou positivas, estão sendo cada vez mais adotados pelos cafeicultores. Resultado disso são os cafés premiados em concursos e que já fazem parte de um processo de transformação do perfil sensorial dos Robustas Amazônicos, deixando-os ainda mais exóticos e diferenciados.

Logo, o efeito da ação dos microrganismos nos grãos de café pode evidenciar e tornar as mais intensas características de acidez e doçura, deixando a bebida bastante equilibrada e interessante aos mais exigentes apreciadores de um bom cafezinho.

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