18.6 C
Uberlândia
sábado, junho 15, 2024
- Publicidade -spot_img
InícioDestaquesFruteiras em sistemas de produção de baixa emissão de carbono

Fruteiras em sistemas de produção de baixa emissão de carbono

Renata Elisa ViolEngenheira agrônoma e doutora em Fitotecnia – Universidade Federal de Lavras (UFLA)renataviol@live.com

Pomar – Foto: Shutterstock

Dentre os Gases de Efeito Estufa (GEE) emitidos pelas atividades humanas, o gás carbônico (CO2) é responsável por cerca de 70% do potencial de elevação da temperatura terrestre. Nos últimos 250 anos, a concentração de CO2 na atmosfera aumentou 31%, alcançando o mais alto nível observado nos últimos 420 mil anos.

O solo é considerado o principal reservatório temporário de carbono em um ecossistema, pelo carbono estocado nos perfis de solo. Entretanto, o carbono é um componente dinâmico e sensível ao manejo realizado no solo. Seu conteúdo encontra-se estável sob condições de vegetação natural, porém, com a quebra do equilíbrio pelo cultivo do solo em preparo convencional, geralmente ocorre redução no seu teor, resultado das novas taxas de adição e de perda.

A base

O solo se constitui num compartimento-chave no processo de emissão e sequestro de carbono, pois em termos globais, há duas a três vezes mais carbono nos solos em relação ao estocado na vegetação e duas vezes mais em comparação à atmosfera.

Assim, manejos inadequados do solo podem assumir um papel desastroso, pois podem mineralizar a matéria orgânica e emitir grandes quantidades de GEE para a atmosfera. Isto demonstra o grau de importância que manejos ecológicos de solos representam para o planeta atualmente.

Os solos em pomares de frutíferas de clima temperado desempenham um papel importante no ciclo do carbono. O acúmulo de carbono orgânico no solo (COS) ocorre pela deposição de material orgânico (serapilheira) na superfície do solo e da rizodeposição no ambiente radicular.

Relação direta

O carbono orgânico está diretamente relacionado com a fertilidade, qualidade e saúde do solo. Em solos saudáveis, com teores significativos de carbono orgânico, as frutíferas de clima temperado são capazes de obter crescimento ótimo e assim armazenar maior quantidade de carbono em seus órgãos vegetais.

Este processo acaba gerando um feedback positivo, pois a planta devolve o carbono ao solo pela deposição de serapilheira e armazenamento direto de carbono no subsolo por via radicular a partir da rizodeposição como descrito anteriormente.

 No Brasil, as queimadas e o desmatamento são as principais causas da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), responsáveis pelo aquecimento global. A agricultura e pecuária também contribuem para o aumento dos GEE com o uso intensivo de fertilizantes nitrogenados que liberam óxido nitroso, os processos digestivos dos ruminantes que emitem metano, a produção de dejetos animais, os processos anaeróbicos de decomposição da matéria orgânica e a liberação de CO2 pelas máquinas agrícolas que funcionam com combustível fóssil.

Consequências

Dentre as inúmeras consequências da elevação de temperatura da Terra, estão os prejuízos que mudanças climáticas podem causar à agricultura, ameaçando a produção de alimentos, condição vital para a sobrevivência humana no planeta.

Porém, existem outras formas de utilizar a terra que podem causar efeito inverso, incrementando o conteúdo de carbono no solo e na vegetação ao aumentar as quantidades de dióxido de carbono capturado, sem produzir um efeito aditivo às emissões oriundas de combustíveis fósseis.

A agricultura orgânica pode ser uma estratégia de manejo para sequestrar C em vez de emiti-lo na atmosfera. Sistemas de produção que utilizam técnicas de reciclagem de MO associadas a práticas agroecológicas confirmaram alto potencial para sequestro de C atmosférico, elevando o C orgânico do solo e reduzindo emissão de CO2, principal gás de efeito estufa.

E as frutas?

Os pomares de frutíferas apresentam um grande potencial no sequestro de carbono no solo devido ao seu tempo de vida útil e a partir da adoção de práticas sustentáveis, melhorando os serviços ecossistêmicos desempenhados pelo ecossistema solo.

A fruticultura convencional brasileira, em grande parte, preconiza o preparo excessivo do solo, por meio de arações e gradagens. Essas práticas promovem a desestruturação do solo, ou seja, perda das suas propriedades físicas que, aliado à ausência de resíduos vegetais, reduzem também suas propriedades biológicas e químicas.

Essa situação contribui para a emissão de gases de efeito estufa pela perda da matéria orgânica do solo e de nutrientes, além de favorecer os processos erosivos e de salinização e/ou sodificação, ocasionando prejuízo ao desenvolvimento da cultura e a degradação severa da área produtora.

Soluções

As práticas de cultivo mínimo do solo, a incorporação de restos culturais e resíduos orgânicos, a adubação verde e as rotações utilizando cultivos de cobertura com gramíneas ou leguminosas retêm o carbono nos solos por décadas, inclusive séculos.

Baseado nesses relatos e como as práticas da agricultura orgânica pressupõem o emprego de todas essas estratégias, estas se apresentam como excelentes alternativas para fixação do carbono e a redução do principal gás de efeito estufa, o CO2.

Em sistemas orgânicos de produção de fruteiras, pressupõe-se a reciclagem de resíduos orgânicos, como estercos de animais para inoculação de compostos, fato que contribui para elevar o estoque de carbono do solo, visto que estes retornariam para a atmosfera na forma de CO2, se não fossem reciclados.

As adubações dos solos com composto orgânico também contribuem significativamente para o aumento do estoque de carbono do solo, pela sua rica composição em matéria orgânica.

Produtividade

Os teores de carbono orgânico no solo, além de alterarem as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, tem relação direta com a produtividade primária líquida nos ecossistemas agrícolas e naturais.

Estudos têm demonstrado que a maior produtividade de frutíferas de clima temperado pode ser alcançada a partir do incremento nos teores de carbono no solo, bem como esses podem servir como sumidouros de carbono atmosférico, equilibrando a relação do carbono sequestrado versus carbono liberado por meio da decomposição, criando um feedback positivo.

O carbono orgânico no solo apresenta alta correlação com os nutrientes importantes para o desenvolvimento das culturas (N e P) e com a produtividade em pomares de frutíferas de clima temperado.

Nutrição

O fósforo é um dos três macronutrientes primários mais importantes para as plantas, juntamente com o nitrogênio e potássio Em pomares de sistemas orgânicos que apresentam solos com pH baixo, ocorrendo a deficiência de P, um fator muito importante é a simbiose entre as plantas com espécies de fungos micorrízicos arbusculares, que auxiliam na absorção de P, sendo que sistemas orgânicos apresentam melhores condições para a qualidade microbiana do solo.

Outro fator importante para a absorção de fósforo pelas plantas é a quantidade de matéria orgânica, pois esta interage com os óxidos de alumínio e ferro, ocasionando uma diminuição em seus sítios de fixação e permitindo um melhor aproveitamento de fósforo disponível no solo para as plantas.

O nitrogênio é um nutriente de fundamental importância no solo, tanto para produção primaria líquida quanto para a atividade da biota edáfica. Dessa forma, a aplicação de compostos orgânicos deve levar em consideração os teores de N.

As condições climáticas de uma região particular afetam a taxa de decomposição dos resíduos e seu acúmulo na forma de CO no solo. Sendo assim, regiões com temperaturas elevadas, típicas de clima tropicais, especialmente acima de 20°C, requerem maiores quantidades de resíduos agrícolas retornados aos solos, para manutenção ou elevação dos níveis de MOS.

Essas condições climáticas favorecem a decomposição da MOS, armazenando menos C em relação a regiões de clima temperado. Apesar dessa maior taxa de decomposição de MOS, os solos em regiões de clima tropical estocam 32% do total de C orgânico contido nos solos do planeta.

Vantagens

Sistemas orgânicos de produção frutícola que se baseiam em princípios ecológicos podem contribuir significativamente para o sequestro de carbono atmosférico. Dentre estes, destacam-se:

– Sistema diversificado com preservação parcial da vegetação nativa local;

– Fixação de carbono por área em capineiras utilizadas para produção de biomassa para a compostagem orgânica;

– Reciclagem de resíduos orgânicos pela compostagem orgânica, para produção de adubo orgânico para as culturas;

– Plantio direto sobre palhadas de adubos verdes;

– Cultivo solteiro de adubos verdes em rotação, visando proteção do solo e fixação de carbono e nitrogênio;

– Manutenção de corredor de refúgio com espécies espontâneas, visando manter a estabilidade ecológica e controlar a erosão;

 – Manejo da vegetação espontânea entre as linhas de cultivo, pela técnica da capina em faixa, proporcionando proteção do solo, maior diversidade, equilíbrio ecológico, controle de erosão e ciclagem de nutrientes no perfil do solo;

 – Manutenção da vegetação espontânea entre os canteiros pela roçada, para proteção do solo, para refúgio de predadores, proteção do solo e ciclagem de nutrientes;

 – Emprego da adubação em cobertura para melhoria nutricional das culturas, empregando-se composto orgânico e biofertilizantes líquidos;

Responsabilidade

Existe um compromisso nacional com a nova versão do Plano Setorial de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária (Plano ABC+), que pretende cortar a emissão de carbono em 1,1 bilhão de toneladas até 2030. Para tanto, são necessárias diferentes ações que comtemplam a redução das taxas de desmatamento, a ampliação da eficiência energética e um plano específico para ações no setor agrícola,

A promoção de oito formas de tecnologia está prevista no Plano ABC+: a recuperação de áreas degradadas; o plantio de 4,0 milhões de hectares de florestas; o tratamento de resíduos animais; a terminação intensiva de pastos; o uso de microrganismos a partir de bioinsumos; plantio direto com o mínimo de reviramento de solo e cobertura permanente com plantas vivas ou palhada; sistemas de irrigação eficientes que consumam pouca água; e sistemas integrados de plantio entre culturas diferentes e hortaliças.

Nesse sentido, o entendimento conceitual da Agricultura de Baixa Emissão de Carbono, traduzido em processos e tecnologias aplicadas, é importante para que os agricultores possam implantar sistemas de produção sustentáveis.

Assim, o aumento dos estoques de carbono no solo, condicionado ao retorno de maiores quantidades de resíduos vegetais e ao mínimo distúrbio do mesmo, bem como a inclusão de leguminosas para reduzir a utilização de fertilizantes sintéticos, por meio da fixação biológica de nitrogênio (FBN), são estratégias de mitigação às mudanças climáticas globais, que visam também manter e/ou aumentar os níveis de produção, contribuindo para a sustentabilidade.

ARTIGOS RELACIONADOS

Carbono voluntário: fatos que você desconhece

A Agrocarbon360 acaba de lançar a circular técnica de franquia, onde investidores poderão fazer parte deste mercado, proporcionando uma ótima lucratividade.

Brazil Conference & Expo, principal evento do mercado de FFLV, volta a ser realizado em SP

Encontro, antes intitulado PMA Fresh Connections, vai reunir palestras, workshops e oportunidade única para relacionamento

Potencial de produção de saponinas

Alguns estudos mostram que as saponinas provenientes das folhas da espécie têm potencial na formulação de vacinas, efeito semelhante ao da espécie chilena.

Irrigação é fundamental para a produção de mangas

Anteriormente à implantação de uma cultura, o perfil climatológico do local deve ser considerado ..

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!