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quarta-feira, agosto 10, 2022
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Liberação lenta garante nutrição mais eficiente para a citricultura?

Autores

Diógenes Martins Bardiviesso
Engenheiro agrônomo, doutor em Horticultura e professor de Agronomia – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS-Cassilândia)
bardiviesso@yahoo.com.br
Leandro Tropaldi
Engenheiro agrônomo, mestre em Agricultura e doutor em Proteção de Plantas e professor de Plantas Daninhas – UNESP – Dracena
l.tropaldi@unesp.br
Roque de Carvalho Dias
Engenheiro agrônomo, mestre em Proteção de Plantas e doutorando em Agronomia – UNESP/FCA
roquediasagro@gmail.com
Fotos: Shutterstock

Os nutrientes mais aplicados nos sistemas de produção agrícola são o nitrogênio (N), o fósforo (P) e o potássio (K), sendo os mesmos fornecidos principalmente por meio do uso de fertilizantes sólidos, na forma de grânulo, incorporados no solo quando a aplicação é feita no plantio, ou na superfície do solo quando a aplicação é feita com as plantas desenvolvidas no campo (adubação de cobertura).

A adubação de plantio é realizada em apenas uma aplicação, utilizando-se altas doses de fósforo, pois fertilizantes fosfatados apresentam baixo potencial salino e disponibilizam o nutriente para a planta por um longo período.

Os fertilizantes nitrogenados e potássicos são aplicados em doses baixas no plantio visando atender a necessidade da planta durante sua fase inicial, pois apresentam alta solubilidade e liberam os nutrientes rapidamente no solo, o que aumenta os riscos de toxidez por salinização. Além disso, ficam disponíveis no solo por um período curto, devido às perdas por lixiviação e, no caso do nitrogênio, também por volatilização.

Em cobertura

Na adubação de cobertura é realizado o fornecimento do que falta para a planta completar seu ciclo, principalmente quanto ao nitrogênio e ao potássio, sendo essa dose parcelada e aplicada em diferentes períodos, visando atender à necessidade da cultura em suas diferentes fases de desenvolvimento.

Se a adubação de cobertura for realizada em uma única aplicação com os fertilizantes convencionais, que são altamente solúveis, os nutrientes serão liberados rapidamente, a planta aproveitará uma pequena parte conforme sua necessidade e grande parte desses nutrientes ficará no solo à mercê de perdas por lixiviação e volatilização. Além disso, há o risco de se ter problemas com toxidez devido à alta disponibilidade do nutriente no solo.

Lixiviação

Como foi citado anteriormente, as perdas de nutrientes e a toxidez devem-se, principalmente, à característica de liberação rápida dos nutrientes quando são utilizados fertilizantes convencionais, o que ocorre com menor frequência quando se utiliza os fertilizantes de liberação lenta.

As menores perdas e os menores riscos de toxidez devem-se às tecnologias usadas na confecção dos fertilizantes de liberação lenta, que possibilitam retardar e estender a disponibilidade de nutrientes para as plantas, como: ureia formaldeído, revestimento com enxofre, revestimento com polímeros e revestimento com enxofre + polímeros.

Composição

O revestimento de enxofre é muito utilizado em ureia visando reduzir a taxa de liberação de nitrogênio. Para se fazer este revestimento, primeiramente, os grânulos de ureia são revestidos com subprodutos de petróleo para atuarem como selantes.

Posteriormente a ureia é pré-aquecida para depois receber o enxofre fundido a 159ºC e, por último, são adicionadas ceras e agentes condicionantes. No solo, a cera é degradada por microrganismos, que também oxidam o enxofre, e depois a água entra através das fendas na estrutura de enxofre e o nitrogênio é liberado.

O revestimento com polímeros é utilizado tanto para nitrogênio como para fósforo e potássio. Nestes fertilizantes, a liberação dos nutrientes ocorre lentamente por meio de difusão, por meio da camada de polímeros que reveste os grânulos. A água atravessa o revestimento na forma de vapor e dissolve o grânulo, e após essa solução é liberada lentamente para o solo através da camada de polímeros.

Os fertilizantes revestidos com enxofre e polímeros aliam as duas técnicas já citadas e, portanto, possibilitam um melhor controle da disponibilidade de nutrientes ao longo do tempo.

Vantagens

Uma grande vantagem dos fertilizantes de liberação lenta é que os nutrientes são liberados gradativamente em pequenas quantidades. Com isso, a planta consegue absorver a maior parte dos nutrientes liberados e uma quantidade mínima permanece livre no solo à mercê de perdas por lixiviação e volatilização.

Para se ter uma ideia, já foram constatadas reduções de perda de N por volatilização de até 98% com o uso de ureia de liberação lenta em comparação com o uso de ureia convencional. Portanto, a adubação é mais eficiente, e devido às menores perdas de nutrientes, há recomendações de se reduzir a dose até pela metade, quando são utilizados os fertilizantes de liberação lenta.

Os fertilizantes de liberação lenta também permitem a redução do parcelamento da adubação e, consequentemente, a diminuição dos custos desta operação, como mão de obra, máquinas e implementos, principalmente em culturas perenes, como os citros, que necessitam do fornecimento dos nutrientes praticamente o ano todo, sendo necessárias várias aplicações durante a safra para atender a necessidade da cultura.

Recomendações

 Em adubações de formação e produção é comum o parcelamento de três a cinco aplicações por safra na citricultura quando são usados fertilizantes convencionais, contudo, quando se utiliza fertilizantes de liberação lenta este número pode ser reduzido em uma ou duas aplicações.

Muitos produtores de café têm eliminado a adubação de formação em cobertura no primeiro ano de plantio, fornecendo os nutrientes necessários para a cultura no primeiro ano apenas com a adubação de plantio utilizando-se fertilizantes de liberação lenta, prática que também poderia ser utilizada para citros.

 Na produção de mudas cítricas, a adubação com N, P e K normalmente é realizada em várias aplicações por meio da fertirrigação. Já com o uso de fertilizantes de liberação lenta a fertirrigação pode ser reduzida ou até eliminada, uma vez que há fertilizantes de liberação lenta no mercado que são misturados ao substrato e fornecem nutrientes de forma gradativa por um período de até nove meses.

Manuseio

Outra vantagem que também pode ser citada pelo uso de fertilizantes de liberação lenta é a facilidade de manuseio de fertilizantes nitrogenados no armazenamento e na aplicação. Os fertilizantes convencionais “empedram” facilmente, pois são muito higroscópicos, fato que dificulta seu armazenamento em períodos úmidos.

Além disso, o “empedramento” dificulta a operação de adubação, pois é necessário realizar a passagem do adubo em “peneirão” e quebrar as “pedras” para se evitar o “embuchamento” dos implementos, fato que ocorre com menor frequência quando são utilizados os fertilizantes nitrogenados de liberação lenta.

O uso de fertilizantes de liberação lenta vem ganhando destaque na citricultura devido às suas diversas vantagens, entretanto, o maior entrave para sua difusão são os custos, pois seu preço pode ser de 1,5 a 10 vezes maior do que os fertilizantes convencionais.

Fertilizantes encapsulados normalmente são mais caros, tendo seu uso muito difundido na produção de mudas, que é uma atividade de alto retorno financeiro, no entanto, há empresas que comercializam fertilizantes de liberação lenta a uma tecnologia viável economicamente para sua aplicação em campo. Também há empresas que fazem o tratamento de fertilizantes convencionais com polímeros na própria fazenda, possibilitando assim a redução dos custos com o uso da tecnologia.

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