Larissa Pacheco Nogueira
Engenheira Agrônoma – UFRA
larissanogue@gmail.com
Sinara de N. Santana Brito
sinara.santana@unesp.br
Harleson Sidney Almeida Monteiro
harleson.sa.monteiro@unesp.br
Engenheiros agrônomos, mestres e doutorandos em Agronomia/Horticultura – UNESP
A primeira melancia híbrida sem semente de que se tem registo ocorreu no Japão, em 1947, porém, seus estudos começaram ainda na década de 30. Esse primeiro passo criou possibilidades e instigou o desenvolvimento de pesquisas para aprimorar as técnicas genéticas para produzir o fruto sem semente.
No Brasil, apenas na década de 90 foram iniciados os estudos com a Embrapa Hortaliças em convênio com centros de pesquisa do Japão.
Em 1996, foi a vez da Embrapa Semiárido estudar os híbridos experimentais sem sementes, com o desenvolvimento de linhas tetraploides e diploides. Para obtenção da melancia sem sementes híbrida triploide (3x=2n=33) ocorreu o cruzamento de uma planta diploide (2x =2n=22) com uma planta tetraploide (4x=2n=44).
Como a melancia sem sementes foi originada
Na meiose de plantas diploides (2n) a separação dos cromossomos homólogos resulta em dois conjuntos de 11 cromossomos e nos polos opostos da célula originam quatro gametas com 11 cromossomos.
Diferentemente, na meiose em plantas triploides (3n) o número de cromossomos que migra para os polos celulares é assimétrico, entre 11 e 22. Assim, células com número cromossômico nesse intervalo originam gametas inviáveis e óvulos que não são fecundados, portanto, não havendo formação de sementes.
Para que haja formação de sementes, são necessários óvulos com exatamente 11 e 22 cromossomos. Em triploides (3n) ocorre um gameta viável a cada 1.000. Isso faz com que sejam essenciais plantas diploides para a formação e desenvolvimento de melancia sem sementes.
Por conta das plantas triploides (3n) terem número de cromossomos assimétrico, elas não produzem grãos de pólen viáveis suficientes. Desse modo, plantas diploides (2n) são usadas com doadoras de pólen, que são capazes de germinar e emitir tubo polínico, mesmo em estigma de flores pistiladas das variedades triploides. Assim, promovem a liberação de fitormônios que ativam o mecanismo de partenocarpia dos frutos.
Figura 1. Ciclo de produção e polinização da melancieira
Autor: Harleson Monteiro, 2024.
Polinização manual
A polinização manual cruzada consiste em proteger os botões florais pistilados (femininos) que se encontram na fase de pré-antese com sacos de filó ao final da tarde. Na manhã seguinte, desensacar os botões florais que abrirem e submeter ao procedimento de polinização manual com pólen de uma flor estaminada (masculina) oriunda de uma doadora de pólen diploide (2n).
Para tanto, retirar duas flores estaminadas e dobrar as pétalas para trás, depois, manualmente, esfregar suavemente as anteras dessas flores por toda a superfície dos três lóbulos do estigma das flores pistiladas.
Imediatamente após a polinização, proteger novamente essas flores pistiladas, mantendo-as assim até a manhã do dia seguinte, a fim de evitar qualquer contaminação com outros tipos de pólen.
A utilização de polinizadores no cultivo da melancia sem semente é possível, porém, a possibilidade de ocorrer o desenvolvimento de frutos irregulares é maior. A flor da melancia requer de 500 a 1.000 grãos de pólen para a formação de um fruto ideal.
Dessa forma, a visita de um único polinizador provavelmente não suprirá a necessidade do grão de pólen. Portanto, a implantação e manejo são importantes para o sucesso desse tipo de polinização.
Condições para o cultivo
Para o cultivo de melancia sem semente (triploide; n=33), é necessário o plantio de variedades com sementes (diploide; n=22) na mesma área, que será a doadora de pólen. No entanto, para evitar que ocorram baixos rendimentos ocasionados por déficit na polinização em plantas tripoides, é ideal que sejam plantadas de 20 a 30% de doadoras diploides em razão de 4:1 ou 3:1 em distância não maior que 4,5 m uma da outra.
Os polinizadores mais utilizados nesse tipo de cultivo, principalmente em cultivos sob ambiente protegido, são as abelhas dos gêneros Apis e Bombus, consideradas sociais. Elas se adaptam facilmente a cultivos em casa de vegetação.
Um dos principais gargalos da produção de melancia sem sementes é a dependência biótica de plantas diploides como doadoras para plantas triploides produzirem frutos partenocárpicos.
Desafios
A produção de melancia sem sementes exige mão de obra especializada para a polinização, tanto manual quanto com agentes polinizadores, pois a polinização irregular ou inadequada afeta a produção comercial dos frutos e, consequentemente, a rentabilidade do produtor.
As sementes tetraploides e triploides têm baixo vigor e poder germinativo, com cerca de 2% de viabilidade. Tendo isso em vista, é recomendável que se faça o plantio de mudas para transplante em campo ou estufa. Para variedades diploides (plantas doadoras de pólen), devem ser plantadas no máximo 4,5 m das plantas triploides na linha entre plantas ou entrelinhas.
A cultura da melancia e das cucurbitáceas em geral tem melhor desenvolvimento em condições de clima tropical, com temperatura variando de 25 a 32°C. Temperaturas excessivamente altas, em torno de acima de 38°C, bem como abaixo de 10°C, afetam o funcionamento dos órgãos internos da planta, paralisando o desenvolvimento, crescimento e formação das flores, favorecendo a má formação de frutos e, em consequência, a queda da produção.
Irrigação
A irrigação para a produção da melancia é essencial, pois essa cultura tem alto desenvolvimento vegetativo, o que ocasiona elevada taxa de evapotranspiração. Ademais, o déficit hídrico, principalmente na época de frutificação, pode prejudicar o desenvolvimento e qualidade dos frutos que vão para o mercado. Para a irrigação, os sistemas mais adotados são por gotejamento e sulco.
Os espaçamentos mais comuns nos cultivos de melancia, irrigados por aspersão são: 2,0 m x 2,0 m para variedades de frutos alongados e 2,0 m x 1,5 m para variedades de frutos arredondados, com duas plantas por cova.
Nos cultivos irrigados por sulco ou gotejamento, recomenda-se um espaçamento que pode variar de 2,5 m a 3,0 m x 0,5 m a 1,0 m, utilizando-se apenas uma planta por cova.
Figura 2. Croqui de plantio de melancieira com sistema de irrigação por aspersão, em espaçamento 2,0 m x 2,0 m
Autor: Harleson Monteiro, 2024.
A planta de melancia é capaz de tolerar solos com acidez moderada, apresentando boa produção naqueles com pH entre 5,0 e 6,5. No entanto, o pH ideal para desempenho ótimo está na faixa de 6,0 a 6,5, ou com saturação por bases de 70%.
Nesse sentindo, antes de implantar a cultura, é importante fazer análise do solo e aplicar a correção com calagem mediante os resultados.
Adubação e fitossanidade
A adubação para a cultura deve seguir as recomendações para a cultura e a região. Os adubos devem ser aplicados cerca de 10 cm longe dos ramos e caule, para evitar queimaduras dos tecidos.
Ademais, é importante o constante monitoramento para identificação de deficiência nutricional, em especial deficiência de cálcio, para fazer as correções necessárias para o melhor desenvolvimento e crescimento da cultura.
O controle fitossanitário deve ser feito durante todo o ciclo da cultura para não haver danos econômicos. As principais pragas e doenças que atacam a melancia são: tripes (Thripes tabaci e Thripes palmi), pulgões (Myzus persicae e Aphis gossypii), as brocas (Diaphania hyalinata e Diaphania nitidalis), a mosca-minadora – Liriomyza sp. (Diptera: Agromyzidae) e a mosca-branca (Bemisia tabaci), damping-off (ocorre a morte da plântula logo após a emergência) e mancha do fusário (Fusarium oxysporum).
Colheita
A colheita do fruto ocorre quando ele atinge a maturação, geralmente entre 60 e 65 dias. Os indicadores de maturação incluem o secamento da gavinha e do pedúnculo, mudança de cor da casca de branca para amarelada na parte em contato com o solo, som oco ao toque e teor de sólidos solúveis de cerca de 10 °Brix.