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Silício x requeima do tomateiro

O silício auxilia na proteção contra pragas e doenças, além de reduzir os estresses hídricos. Ele melhora o crescimento, fotossíntese e aumenta os níveis de clorofila e carotenoides.

Marcos Giovane Pedroza de Abreu
marcos.pedroza@unesp.br

Luana Laurindo de Melo
luana.l.melo@unesp.br
Engenheiros agrônomos e doutorandos em Agronomia/Proteção de Plantas – UNESP/FCA

O tomate (Solanum lycopersicum Mill.) é uma hortícola de importância mundial, cultivada e consumida em todo o mundo. Em 2022, a produção brasileira de tomate foi de 3.753.595 ton.

Sintomas de requeima
Crédito Ricardo B. Pereira

No entanto, a cultura sofre com o ataque de numerosas pragas e doenças que reduzem a produtividade e a qualidade final do produto. Dentre as doenças, a requeima se destaca como a de maior potencial destrutivo na cultura, pois o patógeno tem um elevado potencial de disseminação e pode colonizar toda a parte aérea da planta (caule, folhas e frutos).

A temida requeima

Phytophthora infestans (Mont.) de Bary, é o agente causal da requeima do tomateiro. O patógeno, apesar de apresentar semelhanças com os fungos, pertence ao filo Oomycota, fato relevante no momento de selecionar produtos adequados ao seu controle.

A principal forma de infecção pelo patógeno é por esporos assexuados (esporângios), que são disseminados pela água ou pelo vento e quando atingem tecidos sadios nas plantas, sobre condições favoráveis de temperatura (18 – 25°C), infectam a planta diretamente.

Em condições desfavoráveis (8-18°C), dos esporângios são liberados oito zoósporos (esporos móveis), que se locomovem por filmes d’água, germinam e infectam os tecidos das plantas.

Cuidado!

Deve-se ter maior atenção quanto à ocorrência de períodos frios e com alta umidade relativa. Desta forma, a quantidade de inóculo produzida pela patógeno é mais elevada, e novos ciclos de infecção podem ocorrer em curtos períodos.

Além da disseminação aérea, a dispersão do patógeno por sementes também é uma preocupação, principalmente quando são transportados frutos assintomáticos.

Novas raças de requeima

P. infestans é um patógeno heterotálico (autoestéril), havendo dois grupos de compatibilidade: A1 e A2, e os dois grupos são encontrados no Brasil. O patógeno tem um baixo nível de diversidade e a sua distribuição é bastante influenciada pela preferência de hospedeiros.

No tomateiro, encontramos populações pertencentes ao grupo de compatibilidade A1 (linhagem clonal US-1). Para que o patógeno se reproduza de forma sexuada, é necessário o encontro entre os dois grupos de compatibilidade A1 e A2, formando oósporos, esporos sexuados que também são utilizados como estrutura de resistência pelo patógeno.

Este tipo de reprodução parece não ocorrer nas populações encontradas no Brasil. A variabilidade das populações do patógeno no Brasil são derivadas principalmente de mutações, o que pode gerar populações insensíveis aos grupos químicos utilizados no manejo da doença.

Isolados pertencentes à linhagem do patógeno encontrada no tomateiro já demonstraram insensibilidade ao fungicida sistêmico metalaxil. Alguns estudos também demonstram que, em condições de laboratório, a exposição do patógeno a mefenoxam (metalaxil) uma única vez é suficiente para selecionar populações resistentes.

No entanto, ainda não há certeza se esta resistência à molécula é gerada por mutação ou se é apenas uma adaptação fisiológica do patógeno, visto que populações resistentes, após cultivo sucessivo sem a presença do fungicida, voltaram a apresentar sensibilidade.

Apesar disso, ainda não há relatos de populações resistentes aos fungicidas protetores utilizados no manejo da doença em tomateiro.

Ação do silício

O silício (Si) é o segundo elemento mais abundante da terra. O elemento não é essencial para o desenvolvimento de plantas, sendo considerado um elemento benéfico. No entanto, não se encontra em uma forma prontamente disponível para ser absorvido pelas plantas.

Para ser absorvido, deve estar na forma de ácido silícico (Si (OH)4). A aplicação de silício demonstra benefícios às plantas, principalmente em relação à tolerância a fatores de estresses bióticos (pragas e doenças) e abióticos (hídrico, toxidez por metais, frio, acamamento).

Alguns trabalhos demonstram que a aplicação de silício via foliar no tomateiro reduz a incidência e a severidade da requeima.

O silício pode auxiliar na proteção das plantas por mecanismos físicos, bioquímicos e moleculares, agindo no fortalecimento da parede celular vegetal, formação de papila e aumento da atividade de enzimas relacionadas à defesa.

Observa-se, ainda, produção de compostos antimicrobianos, ativação de genes relacionados à defesa e ação em vias de sinalização hormonal, por meio do ácido salicílico (AS), jasmonatos (JA) e etileno (ET).

Benefícios adicionais

A aplicação do ácido silícico via foliar na cultura do tomate tem demonstrado maior eficiência na absorção do elemento pelas plantas. Em estudos de biofortificação, a aplicação do ácido silícico melhorou consideravelmente as características produtivas das plantas de tomate.

Contudo, estudos realizados com a aplicação de nanopartículas de dióxido de silício SiO2 também demonstraram eficiência na melhoria de aspectos fitotécnicos e fitossanitários para a cultura.

O tomateiro agradece

A aplicação de silício tem demonstrado grande potencial para a tomaticultura. Ele potencializa o desenvolvimento do tomateiro, melhorando o crescimento, fotossíntese, o aproveitamento de nitrogênio pelas plantas, além de aumentar os níveis de clorofila e carotenoides.

A aplicação de silício também pode reduzir efeitos de estresse hídrico no tomateiro. Em um estudo realizado na fase de mudas, a aplicação de silício levou ao aumento do crescimento e da concentração de clorofila e carotenoides em plantas sobre estresse hídrico.

O silício também auxilia na proteção contra pragas e outras doenças da cultura. A aplicação foliar de uma formulação de ácido silícico (silício 0,8%) reduziu a população de imaturos das duas principais pragas do tomateiro em cultivo protegido – mosca-branca (Bemisia tabaci) e Tuta absoluta.

Contra pragas

Há, ainda, casos de envolvimento do silício na redução de danos ao tomateiro por patógenos como Ralstonia solanacearum, Pseudomonas syringae pv. tomato, Xanthomonas campestris pv. vesicatoria, Pectobacterium carotovorum subsp. carotovorum, Fusarium oxysporum f. sp. radicis-lycopersici e Alternaria solani.

As pulverizações são indicadas quando a doença já está estabelecida
Crédito: Luize Hess

O silício também pode melhorar a tolerância do tomateiro a condições de elevada presença de metais, tanto no solo quanto pela reutilização de águas residuais e auxiliar em casos de tolerância a estresse salino, onde já foi demonstrado retardamento da senescência em tomateiros induzido pelo estresse salino, aumentando a síntese de citocinina.

Fontes confiáveis de silício

Existem diferentes materiais que os produtores podem utilizar como fonte de silício em suas plantas, como: fonolito, silicato de cálcio, silicato de cálcio e magnésio, silicato de potássio, termofosfato magnesiano, termofosfato magnesiano potássico e termo-superfosfato.

Dentre essas opções, o silicato de cálcio pode ser considerada a fonte mais comum de silício, pois é amplamente conhecida em escória siderúrgica.

Prevenir é sempre melhor

Os produtores podem conduzir a aplicação de silício em cultivos de tomate de forma preventiva e curativa. Em caráter preventivo, o elemento possibilita ganhos produtivos às plantas, mesmo quando não ocorre o surgimento da doença.

Até o momento, ainda são poucos os trabalhos referentes à absorção e acumulação de silício pelas hortaliças, fato que dificulta a obtenção de doses recomendadas para uso contra requeima. Todavia, não foram relatadas doses que fossem prejudiciais ao desenvolvimento do tomateiro.

Alguns estudos apontam que a pulverização mecânica de 1,0 a 8,0 l/ha seria o recomendado. Para aplicação a lanço, estudos descrevem que 1,2 a 1,5 t/ha de material fino (pó) seria o ideal, assim como 0,5 a 0,8 t/ha para o silicato granulado por aplicação na linha de plantio.

Independente da forma de aplicação ou da dosagem, em todos os estudos observam-se resultados positivos com o uso dos silicatos.

De forma geral, o uso do silício na agricultura representa baixo custo, e tem potencial para reduzir as aplicações de defensivos agrícolas na tomaticultura.

Técnicas de manejo

Para que a aplicação do silício possa ser aproveitada ao máximo, a associação de técnicas de manejo da requeima são recomendadas.

  • É importante o produtor realizar o plantio de cultivares de tomate tolerantes ou resistentes à requeima;
  •  Manter adubação equilibrada, principalmente sem excessos de nitrogênio;
  • Garantir adubação com doses recomendadas de silício;
  • Evitar plantios adensados e em áreas com histórico de ocorrência de requeima e eliminar restos de culturas infectados.
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