Sistema atrai lagartas para longe da lavoura de milho

0
863

Autores

Talita de Santana Matos
talitasnatos@gmail.com
Elisamara Cadeira do Nascimento
elisamara.caldeira@gmail.com
Doutoras em Agronomia/Ciência do Solo – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Glaucio da Cruz Genuncio
Doutor em Nutrição Mineral de Plantas e professor do departamento de Fitotecnia – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
glauciogenuncio@gmail.com

Crédito: Luize Hess

Dentre as pragas mais prejudiciais para a cultura do milho está a lagarta-do-cartucho, capaz de reduzir entre 17,7 a 55,6% o rendimento de grãos. Sua gama de hospedeiros inclui, no entanto, quase 100 espécies de plantas em 27 famílias. Essa compreende um complexo de espécies do gênero Spodoptera, constituído no Brasil principalmente por quatro espécies, Spodoptera frugiperda, Spodoptera eridania, Spodoptera cosmioides, e Spodoptera albula. É considerada a mais prejudicial, por atacar as plantas tanto na fase vegetativa quanto na fase reprodutiva. Sua ocorrência é mais abundante nos períodos de estiagem.

Os insetos adultos são mariposas de hábitos noturnos. As fêmeas depositam os ovos nas folhas das plantas hospedeiras e depois os cobrem com pelos e escamas que retiram do próprio corpo. A duração do período larval pode chegar a 30 dias. As pupas são encontradas no solo, a poucos centímetros de profundidade. O ciclo do ovo ao adulto dura de 20 a 60 dias, dependendo das condições climáticas.

Ataque

O início do ataque ocorre pela colocação de ovos nas folhas, dando origem a lagartas muito pequenas que raspam a folha de milho, deixando uma membrana translúcida para trás. A fase de ovo dura cerca de três dias. As lagartas iniciam raspando as folhas mais novas, antes mesmo delas se abrirem. Quando maiores, alojam-se no cartucho do milho e começam a devorar as folhas novas e a parte apical do colmo. Os sinais de seu ataque são folhas que já nascem recortadas e detritos no interior do cartucho.

À medida que as lagartas crescem, aumentam os danos nas folhas e no cartucho do milho. Bem desenvolvida, a lagarta mede em torno de 5,0 cm de comprimento, e a fase larval dura de 12 a 30 dias.

O ataque quando ocorre nos primeiros estádios de desenvolvimento da cultura, e pode provocar a morte das plantas, reduzindo o estande. Em estádios mais adiantados, pode atacar o pendão e até mesmo as espigas em formação. Também podem ocasionam má formação ou mesmo impedir a formação de grãos.

O ataque deste inseto também pode levar a danos diretos às plantas, por meio de sua penetração nos tecidos, onde deixam orifícios que se constituem porta de entrada para fungos e bactérias, agentes estes causadores de várias doenças, diminuindo o potencial de produção e a qualidade dos grãos.

As larvas também penetram no colmo através do cartucho, causando o sintoma conhecido como “coração morto”, devido a danos ao ponto de crescimento da planta.


Sem confundir

Nos ataques às espigas, é comum que se confunda Spodoptera frugiperda com Helicoverpa zea. Para a diferenciação, além das características morfológicas de cada espécie, há diferenças comportamentais. A lagarta-do-cartucho pode penetrar em qualquer parte da espiga, inclusive pela parte basal.

Já a Helicoverpa zea prefere alimentar-se dos cabelos do milho e dos grãos localizados no topo da espiga. O ataque na fase inicial da lavoura também é comum. Nesse caso, os danos são semelhantes aos da lagarta-rosca (Agrotis ipsilon).

As lagartas andam pelo chão e atacam as plântulas a partir da região do colo. Quando não as consomem por inteiro, causam a murcha, o tombamento e a morte, o que pode reduzir consideravelmente o estande da cultura.

A lagarta-do-cartucho ocorre em todas as regiões produtoras, tanto nos cultivos de verão quanto nos de segunda safra (safrinha), não só no Brasil, mas em toda a América, assim como em países de África e da Ásia.

Controle

O controle da lagarta-do-cartucho tem sido realizado essencialmente com inseticidas químicos. Entretanto, o grau de seletividade aos agentes de controle biológico geralmente não tem sido levado em consideração, com várias aplicações seguidas no mesmo cultivo, sendo inconsistentes e muitas vezes insatisfatório para controlar a praga em campos de milho. Isso é complicado pelo envenenamento crônico de agricultores em algumas localidades, devido ao uso incorreto.

 O uso de produtos químicos de amplo espectro de ação para o controle de pragas pode provocar o reaparecimento da praga-alvo, surtos de pragas secundárias e desenvolvimento de resistência aos inseticidas, bem como implicações ao meio ambiente.

A utilização de cultivares resistentes por meio de melhoramento genético é uma importante ferramenta, no entanto, devido à resistência aos métodos de controle, ainda não se encontraram resultados eficientes.

Novidades

Diante da necessidade de desenvolver o manejo integrado de pragas (MIP) mais adequado e econômico, alguns pesquisadores no Continente Africano e na Ásia vêm estudando um sistema de cultivo associado, chamado “tecnologia push-pull”.

Esse sistema foi desenvolvido pelo Centro Internacional de Fisiologia de Insetos e Ecologia (ICIPE) e parceiros (África), além de estudos realizados pelo Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, juntamente com o Governo do Nepal em um projeto chamado ‘Nepal Seed and Fertilizer project’, a partir da observação do comportamento e modificando os estímulos para manipular a distribuição e abundância da lagarta-do-cartucho e seus inimigos naturais.

Convencionalmente, o sistema envolve o consórcio de milho com uma planta repelente e o plantio de uma planta atraente, que funciona como armadilha. A cultura armadilha é colocada no entorno do consórcio no campo. Sendo assim, mariposas de Spodoptera frugiperda são afastadas da cultura do milho pela planta repelente e são simultaneamente atraídas pela cultura-armadilha.

As culturas utilizadas são o Desmodium uncinatum Jacq. (Leguminaceae), utilizado como cultura repelente, plantado nas entrelinhas do milho, e o Pennisetum purpureum Schumach (Poaceae) (pull), como planta atraente, plantada no entorno do consórcio milho + Desmodium.

O mecanismo de controle funciona pela liberação de compostos voláteis liberados pelo Desmodium que repelem as mariposas fêmeas e impedem a oviposição e atraem os inimigos naturais, enquanto as plantas de Pennisetum purpureum liberam compostos que atraem as mariposas.

No entanto, Pennisetum purpureum não são adequadas para a sobrevivência das fases larvais, resultando em mortalidade e atraso no desenvolvimento das larvas. Há também maior diversidade, abundância e atividade de artrópodes predadores naturais, o que favorece a diminuição das populações de lagartas.

Adaptação

A tecnologia push-pull foi recentemente adaptada às condições cada vez mais secas e quentes associadas à mudança climática, por meio da identificação e incorporação de plantas companheiras tolerantes à seca.

Apelidado de ‘push-pull adaptado ao clima’, a tecnologia usa o Desmodium greenleaf tolerante à seca, Desmodium intortum (Mill.) Urb. (Leguminosae), e Brachiaria cv Mulato II (Poaceae) como as culturas que ‘empurram’ e ‘puxam’, respectivamente.

De acordo com esses pesquisadores, no geral os experimentos têm mostrado reduções altamente significativas nos níveis de infestação da lagarta do cartucho (média de 82,7%) em relação ao monocultivo de milho. Estas observações foram associadas a reduções altamente significativas de plantas de milho danificadas pelas larvas (média de 86,7%).

Os rendimentos médios estão 2,7 vezes superiores nas parcelas ‘push-pull’ em relação às parcelas com monucultivo de milho. Estes resultados indicam sua estabilidade e resiliência e que esta tecnologia é sustentável para uma abordagem no manejo integrado de pragas.

No entanto, estes resultados não podem ser atribuídos unicamente ao controle da lagarta, mas a um impacto positivo e acumulativo na melhoria das condições do solo, por meio do aumento dos teores de nitrogênio pela fixação biológica realizada pelo Desmodium, controle de plantas invasoras, manutenção da umidade pela cobertura do solo, aumento nos teores de matéria orgânica e, consequentemente, além das melhorias químicas do solo, também melhorias físicas.

Estes pesquisadores ainda buscam elucidar completamente os mecanismos de controle da lagarta por essa tecnologia, afim de permitir sua otimização e disseminação estratégica como uma ferramenta para o controle da lagarta-do-cartucho.